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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Quanto tempo o tempo tem? (2)

Nesta segunda postagem sobre o tempo, a psicanalista Maria Rita Kehl viaja até Monteiro Lobato para discutir como tais questões chegam à infância. Fica a ideia de que é preciso posicionar-se diante de questões aparentemente banais, mas que repercutem seriamente na vida familiar e da criança. Boa leitura!



"Talvez seja necessário recuperar as lembranças das tardes de tédio, daquelas que só acontecem na infância, para entender o que ocorre com o psiquismo (...) na ausência de estímulos que solicitem o trabalho do sistema pré-consciente.

As fantasias mais fabulosas de algumas histórias infantis de Monteiro Lobato ocorrem a seus personagens em momentos de completa inatividade, quando Pedrinho e Narizinho não têm mais nada a fazer a não ser desenhar 'XXX' com o dedo nas almofadas de veludo da sala do sítio - brincadeira que os dois primos chamam, apropriadamente, de 'exercício de parar de pensar'.

Não há comparação entre a experiência do tempo ocioso, tão comum no cotidiano das crianças que podiam ficar entregues a si mesmas nos períodos não ocupados pelas obrigações escolares, e a vivência do tempo agendado de manhã à noite que caracteriza o cotidiano das crianças contemporâneas como um permanente treino para a futura competição pelo mercado de trabalho.

Não é de espantar que tais crianças se angustiem nos fins de semana e suportem tão mal a falta de atividades divertidas, que se traduzem em formas de ocupação integral do tempo ocioso. Também não é de espantar que, nas circunstâncias em que os pais se veem impedidos de inventar programas para ocupar o tempo livre de seus filhos, estes se dediquem sem trégua a essa nova modalidade de treinamento da velocidade do arco reflexo, em curto-circuitos de estímulo-resposta propostos pelos excitantes videogames

E que, na ausência deste tipo de estimulação, essas crianças de agenda cheia manifestem uma irritabilidade e uma inapetência para o mundo que faz lembrar os sintomas da depressão - manifestações de inquietação e desconforto psíquicos que levam muitas famílias a medicar suas crianças, seja como deprimidas, seja como hiperativas.

Nos livros de Monteiro Lobato, o ócio dos personagens infantis convoca a avó a contar suas longas histórias na varanda do sítio, um pouquinho a cada fim de dia, fazendo do período de férias um delicioso encadeamento de noites mágicas e dias de aventuras. 'Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido', escreve Walter Benjamin em seu conhecido ensaio sobre 'O narrador'.

Benjamin refere-se, nessa passagem, à íntima relação entre a fruição distendida do tempo, a função das narrativas e a transmissão da experiência. O tempo lento e distendido, em que nada acontece nem está para acontecer, permite aos que escutam histórias uma receptividade descontraída, condição para que as narrativas se incorporem ao vivido na qualidade de experiência transmitida."

[Adaptado de 'O tempo e o cão', Maria Rita Kehl, 2009]


8 comentários:

Gisele disse...

Ola Rodrigo !
Mt bom o texto !
Me reportei a epoca em que eu assisitia O SITIO e amava as estorias que alimentavam minha imaginacao,,,
Momentos de tamanha entrega e construcao neste tempo de nao cumprir tarefas e apenas SER ,,, imaginar , respirar e saborear o ocio criativo !
Um investimento convidar nossos pequenos e a nos , usufruirmos deste tempo interno, organico ,,,
obrigada
compartilhei no meu facebook
bj

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Oi Gisele,

É verdade, muito bom né? A Maria Rita Kehl é ótima!
Pois é, parece que até o ócio hoje deve ser 'produtivo', e isso é muito chato, ruim, perverso mesmo...

Patricia disse...

Mais uma bola dentro!
bjs
Patricia

Gysa disse...

Há quanto tempo eu quero comentar esse post (na verdade desde o primeiro dessa série)!
Mas eu fiquei sem tempo esses dias...engraçado, né? Fiquei sem tempo de pensar no tempo.
Agora sobrou o tempo que eu queria.
Tempo com calma...tempo pra sentir.
Lembrei da música do Caetano, aí reservei um tempo pra ouvir...pra nada, só ouvir.
"O que usaremos pra isso/ fica guardado em sigilo/apenas contigo e comigo..."
Gosto de usar meu tempo aqui!
Xero,

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Oi Gysa!
Caetano é sempre bem-vindo, né?

Que bom que você gosta de usar teu (precioso) tempo por aqui...

Um beijão!

UM SOBREVIVENTE disse...

Excelente. É o ritual da banalização da ritalina, a falta completa de cuidado com distinguir os distúrbios psíquicos da inadequação da criança de hoje com o volume de responsabilidade que é outorgado a ela. Uma escola que não estimula a criança e mais um milhão de atividades linguísticas ou esportivas que, de tão impregnadas da obrigação, se distanciam cada vez mais do lúdico... é mais fácil rotular a criança de TDAH do que perceber o anacronismo do ensino, a crueldade que é trocar infância por "inserção precoce em mercado de trabalho"...

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Pois é João, me parece que nosso tempo, assim, fica empacotado, digo, é preciso se posicionar e afirmar limites.
O lúdico acaba sendo visto como 'perda de tempo'. Curioso, não?

Grande abraço!

Anônimo disse...

Rodrigo, confio demais em vc e sempre falo do privilegio que eh ter o Theo sendo acompanhado por seu olhar tão afetuoso e atento!

Muito obrigada mais uma vez!!

Karina.