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terça-feira, 31 de março de 2015

Antiautoajuda

Caríssimos,

O material que apresentamos abaixo chega um pouco atrasado, talvez mesmo pelo tempo necessário para digeri-lo. Eliane Brum (jornalista, escritora e documentarista), na última virada do ano, escreveu no El País esta espécie de texto-desabafo. Um desabafo do qual compartilhamos, em especial pela maneira acelerada e anestesiada com que nós adultos temos apresentado a vida à infância. No entanto, como insistimos, esta necessita de tempo - até para que possa entrar em contato com seu próprio mal-estar, para que possa aprender a escutá-lo e a conviver com ele quando necessário. Já é sabido: ser criança não significa ter infância.


A íntegra do texto está em: 

Boa leitura!

(...) Quando as pessoas dizem que se sentem mal, que é cada vez mais difícil levantar da cama pela manhã, que passam o dia com raiva ou com vontade de chorar, que sofrem com ansiedade e que à noite têm dificuldade para dormir, não me parece que essas pessoas estão doentes ou expressam qualquer tipo de anomalia. Ao contrário. Neste mundo, sentir-se mal pode ser um sinal claro de excelente saúde mental. Quem está feliz e saltitante como um carneiro de desenho animado é que talvez tenha sérios problemas. É com estes que deveria soar uma sirene e por estes que os psiquiatras maníacos por medicação deveriam se mobilizar, disparando não pílulas, mas joelhaços como os do Analista de Bagé, do tipo “acorda e se liga”. (...)

Olho ao redor e não todos, mas quase, usam algum tipo de medicamento psíquico. Para dormir, para acordar, para ficar menos ansioso, para chorar menos, para conseguir trabalhar, para ser “produtivo”. “Para dar conta” é uma expressão usual. Mas será que temos de dar conta do que não é possível dar conta? Será que somos obrigados a nos submeter a uma vida que vaza e a uma lógica que nos coisifica porque nos deixamos coisificar? Será que não dar conta é justamente o que precisa ser escutado, é nossa porção ainda viva gritando que algo está muito errado no nosso cotidiano de zumbi? E que é preciso romper e não se adequar a um tempo cada vez mais acelerado e a uma vida não humana, pela qual nos arrastamos com nossos olhos mortos, consumindo pílulas de regulação do humor e engolindo diagnósticos de patologias cada vez mais mirabolantes? E consumindo e engolindo produtos e imagens, produtos e imagens, produtos e imagens?

A resposta não está dada. Se estivesse, não seria uma resposta, mas um dogma. Mas, se a resposta é uma construção de cada um, talvez nesse momento seja também uma construção coletiva, na medida em que parece ser um fenômeno de massa. Ou, para os que medem tudo pela inscrição na saúde, uma das marcas da nossa época, estaríamos diante de uma pandemia de mal-estar. Quero aqui defender o mal-estar. Não como se ele fosse um vírus, um alienígena, um algo que não deveria estar ali, e portanto tornar-se-ia imperativo silenciá-lo. Defendo o mal-estar – o seu, o meu, o nosso – como aquilo que desde as cavernas nos mantém vivos e fez do homo sapiens uma espécie altamente adaptada – ainda que destrutiva e, nos últimos séculos, também autodestrutiva. É o mal-estar que nos diz que algo está errado e é preciso se mover. Não como um gesto fácil, um preceito de autoajuda, mas como uma troca de posição, o que custa, demora e exige os nossos melhores esforços. Exige que, pela manhã, a gente não apenas acorde, mas desperte.

Anos atrás eu escreveria, como escrevi algumas vezes, que o mal-estar desta época, que me parece diferente do mal-estar de outras épocas históricas, se dá por várias razões relacionadas à modernidade e a suas criações concretas e simbólicas. Se dá inclusive por suas ilusões de potência e fantasias de superação de limites. Mas em especial pela nossa redução de pessoas a consumidores, pela subjugação de nossos corpos – e almas – ao mercado e pela danação de viver num tempo acelerado.

