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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Sonhos de jogador

Caros (as),
"Somos da mesma matéria de que são feitos os sonhos" (W. Shakespeare)

O sonho de ser jogador de futebol no Brasil é dos mais comuns na infância - de alto a baixo da pirâmide social. Existem diferenças, no entanto, pela própria condição sócio-econômica que situa o sujeito e determina as possibilidades de sua existência. Dito de outro modo, é sabido que, para os meninos mais pobres, alcançar o status de jogador de futebol profissional está intrinsecamente relacionado primeiro à sobrevivência, à melhoria das condições de vida para os seus e ao usufruto da riqueza outrora inacessível. Muitas vezes é simplesmente a melhor (quando não a única) opção da família.

Para as classes média e alta, porém, tal vislumbre parte de outro ponto, dado que as condições de vida já estão minimamente garantidas. Outras oportunidades estão na mesa. Não passa pela questão da sobrevivência mas, ainda assim, tem o poder de mover o sujeito na direção de seu desejo. Mesmo diante das outras opções na vida pragmática e cronometrada que temos levado, muitos alunos insistem em sustentar o sonho de ser jogador de futebol. Como se a realidade da agenda cheia, dos estudos, não conseguisse penetrar no sagrado terreno do devaneio pessoal. Muitos pais ficam em dúvida ante a situação (é viável? ele vai se frustrar? encorajo?) - e a pergunta finalmente chega ao professor/treinador: que fazer?



Pois bem, acredito que o primeiro ponto a ser lembrado é justamente este: o sonho não se restringe a uma classe social. Sonhar é do humano. Ainda que os encaminhamentos oníricos possam se dar desta ou daquela maneira, é impossível impedir, por vontade alheia, alguém de sonhar. Constitui assim uma atividade de caráter sagrado para o sujeito - sagrado no sentido de que é inviolável.

Penso no material de que é feito o sonho, aquele de quando estamos dormindo: imagens, com qualidades afetivas relacionadas a desejos profundos, temores diversos, identificações e maneiras de existir. Um amontoado de ações psíquicas, aparentemente sem ordem ou sentido. Aparentemente.

Se admitirmos como verdadeira a riqueza do material inconsciente, o sonho é a mais profunda verdade que fala ao sujeito. Durante o sono profundo, baixadas as censuras de nosso procedimento de vigília - que atendem às inúmeras demandas morais e sociais - ficamos tão íntimos de nós mesmos, mergulhados no inconsciente, que muitas vezes sentimos medo. Temos um baita pesadelo, por exemplo. Quem estará lá, além de nós mesmos, para nos salvar? Uma brincadeira que ouvi outro dia faz um alerta à célebre frase de Sócrates: "Conhece a ti mesmo - mas não fique tão íntimo". Adentrar o terreno da verdade sobre si requer coragem.

Se tudo isso é pertinente, então uma criança ou um adolescente que consegue dizer "Eu quero ser jogador de futebol" muito provavelmente está dizendo uma verdade verdadeira. Não cabe gozação ou menosprezo (bom humor, sim, sempre). Como é algo a princípio distante da realidade da maioria de nós, a frase entra no registro do sonho infanto-juvenil, no sentido de não ser levado a sério. Mas este é meu ponto: o sonho é legítimo. Como encarar?

Acredito que seja muito importante poder vivê-lo. Até quando durar, até quando a realidade se impuser - ou, quem sabe, até que se realize! Alguns meninos que treinaram conosco estão experimentando categoria de base de grandes clubes; outros, de tanto insistir, conseguiram bolsa em faculdade do exterior para poder seguir jogando. A grande maioria não seguiu tão longe mas, tenho certeza, foram mais felizes aqueles que puderam viver o sonho com o respeito genuíno dos adultos por esta verdade que os habitava - seus sonhos foram aceitos como produtores de sentido em suas vidas. Brincar de ser jogador é ser jogador.

A questão da frustração vai sendo suavizada na medida em que pode haver um fino ajuste entre os imperativos que a realidade apresenta (estudos, compromissos, organização familiar). Tendo sido aceito seu sonho como verdadeiro, se o menino de fato demonstrar talento e perseverança, por que não buscar a experiência num clube da federação? Por outro lado: tendo sido aceito seu sonho como verdadeiro, se o menino não for assim talentoso (não o suficiente para competir com tantos outros), ou não se empenhar da maneira necessária, ele mesmo abandonará naturalmente esta ideia. Mas tendo aí podido vivê-la e usufruir de suas benesses: uma construção enriquecida da imagem de si; a vivência dos dilemas morais e afetivos impostos pelo sonho; a imaginação sensibilizada e, é claro, o prazer de passear no bosque de seus próprios devaneios. Tudo isso dá uma baita sensação de sentido na vida de cada um.

Lembro de quantas vezes acordei com a real sensação de ter acabado de disputar uma partida no Maracanã, pelo Flamengo - meu time de coração. Desde menino, até adulto, já professor. Já tem tempo que tal sonho não me habita mais. Foi vivido. De todo jeito, se não virei jogador, virei treinador.

Acho que ainda devaneio.

Aquele abraço, saudações esportivas

11 comentários:

Isabel Themudo disse...

Rodrigo, gosto MUITO da forma que vc escreve e principalmente , da forma que vc passa seus pensamentos para seus alunos (e pais).
Meu Gabriel tem esse sonho e apesar do meu temor de mãe venho apoiando meu rapazinho há uns 4 anos. Ele também é Flamenguista de coração mas como quer ser jogador, já fizemos teste para o Fluminense - 03 semanas de Xerém / ninguém merece! rsrsrsrs - já fez escolinha rubro-negra na Gávea e atualmente , como nos mudamos para Itaipava, além da escolinha de society, (do Vasco! ) faz futsal e está no sub-13 do Boa Esperança F.C. já competindo pelo torneio serrano.

Concordo que os desafios são tremendos e , hoje em dia, a industria do futebol é tão forte que a criança tem que ser fenomenal para se destacar e além disso, ser um atleta determinado e sério desde pequenininho. Morro de dó...
A tendência natural é eles mesmos desistirem, mas acho que nosso dever é apoiar, proporcionar, levar tão à sério quanto eles , esse sonho. Até terminar por escolha da criança e não ficar nenhum resquício de frustração - que isso sim, pode sair bem mais caro no futuro!
em todos os sentidos!

abraços de mãe de jogador-sonhador,
Isabel

Estêvão Kopschitz Xavier Bastos disse...

Muito bom o texto, Rodrigo. Um abraço.

João disse...

Rodrigo, muito o bom o texto.

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Oi Isabel,

Puxa, bom saber desta história!

Melhor ainda vocês conseguirem sustentar, né?...

Olha , obrigado pelas palavras, boa sorte aí e um abração pra vocês!

Adriana disse...

Belo texto, Rodrigo!
Bjs,
Adriana

Davy Bogomoletz disse...

Muito interessante, cara. Muito interessante mesmo.
Beleza de texto.
Vai para o livro, com certeza.
Abração.

TÂNIA VELOZO disse...

Otimo! E o livro? Qdo sai?

TÂNIA VELOZO disse...

Otimo! E o livro? Qdo sai?

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Rsrs, quem sabe este ano?...

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Rsrs, quem sabe este ano?...

Victorino disse...

Parabéns pelo texto