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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Desejo & aprendizagem

Acontecia um jogo amistoso destes contra outras escolinhas, e o jogador mirim, ali pelos dez anos de idade, mostrava uma desenvoltura que chamou a atenção: "Olha como o futebol do fulaninho melhorou!" - comentou, feliz, o professor da turma. Escutei e assenti com a cabeça, o menino estava arrebentando. Eu não dou aula para a turma do fulaninho, mas sei que está conosco há três ou quatro anos, acompanho sua evolução e, não à toa, lembrei-me de uma conversa que pude ter com seu pai, tempos atrás.


Papai se mostrava curioso e até espantado. O menino, aparentemente, não levava muito jeito pra coisa, enrolava um pouco as pernas. Mas, desde que começou a treinar, não parava mais de chutar a bola. Em casa, na escola, no parque, pra lá e pra cá, aquela coisa de chutar latinha na calçada. No clube, horas a fio. "Me fez até ir ao estádio". Enfim, pelo que pude entender, à época, o pai não era um fissurado por futebol, daí sua curiosidade e seu espanto: mesmo desengonçado, a vontade empurrava o filhote de um jeito que a família não imaginara.

O que chama a atenção nestas duas passagens é um encontro. O encontro do desejo com a aprendizagem.

A curiosidade infantil é motor de sua relação com o mundo. A criança pequena, desde muito cedo, assim que pode engatinhar e andar, se distanciando fisicamente da mãe e/ou dos cuidadores, avança sobre os objetos na tentativa de dominá-los, domá-los. É uma agressividade benfazeja, na medida em que possibilita ao sujeito, mais tarde e se tudo correr razoavelmente bem, assumir um lugar no mundo, próprio, pessoal e intransferível. Todos nós precisamos ter a ilusão de que controlamos algo em nossas vidas. 

Neste percurso, que comporta idas, vindas, limites e desacertos, algo muito importante precisa ser preservado e suportado pelo adulto: a espontaneidade da criança. Pois é a partir deste sentimento que a pessoa consegue - via curiosidade e agressividade acima mencionadas - criar e sustentar seu mundo pessoal, sua maneira de viver. Essa criação e sustentação de um mundo pessoal é, precisamente, aquilo que empresta sentido à vida de cada um. 

Tudo isso para voltar ao menino da história.

O que leva uma criança inicialmente desajeitada, com um pai e/ou famíia que não é apaixonado pelo esporte, começar a jogar futebol a ponto de impressionar os adultos à sua volta? Se eu precisasse responder numa palavra: desejo.

A demonstração de vontade, que o fulaninho expressa na fissura que se instaurou nele, diz de alguém que tomou o futebol como um projeto pessoal. Uma vontade tremenda em atuar sobre o mundo, e isso pode ser feito de inúmeras maneiras; o futebol é uma delas. No entanto, neste caso, a identificação com o esporte não veio de casa - precisou ser construída. E, se chegou a ser bem-sucedida, é porque o aluno pôde usufruir de sua espontaneidade na maneira de apropriar-se do jogo.

Quero dizer com isso que as aprendizagens puramente mecânicas não podem alcançar tamanho impacto na vida de uma criança. O que não significa que a disciplina, os exercícios e a técnica de jogo devam ser menosprezados. Em absoluto. Mas a parte dura, mecânica, só ganha sentido e intensidade se tiver por base o desejo de aprender. Desejo dela, criança (não só do adulto, como é bastante comum). Desejo este que será tão mais favorecido quanto o ambiente puder suportar a espontaneidade e o caos das brincadeiras infantis. É ali que a criança estrutura seus projetos, com acertos e fracassos. 

A aprendizagem significativa é resultado de uma busca pessoal, sem a qual ela perde o sentido. Essa busca diz, nos primórdios, de uma curiosidade infantil suficientemente potente para mover o sujeito, de corpo e alma, em direção a alguma coisa que o despertou. Cabe a nós facilitarmos o processo.

O menino da história construiu, porque buscou, um mundo imprevisto: o mundo do futebol. E o pai, que não é bobo, entrou nele, quando convidado. Retribuiu com um olhar generoso ao desejo do filho. Que, por sua vez, devolve esta mesma generosidade apresentando um belo futebol. 

A tabelinha está boa, vem mais gol por aí.

Aquele abraço, saudações esportivas

5 comentários:

Luiz disse...

Sem desejo, não pode existir o dia seguinte.

Davy Bogomoletz disse...

EXCELENTE. Pena que o meu livro sobre Educação já está pronto, senão eu te pediria para incluir nele o seu artigo.
Está muito bom mesmo. Abração.

Anônimo disse...

Eu sou a avó do fulaninho. Sai mandando pelo zapzap a sua coluna, professor Rodrigo. Recebi cada resposta! Uma delas, diz que "precisamos estar sempre cercados de pessoas boas". Louvo a sua bondade, professor!

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

:)

Lisia disse...

Oi! Li seu texto agora e adorei! Vejo isso no João! Aos 5 qdo entrou na primeira escolinha era super perna de pau e achávamos que ele poderia desistir. Mas quando pegou a manha, não levou muito tempo para passar a curtir a aula! Vejo que até hj ele se orgulha das jogadas, das sacações e assistências. Acho que só falta aprender a lidar com a platéia! Rsrs Dia de jogo com público ele fica nervosão! Obrigada por ajudar tantos meninos e meninas a despertarem esse desejo por conhecer, aprender e realizar!! ��������������