(...) Hoje me parece que algo novo se impõe, intimamente relacionado a tudo isso, mas que empresta uma concretude esmagadora e um sentido de urgência exponencial a todas as questões da existência. E, apenas nesse sentido, algo fascinante. A mudança climática, um fato ainda muito mais explícito na mente de cientistas e ambientalistas do que da sociedade em geral é esse algo. A evidência de que aquele que possivelmente seja o maior desafio de toda a história humana ainda não tenha se tornado a preocupação maior do que se chama de “cidadão comum” é não uma mostra de sua insignificância na vida cotidiana, mas uma prova de sua enormidade na vida cotidiana. É tão grande que nos tornamos cegos e surdos.

(...) De certo modo, na acepção popular do termo “clima”, referindo-se ao estado de espírito de um grupo ou pessoa, há também uma “mudança climática”. Mesmo que a maioria não consiga nomear o mal-estar, desconfio que a fera sem nome abra seus olhos dentro de nós nas noites escuras, como o restante dos pesadelos que só temos quando acordados. Há esse bicho que ainda nos habita que pressente, mesmo que tenha medo de sentir no nível mais consciente e siga empurrando o que o apavora para dentro, num esforço quase comovente por ignorância e anestesia. E a maior prova, de novo, é a enormidade da negação, inclusive pelo doping por drogas compradas em farmácias e “autorizadas” pelo médico, a grande autoridade desse curioso momento em que o que é doença está invertido.

(...) Nessa época de tanta conexão, em que a maioria passa quase todo o tempo de vigília conectado na internet, há essa desconexão mortífera com a realidade do planeta – e de si. (...) Neste e em vários sentidos, é como existir no “modo avião” do celular. Um estar pela metade, o suficiente apenas para cumprir o mínimo e não se desligar por completo. Um contato sem contato, um toque que não toca nem se deixa tocar. Um viver sem vida.

É preciso sentir o mal-estar. Sentir mesmo – e não silenciá-lo das mais variadas maneiras, inclusive com medicação. Ou, como diz a pensadora americana Donna Haraway: 'É preciso viver com terror e alegria'.

Só o mal-estar pode nos salvar.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Da espontaneidade

Caros (as),

Muitas das pequenas reflexões ou anedotas que trazemos para este espaço surgem a partir de observações feitas no cotidiano do trabalho com os alunos. Porque, se deve existir uma teoria que embasa este ou aquele trabalho (em nosso caso, as teorias pedagógicas, desportivas e do desenvolvimento infantil), é fato também que as mesmas teorias devem poder se refrescar a partir daquilo que descobrimos na prática - sob o risco de ficarem ensimesmadas, correndo atrás do próprio rabo. Em última análise, perdendo o contato com a realidade das coisas e das gentes. Algo como um arquivo morto, digamos assim.


Digo isto porque, na medida em que algumas observações vão se confirmando em nossas aulas ao longo do tempo, podemos então mudar esta ou aquela maneira de abordar uma aprendizagem; mudar este ou aquele conceito de jogo; ou mesmo uma simples (simples?!) maneira de se relacionar com algum aluno ou turma. Um exemplo? A questão da espontaneidade. Explico.

Não foram poucas as vezes em que pudemos perceber que, ao chamarmos a atenção de algum aluno para que fizesse algum exercício corretamente, a dificuldade dele não era exatamente em compreender aquilo que estava sendo pedido. Mas sim que o hipotético aluno estava, na verdade, muitíssimo preocupado em fazer aquilo que ele achava que o professor queria que ele fizesse. Confuso, não? 

Estou tentando dizer que o mais importante ao apresentar uma atividade para a criança (e acredito que isto transcende os campos de futebol) é proporcionar um ambiente no qual ela possa, num primeiríssimo momento, experimentar a atividade ao seu modo: errando e acertando; falhando e observando os colegas; construindo novas hipóteses. À criança comum, se for dada a chance de confiar em si mesma, tem um desejo natural de acertar, de querer aprender coisas novas. Está explorando o mundo e, no mais das vezes, após algum tempo, confia em si, se apropria do desafio e acerta. Se assim ocorrer, entendo que é um 'acerto' pleno de sentidos.

