Páginas

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Cruyff: Futebol e não só

Caros,

Essa devo ao camarada Maurício Vidal, pai do João Antônio, nosso jogador já há bastante tempo: o cracaço holandês Johann Cruyff escreveu um livro, logo após sua participação magistral na Copa do Mundo de 1974. É forçoso repetir que aquela Holanda simplesmente redefiniu os rumos do esporte desde então. Foi a única Copa do Mundo de Cruyff.

O livro (já esgotado) teve seu título traduzido aqui como "Futebol Total", e é uma raridade - além de craque de bola, era bom com as palavras! Transcrevo aqui trechos interessantes sobre a sua maneira de entender o esporte mais amado do planeta. Valeu, Maurício!

"Meu nome é Cruyff. Nasci na Holanda há vinte e sete anos. e agora estou diante de uma máquina de escrever. Se há algo que não me entusiasma é escrever. Mas às vezes não há outro remédio. E esta é uma das vezes. (...) Não esperem portanto floreios de estilo, nem preciosismos de linguagem. Vou escrever mais ou menos como falo, com simplicidade e franqueza.

[Na Copa de 1974]
(...) Acontece que sou jogador de futebol, e o sou conscientemente, por vocação. E, sendo-o, alcancei uma certa forma de felicidade, porque o futebol não é somente minha profissão, mas também o meu prazer.Creio que muito cedo, criança ainda, meus sonhos se concentravam em chegar a ser um dia um bom jogador. (...) E, de ano para ano, de capítulo em capítulo, encontrei-me neste ano de 1974 convertido num jogador da Copa do Mundo. Ia disputar um Mundial! A aspiração máxima de um profissional da pelota é poder correr alguma vez sobre a grama de um mundial, medir suas forças na prova maior, ter a oportunidade de inscrever de um modo digno o seu nome nas crônicas do maior campeonato. Foi nesse instante que os amigos da Editora Sedmay, de Madri, me pediram que contasse minhas experiências no Mundial de 74, fossem bons ou maus os resultados.

[Hoje]
(...) Eu penso que jogar futebol é acertar e criar as ocasiões de gol. Marcar gol é um tanto casual e que está fora do futebol. Mas como a única maneira de ganhar é marcar gols, em cada equipe há que ter sempre um ou dois homens com habilidade suficiente para empurrar o balão para as redes. Embora insista em que isto nada tem a ver com futebol. Jogar futebol é combinar com eficácia e profundidade de maneira que se criem as oportunidades. Marcar gols, como já disse, depende de muitas outras coisas: sangue-frio, casualidade, sorte, falha contrária.

(...) [Sobre a derrota por 2x1 para a Alemanha, na final] Não sabemos bem por que as coisas aconteceram assim. Enganei-me, nos enganamos. Numa final, todos os jogadores estão concentrados, motivados, atentos. Por que se transformam de repente até perder o domínio? Não consigo explicar-me a mim próprio, porque na verdade é algo incrível. (...). Foi um problema de inexperiência, de bisonhice, uma psicose coletiva: estávamos ganhando, éramos campeões! Alguma coisa se acomodou na máquina, inconscientemente, (...) ao mesmo tempo que crescia uma profunda sensação de inquietação. Houve um vencedor nesse Campeonato do Mundo, que foi a Alemanha. Mas achamos que estiveram muito longe de mostrar ao público que são verdadeiros campeões do mundo. E o são por uma única razão: porque nós cometemos um fatal engano, e permitimos que eles ganhassem. Quer dizer, acho que eles não ganharam. Acho que nós perdemos. Sem desculpas. (...) A diferença entre a Alemanha e nós é que a Holanda tem [tinha] um time de futebol cem por cento, que jogamos melhor do que a Alemanha, sem a menor dúvida, mas que não contamos com a caprichosa ajuda da sorte

 (...) Vivi uma só Copa do Mundo, e por essa razão, por ter se tratado de um acontecimento especial de minha vida, de um fato que não se repetirá, solitário, é que este vai ser o único livro da minha vida. O único que jamais escreverei. Porque é agora, a 28 de julho de 1974, quando ponho o ponto final nele, sob o luminoso céu azul de Aiguafreda, enquanto Danny brinca com as crianças, e a meu lado, muito perto, em seu berço, me fitam os olhos redondos de Jordi Cruyff."

> Em tempo:

*Seu filho Jordi tornou-se jogador profissional, dirigido pelo próprio Cruyff no Barcelona.

**Mais de Cruyff aqui no blog (jogadas e gols), em http://chutebol.blogspot.com/2010/11/johan-cruyff.html.

*** Dá para entender um pouco, por estas palavras, como Cruyff montou equipes como Ajax, Barcelona, e a base do estilo de jogo da seleção da Espanha, atualmente a melhor do planeta, né?...

Aquele abraço, saudações esportivas


2 comentários:

Aderson disse...

Grande "post". Não conhecia o Cruyff nem a história da final de 1974.
Gostei!!
Abraços e até amanhã,

== Aderson ==

Anônimo disse...

Mandou Biga! Belíssima raridade! Abçs rocks. Milho.