Páginas

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Liberdade?

Caríssimos (as),

Durante uma aula, recentemente, ocorreu uma cena interessante. O aluno, com cerca de seis ou sete anos, relutava em ir para o gol no momento da partida de futebol. Três de seus colegas de time já haviam ficado na posição, restando apenas mais dois para cumprir o revezamento - ele próprio e mais um. Como nenhum gostava de ser goleiro, o segundo propôs a saída pelo acaso para decidir quem iria antes: bastava tirar par ou ímpar. O fulaninho continuava recusando, não queria saber da sorte. O professor observava, ajustando as contas com o relógio e esticando o tempo para que, no encontro da subjetividade de um e de outro, pudesse emergir uma solução.



Que não surgiu. O jogo precisava recomeçar, aquilo já estava por demais arrastado. Só restou a intervenção adulta: "Então, qual dos dois vai para o gol agora?", perguntei. Fulaninho não hesitou: "Ele", e apontou para o colega. Que fez cara feia, claro. O professor, que a tudo acompanhava desde o início, contornou as fronteiras da paciência (bem como os demais jogadores) e fez uma última tentativa, digamos, democrática: "Não acha melhor tirar par ou ímpar?". "Não", o menino respondeu, para em seguida completar: "Professor, por que então você não escolhe quem vai pro gol?" E fez cara de bom malandro, sorriso no canto da boca, certo de que tinha encontrado uma solução que o agradasse.

O professor não se fez de rogado: "Pois então, pode ir". Fulaninho ficou incrédulo: "Eeeeu??". "Sim, pode ir. Não me pediu para decidir? Pois então, está decidido. Por favor, a turma quer jogar, vamos com isso!" E lá se foi ele, emburrado e desapontado, para o gol. Oh céus, um professor carrasco! Logo depois estava se divertindo durante o jogo e, passado um tempo, o amigo da história foi lá assumir o posto. Que retirar desta comum história infantil?

Crianças e adolescentes, como nós adultos, costumam apreciar a liberdade. É preciso, no entanto, procurar compreender o quê exatamente pode ser chamado assim no processo de formação da personalidade. Ao longo dos séculos, notadamente no Ocidente, a liberdade de escolha tem se afigurado como um valor supremo o qual as pessoas lutam para se apropriar. Mas as crianças estão aptas a escolherem  tudo por si só? É disso que se trata ser livre na infância?

Creio que não, e me pareceu interessante utilizar essa historinha como exemplo. Vejamos: o menino da passagem acima tentava, a todo custo em seu imaginário, controlar o curso dos acontecimentos afim de preservar sua posição. Como um reizinho, evitava mostrar-se igual aos demais, que se submetiam à realidade compartilhada. "Eu não", ele parecia dizer. Por que será que não conseguia escolher algo aparentemente simples, decidir o momento de colaborar com os colegas - dado que nenhuma ordem havia sido colocada de antemão?

Porque julgou, em sua onipotência infantil, que a ausência da ordem do adulto naquela situação significava ausência de Lei dentro do grupo. Com L maiúsculo. Os outros colegas, com a Lei mais sedimentada, internalizada a partir de experiências anteriores (familiares e sociais), ao contrário, se mostraram mais maduros para usufruir da liberdade - que só é digna deste nome se responder a algum imperativo moral. No caso acima: todos precisam colaborar como goleiro, já que ninguém o faria por aptidão pessoal.

De tal maneira que ele realmente precisou do professor para quebrar com sua onipotência que, àquela altura, já estava ficando muito pesada. Foi fundamental apresentar  aquilo a que atualmente temos chamado de limites - e isso se configurou um verdadeiro alívio. O alívio em ter que escolher e arcar com suas decisões, por si só. Como não gostava de ir para o gol, estava impossível escolher o momento de ir e 'perder' uma parte do jogo na linha. Aquilo não era liberdade para o fulaninho, mas sim uma situação caótica. Percebam que ele próprio pediu este limite mesmo que, até o último segundo, buscasse evitá-lo ao manobrar suas posições. Só pôde realizar este movimento com a minha ajuda. Precisou do imperativo: "Vá para o gol agora". Isso retirou dele a responsabilidade da escolha, pois eu a assumi.

Não há nada de novo aqui. O que desejo chamar a atenção é para a necessidade da presença do adulto. Muitas vezes, no intuito de viver e deixar viver, podemos produzir uma sensação de abandono, de caos ou de uma angústia muito grande para a criança, acreditando que estamos proporcionando liberdade. Mas usufruir desta é uma conquista infantil que se faz aos poucos, e é sempre relativa. Somente com uma fina percepção se vai podendo tatear para aquilo que o sujeito em formação está apto - ou não. Cabem aí os desacertos da vida.

Mas eles precisam saber que podem contar conosco, que alguém está lá para sua garantia, mesmo que para isso tenham de chamar a atenção com sinais invertidos. Sem leis internalizadas não há liberdade, mas confusão. E quem ajuda a construir a Lei, na formação do sujeito, é o adulto e suas representações sociais (família, escola, instituições). Regras de convivência, princípios morais claros, simples e ao alcance da compreensão infantil. A criança precisa responder a alguém ou a alguma coisa. Quando tudo isso vai amadurecendo, ela pode avançar em suas escolhas de maneira mais tranquila e menos defendida. É como o próprio jogo de futebol: o que garante a liberdade do improviso, dos movimentos e do devaneio são as regras do jogo. É um paradoxo que precisa ser sustentado.

Cara feia de criança, passa. E faz bem.

Aquele abraço, saudações esportivas

6 comentários:

Renata disse...

Muito bom, Rodrigo!
Ótimo texto!
Beijos

Gabriel disse...

Curti muito esse post, minha mãe sempre falou muito disso Tb :)

Isabel disse...

Gostei muito. E, embora já adolescente, ainda aplico no meu filho. bjs.

Katia disse...

Sensacional!

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Pois é, variando as matizes, cabe pros adolescentes também!

Valeu a força, pessoal!

Estêvão Kopschitz Xavier Bastos disse...

É isso aí! Muito bom.