Ao contrário, se já de cara for pressionada por uma resposta cabalmente certa - ainda não tendo tido tempo de se apropriar da atividade -, dificilmente conseguirá confiar em si mesma, transparecendo muitas vezes uma sensação de insegurança. A partir daí, ela normalmente fica tentando repetir identicamente o adulto, pelo medo de errar. No mais das vezes, não consegue. Isso gera uma espécie de paralisia, com a criança meio perdida sem saber o que fazer. Ou fazendo tudo com o corpo enrijecido, sem se arriscar. Tudo isso faz com que ela não possa se apropriar do gesto e/ou do pensamento - em suma, não está aprendendo. Quando esta criança for exigida novamente, ainda mais se estiver sob pressão (um torneio, uma prova), fatalmente falhará. Ou se acertar, será de maneira mecânica, o que não seria problema algum se já não soubéssemos que este tipo de mecanismo enriquece muito pouco a existência do sujeito. Não fede, nem cheira (quando não gera sofrimento desnecessário).

Assim, quando falamos da conquista da espontaneidade, não tem nada a ver com uma ideia boboca de uma vida sem restrições, proibições ou responsabilidades. É sabido que isso também não funciona. Mas tento apontar que, tanto quanto o adulto conseguir acolher uma primeira angústia do 'não saber' (e que pode ser a angústia dele, adulto), tendo fornecido um modelo prévio, mas sem atropelar o tempo da criança, tanto é o quanto a criança vai poder se beneficiar de descobrir as coisas, confiar em si e nas possibilidades do seu corpo. E é evidente que, após este primeiro momento de exploração, o adulto deve estar disponível para ajudar, corrigindo aqui e ali e chamando a atenção se preciso for. 

A capacidade de ser espontâneo é uma tremenda conquista corporal e psíquica. É sinal de saúde e abre as portas para a criatividade e para o verdadeiro diálogo (não uma mera repetição de palavras), além de ajudar o sujeito a se posicionar diante das dificuldades que a vida impõe. A propósito, lembrando: não é a Ciência que nasce da observação e da exploração? 

Aquele abraço, saudações esportivas

segunda-feira, 16 de março de 2015

Contradições

Caríssimos (as),

É próprio dos poetas e dos artistas, seja pela imagem, pelo som ou pelas palavras, lembrar-nos do contraditório que há em nós. Contraditório que no mais das vezes tem de ficar escondidinho, afinal a vida em sociedade - é fato! - precisa que, de alguma maneira, funcionemos. Ponto. C'est comme ça. Mas é fato também que, aqueles de nós que podem olhar para além do umbigo, que podem se haver com seu próprio disfuncional, costumam ser pessoas que carregam consigo algum mistério, um brilho nos olhos, um borogodó.




E isso dá tanto pano pra manga que não faltam ramos, das ciências e das psicologias, que falam numa patologia do normal, uma espécie de 'normose' - o sujeito normal demais, adaptado demais. Como se nada o alquebrasse, nada ali fosse estranho. Como se isso fosse possível, humanamente possível. Como se haver com tamanha certeza? Como pensar, senão através da dúvida? Pois bem, eu não tenho a resposta. Mas, como havia falado dos poetas nessa questão, trazemos abaixo nosso padrinho adotado (nós que o adotamos), Manoel de Barros, para falar da contradição! Boa leitura!


"Um olhar

Eu tive uma namorada que via errado. O que ela via
Não era uma garça na beira do rio. O que ela
via era um rio na beira de uma garça. Ela despraticava
as normas. Dizia que seu avesso era mais visível
do que um poste.

Com ela as coisas tinham que mudar
de comportamento. Aliás, a moça me contou uma vez
que tinha encontros diários com as suas contradições.
Acho que essa frequência nos desencontros ajudava
o seu ver oblíquo. Falou por acréscimo que ela
não contemplava as paisagens. Que eram as paisagens
que a contemplavam. Chegou de ir no oculista.

Não era um defeito físico falou o diagnóstico. Induziu
que poderia ser uma disfunção da alma. Mas ela 
falou que a ciência não tem lógica. Porque viver
não tem lógica - como diria a nossa Lispector. 
Veja isto: Rimbaud botou a Beleza nos joelhos e 
viu que a Beleza é amarga. Tem lógica?

