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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Çábios

Prezados (as),

O blog Chutebol não se cansa de trazer o craque Tostão às suas páginas, visto que admiramos aqueles que conseguem se expressar de forma tão simples quanto profunda - dada a fina sofisticação que se faz necessária para atingir a simplicidade, um sábio lembrou outro dia.

[Alegria, alegria! - foto: Estevão Bastos, pai do Felipe Bastos]

Na coluna que ora reproduzimos o craque escreve, com a clareza habitual, sobre o momento que vive o futebol brasileiro - apontando mazelas, discutindo a questão da formação dos treinadores, o papel dos clubes e a influência de empresários nas categorias de base.

No que diz respeito ao desenvolvimento dos jogadores desde a infância, Tostão ressalta a importância do livre brincar, da capacidade espontânea da criança e da criatividade. Acrescentamos, pedindo licença, que é somente num ambiente lúdico, percebido como acolhedor pelo pequeno jogador, que este vai poder experimentar gradativamente suas próprias capacidades psicomotoras. Aliás, é precisamente a possibilidade e a vivência da liberdade de movimentos aquilo que vai dar chance ao erro, ao inexato, ao que não sai bem - para que finalmente o gesto motor evolua e se transforme numa técnica, construída pelo próprio sujeito. Alguns vão chamar isso de estilo, e ter seu próprio estilo de jogar é brutalmente diferente dos robôs que Tostão tanto critica. Boa leitura!

Sábios das pranchetas

"Repito, o Brasil nunca deixou de formar um grande número de bons jogadores. A deficiência está na ausência dos excepcionais, especiais, de nível técnico intermediário entre os bons e um Neymar. Isso não ocorre por acaso, por entressafra nem porque não há mais campos de terra, um chavão saudosista. Faltam competência e seriedade profissional.

Evidentemente, há muitos profissionais sérios e eficientes nas categorias de base. Porém, muitos são escolhidos apenas para preencher uma vaga ou por indicação de amigos. Os treinadores com mais talento querem trabalhar nas equipes principais, à procura de sucesso e dinheiro, desejos habituais do ser humano. Os clubes não oferecem também boas condições técnicas e financeiras para os treinadores da base.

Há muitas discussões sobre se é melhor ter um ex-jogador ou um acadêmico na formação de atletas. Assim como existem preconceitos com os ex-jogadores, como se não tivessem preparo acadêmico e intelectual, há também preconceitos com treinadores formados nas faculdades, que não teriam a experiência prática dos ex-atletas. Há treinadores bons e ruins com as duas características.

Proliferaram as escolinhas particulares, vinculadas ou não aos clubes, e criou-se uma indústria para produção em série, para exportação. Os jovens com muito talento são colocados na mesma forma dos outros. Quase todos ficam parecidos.

Estudos mostram que a habilidade e a criatividade surgem na infância. Por isso, os meninos deveriam brincar com a bola, sem regras e sem professores, para, depois, na adolescência, nas categorias de base, aprenderem a técnica, a tática, as regras e as posições em campo. Os professores costumam fazer o contrário. Ensinam a técnica, antes de os meninos desenvolverem a criatividade e a inventividade e de terem um preparo psicomotor adequado.

Mesmo os melhores técnicos da base repetem as coisas boas e ruins que fazem os das equipes principais. Os Zé Regrinhas dominaram o futebol brasileiro. A excessiva e precoce padronização inibe a criatividade. São os sábios das pranchetas e da informação. Sabem muito e conhecem pouco. O conhecimento vai muito além da informação.

Empresários agenciam a carreira dos jovens, dos marmanjos, dos técnicos, muitos do mesmo time, além de participarem da transação dos clubes. Com frequência, um jogador que o técnico quer escalar não é o que querem empresários e dirigentes, por não gerar lucro. Dizer que não há um conflito de interesses em tudo isso é desconhecer a desmedida ambição humana.

Nos últimos tempos, no Brasil, mesmo os técnicos estudiosos e com qualidade cometeram o equívoco de seguir o modelo errado, o de privilegiar os chutões, a pouca troca de passes, as jogadas aéreas, o jogo truncado e tantos outros detalhes medíocres. Isso começou a mudar, recentemente. Os treinadores mais jovens, além de bem informados, não têm esses vícios. Outros, mais experientes, têm estudado e mudado seus conceitos.

Mas há ainda os metidos a besta, como Luxemburgo, que estão sempre com seus discursos repetitivos, ultrapassados, além de dizer que não viram nada de novo na última Copa."

2 comentários:

Mirian disse...

:)

Anônimo disse...

Muito obrigada pela dedicação e delicadeza de vcs. Realmente só tenho a agradecer; esse pequeno relato mostra que vcs ensinam e se interessam por coisas que vão além do campo, da bola e do futebol.
Desejo vida longa ao projeto e a parceria de vcs!
Beijo,
P