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segunda-feira, 9 de março de 2015

Medo de perder

Prezados (as),

Ninguém gosta de perder. Não que eu saiba. Ou, ao menos, não em sã consciência (querelas psicanalíticas à parte, vá lá...). Mas existe um momento na vida das crianças, em especial quando começam a viver as agruras do esporte, que a derrota ganha um peso por vezes assustador.


A relação com a derrota, com o medo de perder, evidencia um certo estado de espírito do sujeito. Porque jogar é sempre um risco. É se expor ao risco, a saber: a possibilidade de perder. E como a criança lida com isso?

Bem, no mais das vezes, vai lidar da maneira que isso se apresenta pra ela a partir de duas referências iniciais. Pais e professores, notadamente. O círculo familiar e, em seguida, o meio social mais amplo representado pela escola e os outros grupos dos quais fizer parte. Uma turminha do futebol, por exemplo. Claro, hoje em dia há o peso das mídias que ampliam a chegada destas representações à criança mas, dependendo novamente dos adultos mais presentes à sua volta, este peso pode ser filtrado em conversas, pequenos debates e os juízos de valor que sustentam cada meio social. Enfim, as conversas e perguntas do cotidiano comum que as crianças expõem aos adultos.

Tudo isso para dizer que acredito ser preciso um cuidado especial quando a criança está excessivamente mobilizada diante do medo de perder. A fórmula ancestral 'ganhou, sorri; perdeu, chora', é de grande valia para nós no Chutebol. Não vemos problema quando o sujeito chora porque perdeu. A livre expressão das emoções é mais do que saudável. Mas o que estou falando é de quando há um excesso afetivo na representação da ideia de derrota, algo que aflige e atrapalha a criança (e muitos adultos!) em suas atividades não só esportivas.

Quando isso acontece, talvez seja necessário pensar: o que significa 'perder' para o fulaninho? Perder o quê? Um lugar no coração dos pais? Um posto de aluno querido? Perder, o que é? É ser menosprezado? É ser abandonado? É deixar de ser o número 1? Estas são questões comuns à infância e que devem ser elaboradas. Evidente que a criança não vai falar disso com essa clareza, mas o adulto pode captar suas impressões - e perguntar a si mesmo como lida com a derrota.

Creio que exista algo de muito infantilóide nos tempos atuais. Um certo narcisismo abobalhado, como se todo mundo tivesse que vencer sempre, estar sempre feliz para ser reconhecido. É claro que isso não funciona. Um amadurecimento do sujeito está intrinsecamente ligado à maneira como este se relaciona com o lado trágico da vida. O algo que sempre nos falta, a vitória que nos escapa.   

Churchill costumava brincar dizendo que o sucesso consiste em seguir de derrota em derrota sem perder o entusiasmo. Talvez estivesse certo. Se estas coisas puderem ser elaboradas com alguma leveza e bom-humor, tanto melhor.

Aquele abraço, saudações esportivas

7 comentários:

Renata disse...

Muito bom o texto! Super pertinente e atual!

Eugenia disse...

Ótimo Rodrigo! Bjssss

I love Alondra disse...

Sempre incrível Rodrigo!! Parabéns mais uma vez!
Lara

Juliana Marçal disse...

Excelente!
Obrigada

Tania disse...

Ótimo Rodrigo!!

Uirá disse...

Legal!

Leana disse...

É tão bom "crescer" no esporte!!!!
É tão enriquecedor vivenciar mil emoções sejam elas positivas ou negativas e transpor cada passo em direção a "coragem de estar", de se envolver, arriscar, compartilhar, socializar, aprender....
Fico mt feliz dos meus filhos serem sempre estimulados a adquirir habilidades e ver que nesse mundo esportivo a alegria , o treino, o professor, os colegas fazem parte de momentos incríveis q vão fazer parte da historia d cada um.
Por isso, Rodrigo, parabens por ser quem vc é, além de professor.
Espero que o Pedro passe por esse momento super atarefado e volte a conviver c tds vcs.
Gd abc
Leana