Também ela quis trocar por duas andorinhas os urubus que
avoavam no Ocaso de seu avô. O Ocaso de seu avô
tinha virado uma praga de urubu. Ela queria trocar
porque as andorinhas eram amoráveis e os urubus
eram carniceiros. Ela não tinha certeza se essa
troca podia ser feita. O pai falou que verbalmente 
podia.

Que era só despraticar as normas. Achei certo."

['Memórias Inventadas' - As infâncias de Manoel de Barros, 2008]

segunda-feira, 9 de março de 2015

Medo de perder

Prezados (as),

Ninguém gosta de perder. Não que eu saiba. Ou, ao menos, não em sã consciência (querelas psicanalíticas à parte, vá lá...). Mas existe um momento na vida das crianças, em especial quando começam a viver as agruras do esporte, que a derrota ganha um peso por vezes assustador.


A relação com a derrota, com o medo de perder, evidencia um certo estado de espírito do sujeito. Porque jogar é sempre um risco. É se expor ao risco, a saber: a possibilidade de perder. E como a criança lida com isso?

Bem, no mais das vezes, vai lidar da maneira que isso se apresenta pra ela a partir de duas referências iniciais. Pais e professores, notadamente. O círculo familiar e, em seguida, o meio social mais amplo representado pela escola e os outros grupos dos quais fizer parte. Uma turminha do futebol, por exemplo. Claro, hoje em dia há o peso das mídias que ampliam a chegada destas representações à criança mas, dependendo novamente dos adultos mais presentes à sua volta, este peso pode ser filtrado em conversas, pequenos debates e os juízos de valor que sustentam cada meio social. Enfim, as conversas e perguntas do cotidiano comum que as crianças expõem aos adultos.

Tudo isso para dizer que acredito ser preciso um cuidado especial quando a criança está excessivamente mobilizada diante do medo de perder. A fórmula ancestral 'ganhou, sorri; perdeu, chora', é de grande valia para nós no Chutebol. Não vemos problema quando o sujeito chora porque perdeu. A livre expressão das emoções é mais do que saudável. Mas o que estou falando é de quando há um excesso afetivo na representação da ideia de derrota, algo que aflige e atrapalha a criança (e muitos adultos!) em suas atividades não só esportivas.

Quando isso acontece, talvez seja necessário pensar: o que significa 'perder' para o fulaninho? Perder o quê? Um lugar no coração dos pais? Um posto de aluno querido? Perder, o que é? É ser menosprezado? É ser abandonado? É deixar de ser o número 1? Estas são questões comuns à infância e que devem ser elaboradas. Evidente que a criança não vai falar disso com essa clareza, mas o adulto pode captar suas impressões - e perguntar a si mesmo como lida com a derrota.

Creio que exista algo de muito infantilóide nos tempos atuais. Um certo narcisismo abobalhado, como se todo mundo tivesse que vencer sempre, estar sempre feliz para ser reconhecido. É claro que isso não funciona. Um amadurecimento do sujeito está intrinsecamente ligado à maneira como este se relaciona com o lado trágico da vida. O algo que sempre nos falta, a vitória que nos escapa.   

Churchill costumava brincar dizendo que o sucesso consiste em seguir de derrota em derrota sem perder o entusiasmo. Talvez estivesse certo. Se estas coisas puderem ser elaboradas com alguma leveza e bom-humor, tanto melhor.

Aquele abraço, saudações esportivas

segunda-feira, 2 de março de 2015

Rio 450

Caros (as),

Em nome do Chutebol, gostaria de agradecer à Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Aqui nasci, vivi, cresci. Aqui aprendi a cair e me levantar, sorrir e chorar, partir e chegar. Aqui resmungo minhas ranzinzices falando mal da cidade e de suas máfias e mazelas; mas também é aqui que vou à praia no mesmo lugar, vou apaixonadamente ao Maracanã, continuo jogando futebol, respiro música, tomo a justa cerveja no boteco; trabalho, estudo, vivo dores e amores. É aqui, especialmente aqui, que minha família e amigos servem como amparo mais primoroso às durezas da vida.


