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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Dificuldades na socialização

Caros (as),

Uma questão que não deixa de ser atual diz respeito às crianças com dificuldades de socialização nos grupos escolares e extra-escolares. Tais dificuldades podem se apresentar de muitas maneiras e vão encontrar representações distintas, estando relacionadas à maneira de o sujeito estar no mundo.



Dentre as atitudes que costumam aparecer estão desde a apatia (a criança retraída) até as atitudes agressivas (bater, brigar) - passando por toda sorte de comportamentos estereotipados, como exigir intensa atenção do professor (evitando os colegas), apresentar-se sempre indefeso ante o grupo, recusar a aprendizagem e outros tantos. Ocorre que tudo isso é da infância, desde que sejam períodos passageiros. Muitas vezes a pessoa precisa experimentar alguns destes papéis para encontrar sua própria maneira de ser. É preciso ficar atento, no entanto, quando o aluno congela num lugar que gera sofrimento.

Quando isto acontece, o papel do adulto é fundamental. Passa a ser exigida do professor, por exemplo, uma disponibilidade afetiva muito grande. Evidente que esta não deve ser confundida com mimar o aluno. O vínculo da relação deve apontar para aquilo que a criança precisa, que muitas vezes contradiz seu comportamento. 

Pode acontecer de uma criança que se mostra retraída, por exemplo, não precisar ser incentivada o tempo todo, pois se sente pressionada com isso. Necessita na verdade é relaxar e conseguir ser espontânea para fazer as coisas à sua maneira, deixando de lado por algum tempo este ou aquele ideal de aprendizagem que poderá ser retomado depois. Nestes casos a criança só se solta quando confia mais em si e no ambiente e se sente aceita de alguma maneira - isso pode demorar. Outros que se mostram retraídos, é verdade, necessitam de um olhar a mais do professor como que para se sentirem reconhecidos, de gestos e palavras de incentivo com mais firmeza. Como se vê, não há fórmula, mas sim o conhecimento do grupo e a busca por uma sintonia com a subjetividade de cada aluno, que também não pode ser sentida por eles como falsa ou enganosa.

Pensando mais diretamente na relação que se estabelece com a turma a partir destes comportamentos (poderíamos dizer sintomas), acredito que há também o lado do grupo. Nas relações grupais há um intenso imaginário que percorre as relações: entre os indivíduos, na formação de pequenos sub-grupos, de cada um para com o grupo todo e do grupo todo para com cada um. Assim que, quando uma criança está em tamanha dificuldade que visivelmente perturba a atividade coletiva, me parece importante separar um momento para abrir o jogo. Falar. Conversar abertamente sobre este ou aquele problema. Individualmente e/ou em grupo. Escutar as pessoas. Não no sentido de expôr este ou aquele colega (e aí depende do manejo do professor); mas de que as emoções possam ganhar representações mais claras e, a partir daí, é interessante tentar construir alguns compromissos comuns.

Se é verdade que alguém pode atrapalhar uma atividade grupal, é igualmente verdadeiro que o grupo em si também tem responsabilidades sobre cada um de seus componentes. Se quisermos sustentar um norte ético e moral para as novas gerações, é preciso saber o que fazer com aqueles que, por algum motivo, se colocam em dificuldade. Abandonar o sujeito à própria sorte não é a saída. Muitas vezes até mesmo alguma atividade pedagógica pode ser (re)feita por todo o grupo para ajudar aqueles com tais questões. Não se trata de retrocesso, mas de um movimento solidário.

Por outro lado, se após uma boa conversa e a diluição de alguns fantasmas a maioria dos participantes do grupo demonstrar sua disposição em ajudar, é preciso que o compromisso também seja firmado com aquele um que está em sofrimento. No sentido de ele tentar se mover de outra maneira. Fica assim estabelecido algum objetivo entre a(s) parte(s) e o grupo, tendo o professor como mediador.

Por fim, é claro que na prática tudo isso é muito difícil. Com as dificuldades de socialização muitas idas e vindas existem, progressos e retrocessos. Mas quanto mais verdadeiras e abertas forem as relações dentro do grupo (aluno-aluno; aluno-professor; grupo-professor), melhor será o ambiente para as dificuldades - e os sucessos - serem vividos por todos. Se os pais puderem ajudar com interesse, diálogo e confiança em todo este processo, tanto melhor.

Aquele abraço, saudações esportivas

6 comentários:

Ana Beatriz disse...

Estava meio jururu aqui, descrente de tudo e de todos, e aí leio o seu texto e vejo uma luzinha no fim do túnel. Sim, pessoas (crianças e adultos) podem ser felizes em grupo. A experiência é doída, porém humanizadora. Obrigada por me lembrar.

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Oi Bia, é verdade, é doído mesmo. Acho que falar alivia. Gostei do "humanizadora", concordo com você. Um beijo

Rose disse...

Muito bom Rodrigo. Abs

Renata Macchione disse...

Adorei Rodrigo! Ótimo assunto (como sempre!!)

Davy disse...

Li a íntegra do artigo, e senti falta de um ou mais exemplos concretos. Acho que enriqueceria muito a abordagem do tema. Mas está ótimo mesmo como está.
Abração, Rodrigo.

Paula disse...

Ótimo texto!
Bjs,
Paula