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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Pais & Filhos

Prezados (as),

A já famosa questão da colocação de limites na educação de crianças e adolescentes é tema inesgotável - e muitas vezes ganha contornos dramáticos dependendo de como a família lida com isso. Nossa amiga e psicanalista Andrea Martinelli, mãe do goleirão Heitor, enviou pra nós essa ótima entrevista de Jean-Pierre Lebrun, psicanalista belga que é referência na Europa sobre as mudanças nas relações entre pais e filhos, na dita Pós-Modernidade. 


Aqui no Chutebol costumamos lembrar que é preciso demarcar o tempo da infância, e que o compromisso com o sucesso (seja lá o que isso signifique) pode se tornar um verdadeiro pesadelo na vida do sujeito. Exatamente nisso Lebrun insiste, e fala alto: "Ensinem os filhos a falhar."

A íntegra em: 

Boa leitura!

> Por que os pais hoje têm tanta dificuldade de controlar seus filhos?
Jean-Pierre Lebrun:
Isso é reflexo da perda de legitimidade. Até pouco tempo atrás, a sociedade era hierarquizada, de forma que havia sempre um único lugar de destaque. Ele podia ser ocupado por Deus, ou pelo papa, ou pelo pai, ou pelo chefe. Isso foi se desfazendo progressivamente, e o processo se acentuou nos últimos trinta anos. Hoje, a organização social não está mais constituída como pirâmide, mas como rede. E, na rede, não existe mais esse lugar diferente, que era reconhecido espontaneamente como tal e que conferia autoridade aos pais. As dificuldades para impor limites se acentuaram, causando grande apreensão nas pessoas quanto ao futuro de seus filhos.

> Existe uma fórmula para evitar que os filhos sigam por um caminho errado?
Jean-Pierre Lebrun:
É preciso ensiná-los a falhar. Uma coisa certa na vida é que as crianças vão falhar, não há como ser diferente. Quando os pais, a família e a sociedade dizem o tempo todo que é preciso conseguir, conseguir, conseguir, massacram os filhos. É inescapável errar. Todo mundo, em algum momento, vai passar por isso. Aprender a lidar com o fracasso evita que ele se torne algo destrutivo. 

Às vezes é preciso lembrar coisas muito simples que as pessoas parecem ter esquecido completamente. Estamos como que dopados. Os pais sabem que as crianças não ficarão com eles a vida inteira, que não vão conseguir tudo o que sonharam, que vão estabelecer ligações sociais e afetivas que, por vezes, lhes farão mal, mas tentam agir como se não soubessem disso. Hoje os filhos se tornaram um indicador do sucesso dos pais. Isso é perigoso, porque cada um tem a sua vida. Não é justo que, além de carregarem o peso das próprias dificuldades, os filhos também tenham de suportar a angústia de falhar em relação à expectativa depositada neles.

> Falando concretamente, como é possível perceber essa diferença no comportamento das famílias hoje?
Jean-Pierre Lebrun:
A mudança é visível. Na Europa, por exemplo, quando um professor dá nota baixa a um aluno, é certo que os pais vão aparecer na escola no dia seguinte para reclamar com ele. Há vinte, trinta anos, era o aluno que tinha de dar satisfações aos pais diante do professor. É uma completa inversão. Posso citar outro exemplo. Desde sempre, quando se levam os filhos pela primeira vez à escola, eles choram. Hoje em dia, normalmente são os pais que choram. A cena é comum. É como se esses pais tivessem continuado crianças. Isso acontece porque eles não são capazes de se apresentar como a geração acima da dos filhos. É uma consequência desse novo arranjo social, em que os papéis estão organizados de forma mais horizontal.

> Como o senhor avalia essa mudança? Esse novo arranjo é pior do que o anterior?
Jean-Pierre Lebrun:
Hoje os pais precisam discutir tudo, negociar o que antes eram ordens definitivas. E isso não é necessariamente algo negativo, desde que fique claro que, depois de negociar, discutir, trocar ideias, quem decide são os pais.

> Essas mudanças na estrutura social podem influenciar em aspectos negativos como, por exemplo, o uso abusivo de drogas?
Jean-Pierre Lebrun:
Não há uma relação automática. Os mecanismos pelos quais os indivíduos se tornam dependentes químicos são diversos e complexos. A psicanálise ajuda a identificar alguns deles. Vou dar um exemplo. Manter uma criança em satisfação permanente, com sua chupeta na boca o tempo todo, fazendo por ela tudo o que ela pede, a impede de ser confrontada com a perda da satisfação completa. E isso vai ser determinante em sua formação.