Freud dizia que o reverso do amor não é o ódio, mas a indiferença. E tudo o que não sinto por essa cidade é indiferença. O Rio me arrepia.

***
Para não deixar passar em branco os 450 anos do Rio, o Chutebol traz, logo abaixo, um recorte primoroso da escritora (e imortal da ABL) Rosiska Darcy de Oliveira - sobre os encantos e desencantos da cidade. Boa leitura!

"O que melhor atesta a grandeza de uma pessoa? O senso comum acredita que seja a capacidade de enfrentar a adversidade. A coragem é sempre valorizada. Outra hipótese menos explorada seria que a grandeza se mostra na capacidade de viver a alegriaA alegria é suspeita de leviandade. Pode ser que essas duas versões às vezes se confundam e essa hipótese explicaria o destino da cidade em que, por sorte, nasci.

(...) O Rio completa 450 anos. Nessa já longa vida vem testemunhando uma história em que se misturam a dor e a alegria. Não é preciso na véspera do aniversário fazer o inventário das misérias que todos conhecemos. Nenhuma delas é aqui esquecida ou minimizada.“E, no entanto, é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar e alegrar a cidade”. Impossível festejar o aniversário do Rio sem Vinicius. E vamos concordar com ele que “é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe”. Hoje, louvando o que bem merece, é a admirável capacidade do povo carioca de ser alegre que invade o texto.

As multidões que no carnaval tomam as ruas, vindas de todo canto, e se constituem em blocos onde milhões de pessoas se divertem de graça, incansáveis, durante uma semana, são a prova dessa alegria, em que há também “um bocado de tristeza”. E de uma energia que ninguém sabe de onde vem e que os dissabores não conseguem sufocar.

Em tempos de fundamentalismos delirantes, os blocos são um discurso vivo contra todos os fundamentalismos, são eles que, pela irreverência, anunciam os pecados da cidade e afirmam, pelo simples fato de existirem, sua maior virtude, a tolerância.

O carnaval é uma festa virtuosa ao contrário do que dizem os que acreditam deter o monopólio da virtude. Se o carnaval causa problemas, e causa muitos, de barulho, mobilidade, limpeza, segurança, todas as soluções logísticas são urgentes e bem-vindas, exceto estancar essa alegria das ruas que veio para ficar.

(...) Este ano, do fundo da Sapucaí surgiu uma águia branca, redentora, um Cristo alado pousado no asfalto, que atravessou a avenida fundindo no simbolismo o carnaval e o próprio Rio. Águia com vocação de pomba da paz, abrindo e fechando as asas em movimento protetor. Águia branca redentora, livrai-nos da ganância que prostitui o carnaval.

(...) Do que nos redime esse Cristo alado, surrealista, inspirado em Magritte? Do vício de só olhar para nossos defeitos e carências. Sofremos dos infernos de cada dia que afligem as grandes metrópoles, da falta d’água ao trânsito impossível, sem falar no mais sinistro, a violência. De mediocridade, não. De falta de criatividade, não sofremos.

Não se menospreze a alegria dos cariocas como um mito ou uma inútil peça de folclore. É um traço cultural, que melhor se mostra no carnaval, mas está presente o ano inteiro, recurso de sobrevivência precioso na luta contra um cotidiano áspero.

(...) Não só alegre, o Rio é uma cidade inteligente. Inventa, não copia. Recebe todos, brasileiros ou não, para fazê-los seus. Inimitável, é ela a mãe nossa de cada dia. Rebelde, vive os paroxismos dos inconformados, diaba solta nas suas próprias ruas, nas vielas, testemunha e herdeira de descaminhos, erros e desgovernos. E se pergunta, desolada, por que não foi mais feliz.

Compõe então suas melhores canções, que exprimem a vocação de poesia que, para além do bem e do mal, emerge do espelho. Do espelho do mar. O mar que insiste em chamá-la de linda, em amá-la dia e noite, como se fosse perfeita. O mar que a consola, embala, perdoa. O mar que é como todos nós, seus filhos devotos e amantes incondicionais."

[Adaptado de 'A águia redentora' - Jornal O Globo, 28/02/15]