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segunda-feira, 14 de abril de 2014

A infância como imagem

Caríssimos,

O vídeo abaixo traz o humorista Marcelo Adnet narrando uma partida de futebol como se fosse um radialista - logo, animado e inventivo até não poder mais. Em seguida, ele passa a fazer o papel de um narrador da televisão: monotônico e entediado, como a maioria deles. Vale separar um par de minutos para assistir, pois é simplesmente hi-lá-rio!


Bem, é evidente que não se trata de crucificar ou menosprezar a tevê. Mas talvez um sentido a ser extraído seja o de quanto, ao ficarmos tão impregnados pela telinha quase o tempo todo e em praticamente todos os lugares (até no elevador!), quanto nos emburrecemos, quanto deixamos de realizar um trabalho psíquico, mental, imaginativo. Trabalho no sentido de movimento. Logo abaixo um pequeno texto que ajuda a refletir - boa leitura!

"A infância é sempre um tempo em trânsito, portanto dura pouco. Etapa de crescimento, de desenvolvimento, de estruturação, de formação em muitos e diversos aspectos, que aqui vamos considerar em especial como a temporalidade em que o sujeito exerce a imaginação criadora de seu elemento infantil. Sabemos que num primeiro momento, na primeira infância, este universo de representações depende dos Outros primordiais, que encenam seu próprio mundo infantil para que a criança, em outro tempo (...), possa criar seu próprio universo.

Propomos chamar de segunda infância a temporalidade na qual as crianças podem criar o elemento infantil brincando. É o momento em que exercem a liberdade ficcional, a curiosidade apaixonada e ardente, a criatividade imaginariamente simbólica. Criam e são criadas pela experiência do infantil que acontece ao brincarem; neste sentido, o ato de brincar cria o espelho e o infantil da infância.


Nesse momento vibrante e vivaz do acontecer cênico infantil que a criança produz à medida que brinca, se o que monopoliza seu pensamento não é a magia da novidade criada quando ela se lança e abre as portas para brincar, mas a reação em cadeia de estímulos visuais maníacos e falsamente reais, a lógica que opera é a da exclusão. As crianças se excluem no 'seu ' mundo, nessa linguagem adulta-infantil da tecnologia digital-virtual que, em alguns casos, chega até a fragmentá-las e aliená-las. Nessa caminhada, a infância transcorre na dialética 'eletrônica-infantil' proposta, oferecida e consumida pelo mundo globalizado. Caberia perguntar-se quais as marcas e os efeitos que essas lógicas linearmene excludentes deixam no universo infantil".

(...) Se levada ao extremo, a lógica da exclusão pela tecnologia digital-informática de vídeo inutiliza a entrada em cena do corpo e a sensibilidade das descobertas da criança, que precisamente abrem, ampliam, e geram o universo infantil. O ato de brincar como apropriação subjetiva fica questionado por essa lógica."

[Adaptado de 'Rumo a uma infância virtual?' - Esteban Levin, 2006]