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segunda-feira, 1 de abril de 2013

O rei está nu!

Caros,

Trazemos logo abaixo a lúcida entrevista que o novo treinador do Vasco, Paulo Autuori, deu ao Globo de ontem. Suas palavras ganharam espaço por aqui pela coragem dele, como grande campeão (Brasileiro, Libertadores, Mundial), poder dizer: "O rei está nu!". Uma fala independente, com a simplicidade que tanta falta nos faz.



O futebol brasileiro ainda é o melhor do mundo?
Não podemos mais afirmar isso. Como somos os melhores do mundo, se os estádios estão sempre vazios, o calendário é péssimo e não temos organização? Mas ainda temos capacidade de renovar, em quantidade e qualidade, como nenhum outro país no mundo.

Hoje em dia é recorrente afirmar que o futebol brasileiro está atrasado taticamente em relação ao europeu. Você concorda?
Concordo. Infelizmente, isso tem muito a ver com a minha classe. Nossos preparadores físicos, fisioterapeutas e treinadores de goleiros são top, estão entre os melhores do mundo. Já nossos treinadores ficaram para trás. Muito por arrogância. Acham que sabem tudo, que são donos da verdade. Trabalhar no Brasil não é fácil, mas dizer que um técnico estrangeiro não teria sucesso aqui é um pouco demais. Será que o Guardiola não faria um bom trabalho se viesse trabalhar na seleção? Me parece mais insegurança do que qualquer outra coisa. 

Afinal, por que você deixou a vida tranquila que tinha no Qatar e voltou para o Brasil?
Além de estar com saudade do meu país, da minha família, retornei para voltar a ter tesão no meu trabalho. Quero resgatar a essência do futebol brasileiro. Cresci vendo os nossos times e nossa seleção marcando por zona, com laterais ofensivos e meias de criação em abundância. Acho um absurdo times da base jogarem no 3-5-2 aqui no Brasil. Isso impede o surgimento de laterais e meias como estávamos acostumados.

Qual a formação tática que mais lhe agrada atualmente?
Gosto do tradicional 4-4-2, que permite mais variantes, como o 4-2-3-1, que está na moda. Mas, para usar este esquema, tem que ter jogadores com características para isso. Aqui, o 3 é composto por três meias. Não dá. É preciso que dois deles sejam atacantes e o outro um meia, que chega na frente e se aproxima do centroavante. Eu gosto de ter um atacante de referência.

Ainda há espaço para pontas no futebol de hoje?
Claro. Os europeus estão voltando a jogar com pontas. A seleção da Espanha tem o Jesus Navas, um ponta como antigamente. Quero ver isso no Brasil. Sei que é difícil, mas dá para fazer.

Você está preocupado com a seleção brasileira?
Estou, como todo mundo. O tempo está passando, e a coisa não anda. E me incomoda um pouco a forma como o time está jogando. Contra a Itália, quem tomou a iniciativa foram eles. Ficamos esperando o momento certo para contra-atacar. Sempre foi o contrário quando enfrentamos a Itália. E quando se viu a Rússia partir para cima do Brasil, como fez agora? Mas tenho esperanças.

Por ser o país-sede e ter cinco títulos mundiais, o Brasil tem de ser campeão de qualquer maneira?
Essa história de ser campeão na marra, de qualquer maneira, não existe. Mas é certo que não será fácil ser campeão. A pressão vai ser enorme, o fantasma de 1950 estará sempre presente.

O futebol está chato?
Demais. Tem jogo todo dia, está muito vulgarizado. Tem vezes que você faz questão de não acompanhar uma partida, de tão ruim que ela é. Ninguém aguenta tanto futebol assim. A vida não pode ser e não é só futebol.

Mas você não acha que o ambiente do futebol está carregado? Não há mais espontaneidade.
É verdade. E tem também a questão do patrulhamento, do politicamente correto. Você tem que tomar cuidado com tudo que se fala. Há uma desconfiança geral. Jogadores, comissão técnica, dirigentes, torcida, imprensa, tudo isso forma o futebol, faz parte de uma engrenagem. Não dá para excluir nenhuma das partes. Está faltando harmonia.

Na sua apresentação no Vasco, você disse que não gostaria de ser chamado de professor. O papel dos treinadores está superdimensionado no futebol hoje em dia?
Sem dúvida, e não é somente no Brasil. Também é assim na Europa. A ponto de o Joachim Löw, técnico da seleção alemã, ter sido flagrado durante um jogo tirando meleca e botando na boca. Isso com a bola rolando. Preferiram mostrar isso ao jogo que estava acontecendo. Hoje, tem uma câmera só em cima do treinador. Um exagero. O que prego é uma volta à simplicidade. Não sou professor de nada.

Ficou surpreso com a queda do Mano Menezes na seleção?
Fiquei, como todo mundo, acho. Na minha visão, foi um erro no momento em que aconteceu. Podiam tê-lo tirado em outro momento. Houve até motivos para isso. Mas não podemos esquecer que ele estreou numa fogueira. Como o Zico bem disse, o Mano teve que fazer uma renovação radical. Não teve jogadores para fazer o elo entre uma geração e outra, como sempre aconteceu na seleção. Isso é complicado.

Você sonha com a seleção?
Eu, como todo treinador, penso em seleção. Mas não faço disso uma meta. Se acontecer, ótimo, mas não trabalho para isso. O que busco é ser melhor do que sou hoje. Não quero ser melhor do que ninguém.

Qual sua opinião sobre Neymar?
Estou preocupado, pois ele começa a se tornar dúvida. E torço para que isso não chegue a ele, sé é que ainda não chegou. No Brasil, Neymar tem espaço para driblar à vontade. Quando joga contra seleções europeias, a marcação é muito mais forte. Dribla um, já tem outro na cobertura.

Você também defende que ele vá para a Europa?
Neymar tem muita técnica, potencial enorme. Pode crescer muito indo jogar na Europa, com os melhores. Já trabalhei com jogador que dizia que no Brasil jogava bola e que na Europa virou jogador de futebol.

Messi ou Cristiano Ronaldo?
Messi, é lógico. Ele joga sorrindo, faz tudo com leveza, com naturalidade. Sua técnica e sua categoria são exuberantes. Cristiano Ronaldo também é um grande jogador, mas faz as coisas com esforço. Ele tem uma força mental impressionante, muita concentração. Cristiano Ronaldo se propõe a fazer uma coisa, vai lá é faz. Mas, para mim, o Messi é superior.

[Adaptado de 'O Globo', 31/03/13]

Aquele abraço, saudações esportivas


Um comentário:

Maurício disse...

Obrigado pelo envio, Rodrigo. Eu li no domingo. Gostei. Infelizmente o problema é cultural na gestão de negócio, de política, de interesses, de tudo. Capacidade de gerar craques nós temos de sobra. Mas vamos em frente!

Grande abraço!
Maurício