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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Sobre a esperança

Prezados (as),

O blog Chutebol vai entrar de recesso. Não foram poucas as emoções deste, digamos, conturbado 2016. Tenho escutado muitas queixas sobre o ano, mas lembrei que a Terra e o Sol não sabem nada do tempo humano - simplesmente não é do interesse de um, nem de outro. Eles continuam, em seus movimentos, fazendo o que têm de fazer. Ainda que tenhamos precisado inventar as medidas do tempo para nos organizar, louvando ou amaldiçoando-as, o dia continua vindo após a noite.



Isso me lembrou da importância de uma qualidade humana fundamental: a esperança.

É curioso como este tipo de palavra pode, facilmente, cair num otimismo abobalhado, água com açúcar, bem próprio de nossa época. Mas, na verdade, me refiro à esperança como uma qualidade afetiva que remonta aos primórdios da constituição de cada pessoa.

O bebê humano, além dos cuidados biológicos de que precisa em sua empreitada (e que são interpretados por ele, em condições normais, como expressão de amor), já carrega consigo experiências psíquicas primitivas que antecedem a aquisição da fala. Estou falando de sentimentos muito comuns, de experiências de satisfação e alegria, por exemplo, que qualquer pessoa que tenha estado junto a um bebê, com alguma atenção, pode perceber. Dentre estes sentimentos estão também aqueles ruins, ameaçadores, angústias terríveis. Uma delas, devastadora, é perder a esperança. Explico.

Continuar a viver, sabemos, não se resume aos cuidados materiais imprescindíveis. Evidente que, sem estes, a vida também fica em risco. Mas o que quero dizer é que existe, em nossa constituição psíquica, uma demanda além da biologia. Querendo ou não, o bicho humano precisa produzir sentidos para  continuar a viver. E, nos estágios iniciais da vida, isto é proporcionado pelo simples e profundo reconhecimento de existir. Em outras palavras, reconhecemos nossa existência (e o valor dela) quando os outros nos reconhecem.

A mãe que sorri para o bebê, que sorri para a mãe, que sorri de volta, proporciona a ele um motivo para ter gosto em viver. Sem essa dinâmica, convenhamos, fica tudo muito pesado. Isso o empurra adiante, na esperança genuína de voltar a se emocionar e a usufruir daquilo - e de todas as outras coisas boas que a pessoa vai descobrindo, se tudo correr razoavelmente bem. As representações afetivas vão ganhando complexidade ao longo da vida.

Os pais da foto acima, na última semana, me remeteram a essa ideia. As crianças precisam que os adultos acreditem em alguma coisa. Noutras palavras, que não percam a esperança. Para que elas possam sorrir de volta. Valorizar as atividades infantis, como um jogo de futebol,  por exemplo, é uma maneira de estas coisas ganharem expressão.

O otimismo ingênuo é diferente da esperança. O primeiro tenta negar as dificuldades. A segunda só existe, justamente, por reconhecê-las - e empresta sentido às nossas vidas. O dia continua vindo após a noite.

Desejamos a todos um Feliz Natal - e um 2017 com esperanças renovadas!

Aquele abraço, saudações esportivas

5 comentários:

Anônimo disse...

E o livro? Como que eu compro, já que perdi o lançamento semana passada?

abs,
Rycha - Leonardo Spinardi

Estêvão Kopschitz Xavier Bastos disse...

Excelente, Rodrigo! Um ótimo Natal! E um 2017 com muitas alegrias!

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Fala Rycha!
Procure na Blooks Livraria (dentro do Espaço Itaú de cinema, na Praia de Botafogo).

Ou pelo site da editora Pirilampo: www.editorapirilampo.com.br

Valeu a força e um abraço!

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Valeu, Estevão! Pra nós todos! Grande abraço

Davy disse...

Muito bom. Bela reflexão.
Forte abraço