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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Geladeira nas costas

O menino se esforça: corre, sua, ataca, defende, busca usar os limites de sua força. Termina a partida extenuado mas, ainda assim, sentimos - eu e ele - que não atingiu sua melhor performance no jogo. É campeonato, vale ponto na tabela. A família está assisitindo, o ginásio está cheio, o árbitro é mais rigoroso e o treinador, também. O que será que aconteceu?


Jogar futebol exige uma certa calma, digo, alguma tranquilidade por dentro, aquilo que vai possibilitar fazer escolhas mais lúcidas numa partida. Correr é fundamental, mas a correria desenfreada, no mais das vezes, denuncia o nervosismo. Em jogos infanto-juvenis isso é um baita aprendizado, especialmente quando a família vai assitir a um campeonato!

É como costumo explicar, muitas vezes, aos papais e mamães que perguntam por que o time não rendeu assim, ou não rendeu assado. Procuro lembrar da situação de apresentações infantis de teatro, de música - ensaiar é uma coisa, subir no palco é outra. Um aluno, recentemente, quando toquei neste assunto do nervosismo, ilustrou perfeitamente a situação do palco: "É quando você se pergunta, com o violão na mão: 'cadê a nota?' ". Um amigo, músico profissional, diz que precisa ensaiar cento e dez por cento para conseguir apresentar oitenta por cento do que sabe.

Voltando ao futebol e ao bravo jogador do primeiro parágrafo, existe uma gíria dos boleiros que expressa este tipo de situação: é quando dizemos que o jogador está com uma geladeira nas costas. Um peso desnecessário, absurdo na verdade. Transitar por momentos assim faz parte do amadurecimento, mas fico particularmente atento quando alguém empaca neste lugar. E a geladeira não sai dali.

Existem pessoas que, por algum motivo, passam a sentir uma responsabilidade exagerada, por si e pelos outros. É muito comum na infância. Quando isso acontece dentro de campo, seja o craque mirim mais ou menos habilidoso, o que acaba acontecendo é uma piora em seu desempenho. Mas por que isso ocorre?

Tomar para si uma responsabilidade notadamente distorcida sugere uma tentativa de controlar o desenrolar do jogo, de seus eventos decisivos. Como se, no imaginário, o resultado dependesse quase que exclusivamente do próprio sujeito. Na realidade objetiva sabemos que isso não funciona, mas na hora do sangue quente, suponho, isto é o que se afigura internamente nestes casos - esteja a pessoa consciente disso, ou não. A piora no desempenho vem da geladeira nas costas. O corpo fica pesado, os movimentos não são leves, perde-se a espontaneidade, a fluência; a calibragem da intensidade desanda junto com o nervosismo.

Isto, na verdade, é um tremendo medo de errar. De, aos olhos alheios, fracassar, ou, simplesmente, de não ser tudo aquilo que acha que esperam de si próprio. Inclusive a dinâmica familiar pode funcionar assim, sem que os pais percebam. Daí o frágil mecanismo de defesa contra o erro: 'vou assumir essa parada, vou controlar o jogo todo'. É um recurso, digamos, de onipotência frente ao risco da derrota. "Depende só de mim", se arvora o guerreiro. Fico muitas vezes impressionado como até jogadores profissionais podem apresentar este comportamento. 

Mas a realidade bate à porta. Quantas vezes forem necessárias. O risco está posto, perder é do jogo. Arriscar-se à vitória tem mais a ver com confiar nos colegas, fazer a sua parte sendo solidário, relaxar um pouco com a expectativa de desempenho e... mostrar-se imperfeito. Como todos nós. Quando a possibilidade do erro, da derrota, pode ser encarada de forma mais natural, uma fenda se abre: é justamente o caminho a percorrer em busca da vitória, até mesmo para desfrutar melhor da partida em si. O jogo jogado, como dizem os boleiros - imprevisível, por isso mesmo apaixonante. 

Tirar a geladeira das costas é poder abraçar a dimensão trágica do futebol e - por que não? - da vida, mesmo. Não é preciso esse peso a mais se, diante do ideal de perfeição, partimos todos derrotados de antemão. Por dentro, um coração de jogador mais calejado.

Isso é correr o risco. Até de vencer.

Aquele abraço, saudações esportivas

8 comentários:

Aline Andrade disse...

Que domingo que vem, em mais um jogo da Copinha, Enzo libere a geladeira das costas! rsrsrs

Rodrigo, mesmo sabendo que estamos nos despedindo do Chutebol, gostaria de dividir algumas poucas linhas... relato de mãe! Mais um pra sua conta! rs

Confesso que acompanhei o futebol do Enzo no Clube Militar, na maior parte desses dois anos, "por tabela". Temos um diálogo muito aberto em casa e ele sempre dividiu comigo o que acontecia nas aulas. Nem sempre consegui estar presente nos treinos, mesmo sabendo o quão importante é.
No ano passado, ele tinha aulas apenas com o Thiago. E quero deixar meu elogio ao Thiago, pela forma de conduzir o grupo e, especialmente, de orientar o Enzo. Vez ou outra, eu "aparecia" na arquibancada e saía sempre satisfeita com o trabalho de vocês.

Esse ano, com a mudança de turma, Enzo relatava gostar mais de ter você, Rodrigo, e o Thiago juntos. Para um adolescente disciplinado, que sonha com a vida em campo, ter dois técnicos é privilégio.

Nessa reta final, na qual tenho conseguido assistir aos treinos mais tranquila, observo o quanto Enzo se desenvolveu com a ajuda de vocês.

Que fique registrado meu agradecimento... por todos os momentos de bola rolando e também por aqueles antes e depois do apito!

Saudações rubro-negras sempre! rs

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Puxa Aline, obrigado pelas palavras! O Chutebol agradece o carinho! Um beijo pra vocês e vamos com tudo!

Mirian disse...

Ótima leitura dessa apropriada nota, nesse momento de Copinha, obrigada Rodrigo ;)

Izabel disse...

Excelente reflexão, como sempre. Adorei o texto.

Davy Bogomoletz disse...

Muito bom, Rodrigo. Mais uma vez!!!!!
Abração.

Ana Beatriz disse...

Muito, muito bom! Além da consistência das ideias, o texto está fluindo tão bem que fiquei com pena de acabar a leitura.

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

=)

Katia B disse...

Maravilhoso!