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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Sobre o trabalho do luto

Caros amigos e amigas,

Diante do choque da terrível tragédia desta última terça-feira, e por ter uma pessoa muito querida envolvida, me ocorreu que talvez pudesse escrever alguma coisa diante da tristeza e da sensação de absurdo, de falta de sentido que nos toma. Após conversar com alguns pais, resolvi elaborar um pequeno texto sobre o trabalho do luto.

Do ponto de vista psíquico, o luto é uma dolorosa retirada do quantum de afeto que nos unia à pessoa amada. Trata-se de um processo psíquico humano, natural, que não acontece somente a partir do falecimento de um ente querido; mas também em muitas outras separações (familiares, amorosas etc). A morte seria, assim, a separação humana em última instância.

O trabalho do luto é acionado para que possamos viver a dor e chorar a tristeza de nos despedirmos daqueles que amamos. O luto em si é este processo de desligamento ao qual me referi, justamente para que, após isso, a vida possa prosseguir. Numa situação trágica, a intensidade dos acontecimentos pega o aparelho psíquico desprevenido, e o luto se dá com uma maior dificuldade de aceitação. Muitas pessoas podem entrar em estado de choque e precisar de amparo acima do normal, inclusive médico.

Muitas vezes as pessoas entram, inconscientemente, em estado de negação nestas situações. Ou, ainda, utilizam mecanismos de defesas psíquicas - inconscientes - de modo a não enfrentar a dor da perda (quando a pessoa se vê impedida de chorar, ou de sensibilizar-se). Nestes casos, normalmente, a dor acompanha o sujeito por tempo indefinido, já que a elaboração da perda do ente querido foi impedida. É quando se dá o que chamamos de 'fantasmas', no sentido de que aquele que ficou não deixa o outro partir em seu imaginário. Conheço inúmeros casos de pessoas que só puderam chorar a morte de alguém muitos anos depois (muitas vezes com ajuda de análise ou outra terapia), pois a própria família negava o direito de chorar, com frases do tipo "ele quer que você se lembre só das coisas boas" - e outras negações.

Com relação à questão religiosa, o luto é livre: ateus, espíritas, umbandistas, católicos, budistas, agnósticos, muçulmanos, judeus e o que mais existir, em sendo humano, está apto ao trabalho do luto. A necessidade do amparo encontra, para cada pessoa, as ferramentas com que ele ou ela utiliza para explicar o mundo e o fenômeno humano, na busca por sentido que todos nós, queiramos ou não, fazemos para continuar vivendo. Quem não encontra sentido algum, adoece severamente.

No caso das crianças, o que tenho percebido é que a melhor maneira de explicar a morte é aquela com a qual os pais ou responsáveis se identificam. A criança aceita de bom grado estas explicações, normalmente entristece junto, e aí começa o trabalho de luto dela com amparo do adulto, o que é muito importante. Se o pai tem algum religião que explica a morte e os espíritos de uma determinada maneira, é fundamental que compartilhe isto com a criança, de modo que alguma coisa faça sentido para ela. Se for ateu, a explicação dos fenômenos naturais é igualmente necessária, com o mesmo cuidado que os religiosos utilizam para escolher as palavras - sem jamais negar o fato ocorrido.

Por fim, desejo ressaltar que o trabalho do luto não é somente o da perda: a partir de um certo momento em que vamos podendo aceitar essa despedida, a pessoa continua em nós, mas no melhor lugar que pode nos habitar: em nossos corações. Após viver e elaborar as tristezas mais profundas, as melhores lembranças serão as que, efetiva e legitimamente, nos habitarão.

Fiquemos juntos.

Obrigado por tudo, Vitu.

8 comentários:

Bia disse...

Rodrigo, seu texto foi do tamanho certo, palavras escolhidas com carinho, e apesar de voce escrever sobre o luto, escreveu sobre o amor que se guarda no coração pelo próximo, pelo amigo. Meus sentimentos e um abraço de coração. Bia Charnaux e família.

Carolina freitas pereira disse...

Belíssimo texto.. obrigada por partilhar...

Carolina freitas pereira disse...

Belíssimo texto.. obrigada por partilhar...

Nathalie disse...

MUITO BEM PENSADO RODRIGO,OBRIGADA

Nathalie disse...

Belo texto.
Na medida do possível, talvez valha a pena um papo com os meninos.
Meus sentimentos a família do Victorino,

Mariana disse...

obrigada por cuidar de todos nós!

Marcelo disse...

Gosto de ler as coisas que vc escreve, Professor!

Saudações

Andrea disse...

Lindas palavras , um momento muito triste , sem palavras para descrever . Meus sentimentos aos familiares e amigos. Uma tragédia que mexeu com todos nós.
Conte com nosso apoio.

Abraço Andrea e família . ( Pedro Brotas )