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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Quanto tempo o tempo tem? (1)

Caros (as),

O blog Chutebol está de volta, com a corda toda - mas dando tempo ao tempo! A psicanalista Maria Rita Kehl nos ajuda a refletir sobre a correria da vida (pós) moderna, e nos força a perguntar: quanto tempo o tempo tem?


"O tempo é uma construção social. Toda ordem social é marcada, à sua maneira, pelo controle do tempo; essa talvez seja a face mais invisível e mais onipresente do poder. O tempo, 'tecido da nossa vida' no dizer de Antonio Candido, é também a condição ontológica do psiquismo. A qualidade que define o psíquico não é espacial, é temporal (...). A inclusão da dimensão temporal, sob a forma subjetiva da espera de satisfação, marca a origem do sujeito psíquico.

'Aproveitar bem o tempo' é um dos imperativos da vida contemporânea, que corresponde a uma série de possibilidades que de fato se abriram para o desfrute da vida privada nas sociedades liberais. O indivíduo dispõe de uma enorme variedade de escolhas quanto ao desfrute de seu tempo livre, não mais regulado pelos ritos e pelas proibições da vida religiosa nem limitado pelas horas de luz do dia ou pelo maior ou menor rigor das estações (...). Por outro lado, a marcação que caracteriza o tempo do trabalho (...) invade cada vez mais a experiência da temporalidade, mesmo nas horas ditas de lazer.

Não me refiro ao ócio, essa forma de passar o tempo tão desmoralizada em nossos dias, mas às atividades de lazer, marcadas pela compulsão incansável de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência do tempo de lazer tão cansativa e vazia quanto a do tempo da produção. Nada causa tanto escândalo, em nosso tempo, quanto o tempo vazio. É preciso 'aproveitar' o tempo, fazer render a vida, sem preguiça e sem descanso.

(...) A suposta falta de tempo para o devaneio e outras atividades psíquicas 'improdutivas' exclui exatamente aquelas que proveem um sentido (imaginário) à vida, assim como as atividades da imaginação, filhas do ócio (...).


[Adaptado de 'O tempo e o cão', Maria Rita Kehl, 2009]


6 comentários:

Patrícia disse...

Investi um tempo lendo...rsrs
ela é ótima
bjs

Bruno disse...

O meu tempo, o seu tempo e o tempo formal, que padroniza, iguala e atropela.
Muito bom.

Ana Beatriz disse...

Lembrei do anúncio da Net que se gaba de mais velocidade e capacidade de transmitir dados. Tudo isso para que o usuário não perca tempo e consiga produzir mais (posts, fotos, diálogos...)
As outras empresas, não tão velozes, são desvalorizadas com um Tipo Net...
Sempre brinco que funciono no modo Tipo Net, e procuro não me seduzir com toda essa urgência.

Carol Carvão disse...

Quanto tempo o tempo tem? O seu tempo!
bjs

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Pois é Bia, isso pra mim já virou questão de saúde mental, sabia?
Acho que você está certíssima!
bjão

Rodrigo Tupinambá Carvão disse...

Perfeito Bruno, é isso mesmo, o tempo que atropela, massifica...