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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A infância e a rua (ainda e sempre)

Caríssimos,

Opções (a)partidárias à parte (pois não é esta a questão aqui), trazemos pequeno porém profundo recorte de trecho do livro de Cristovam Buarque - 'Reaja!', em que ele faz uma espécie de desabafo diante, digamos assim, das coisas do mundo. A grita é geral. No entanto, na parte que nos diz respeito de maneira mais específica - a infância - Cristovam toca em pontos que volta e meia discutimos aqui neste espaço: como fica a infância sem a rua; com pouca intimidade com o espaço público; imersa na lógica do consumismo? 

Fugindo ao 'catastrofismo', mas pensando numa pergunta que se impõe, acertadamente, como alerta: qual a ideia de espaço público que teremos num punhado de anos? É claro que vale perguntar: pensando nestes temas, como foi a sua infância?

[Tela de Ivan Cruz: 'Cabo de Guerra']
"Armas podem ser necessárias para defender a riqueza existente, não para aumentá-la. As muralhas que cercam uma mansão aumentam a tranquilidade de seus moradores prisioneiros; servem para afastar os indesejáveis, não para tornar a vida mais alegre.

Veja com desconfiança um mundo cercado de muralhas por todas as partes, nos condomínios e shoppings. Pense como será seu país quando for governado por crianças que jamais colocaram os pés nas ruas de suas cidades; que veem o mundo pelas grades de seus jardins ou pelos vidros escuros de seus carros, e só conseguem vê-los de dentro dos shoppings ou das escolas por causa do tamanho dos muros que os rodeiam.

Pense também como será o seu país se vier a ser governado pelos que cresceram do outro lado do muro, carregando desejos não realizados, mágoas aumentadas. Reaja à lógica irracional e insensível que, imposta há tanto tempo, já tomou conta das nossas mentes; a ideia de que felicidade é sinônimo de consumo; como se esta visão fosse intrínseca à humanidade, estivesse no DNA de cada ser humano. Não está. Mas se estivesse, reaja mesmo assim.

Reaja à maneira como a educação é destratada. Reaja às consequências deste destrato (...). Reaja ao hábito que toma conta da gente ao viver em um mundo perverso; e contra a pior das maldades que é se acostumar com ele. "

[Adaptado de 'Reaja!', Cristovam Buarque, 2012]

2 comentários:

Mirian disse...

Que leitura interessante, Rodrigo!

Parabéns!

Bjs,

Mirian (mãe Luca)

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Valeu a força Mirian, a ideia é refletir!
bjs!