> (...) Costuma-se atribuir o mau comportamento dos filhos à falta da estrutura familiar tradicional, como a que ocorre após uma separação. Qual a exata influência que isso pode ter?
Jean-Pierre Lebrun: Uma família organizada de forma aparentemente harmônica não necessariamente faz de um jovem uma pessoa capaz de conviver e suportar o sofrimento inerente à condição humana. Essa capacidade pode ser pequena em famílias aparentemente realizadas, com estrutura sólida. Assim como pode ser enorme em uma família conflituosa, dividida, conturbada. Por isso, não se deve levar em conta apenas o aspecto exterior da família. O que vale é a capacidade dos pais de fazer os filhos crescer. De incutir-lhes a verdadeira condição humana. Esse é o bom ambiente familiar, independentemente do desenho que a família tenha.

> O melhor mesmo, então, é aceitar que a existência é sofrida?
Jean-Pierre Lebrun: O processo é mesmo muito mais complexo do que ocorre com outros animais. Um cão nasce cão e será assim para o resto da vida. Um tigre será sempre tigre. Um humano, no entanto, precisa se tornar plenamente humano. É uma enorme diferença. Esse processo leva uns vinte, 25 anos e está sujeito a percalços. Na Renascença já se falava disso: não somos humanos, nós nos tornamos humanos."

Aquele abraço, saudações esportivas

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Normais

Caros (as),

Uma pergunta tem comparecido com alguma frequência, por parte dos papais e mamães, quando vão levar e assistir seus rebentos nas aulas do Chutebol - em especial com alunos mais novinhos: "Professor, você não está achando o fulano muito desatento, não?". É uma pergunta e tanto. No espaço de uma fração de segundo, me considero diante de um grande desafio! Explico.


No contexto atual da infância, essa tem sido uma pergunta cheia de significados. No mais das vezes, com um certo temor de alguma (suposta) dificuldade da criança estar relacionada a algum transtorno mental - notadamente o TDA/H (Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade).

Uma fração de segundo. Penso em como é mais do que legítima a preocupação (às vezes aflição) dos pais no momento da pergunta. Penso que procuro falar sempre do lugar de um observador, um professor extra-curricular que convive com a criança apenas um par de horas na semana. Mas penso também que, dependendo do olhar, é possível contribuir para ajudar meu interlocutor a pensar junto e se posicionar.

E qual o olhar em questão? Bem, o Chutebol costuma se posicionar a favor do tempo da criança como um tempo peculiar. Como a noção de um tempo categoricamente diferente do tempo do adulto - tal é o pressuposto fundamental desta conquista civilizatória a qual resolvemos chamar de infância. Assim como vejo, é sempre um grande desafio conseguir enxergar o que é uma criança explorando e se apropriando do mundo ao redor com mais ou menos vagar; com mais ou menos segurança; demandando mais ou menos do adulto cuidador; e o que é uma criança realmente em dificuldade e que entra em sofrimento, necessitando de cuidados a mais do que aqueles cotidianos.

Então, quando estamos na quadra e muitas vezes o fulaninho se desliga do jogo, ou não vai na bola como a maioria, não entendo isso a priori como um déficit. Principalmente porque, em nossa metodologia, no mais das vezes o que acontece é de a criança brincar à vontade na hora do Tempo Livre; participar dos piques e das atividades psicomotoras com desenvoltura comum; fazer os treinamentos que exigem algum desempenho com afinco; e, no jogo... no jogo... o jogo de futebol (futsal, no caso), em si, se é um momento muito aguardado para a maioria, para outros pode levar mais tempo até virar um momento realmente divertido. Porque pode acontecer de o aluno sentir que ainda não joga bem, então não confia no seu taco e aí sim, a atenção fica, digamos, escapulindo. Ele simplesmente ainda se vê pouco capaz de agir efetivamente. Então fica ali, meio viajandão. "Caramba, é uma bola só para dez jogadores..." Queria dizer que isso é comum, muito especialmente até uns 08 anos de idade mais ou menos. 

Há poucas semanas assisti a uma palestra de Rossano Cabral Lima, psiquiatra de crianças e adolescentes e Doutor em Saúde Coletiva pelo IMS (Instituto de Medicina Social)/UERJ. Foi na Sobepi, a sociedade psicanalítica da qual faço parte. Tomei a liberdade de pedir o material emprestado para publicar uma parte aqui. A palestra, sobre a medicalização na infância, contextualizava esta questão. Não se trata de crucificar ou endeusar a medicalização, mas de ter recursos tanto para criticá-la como para admiti-la. O poder e autoridade do saber médico, junto ao que ele chamou de 'biomercado', são motores de um processo que, muitas vezes, simplesmente desqualifica as questões subjetivas para um determinado comportamento. Como tem sido o cotidiano do sujeito? Ele parece feliz? Como a família vive a questão da eficiência e do tempo em suas relações? É super exigente? O que a escola aponta, e como ela mesma lida com as dificuldades de cada um? O projeto pedagógico é o que a família espera de uma boa educação? Tais são questões que devem ser investigadas com real interesse e honestidade, e não desqualificadas ou vistas apenas en passant - para um destino fatal necessariamente medicamentoso de 'cura' (?) para um comportamento desviante.

A questão da normalidade versus patologia é uma querela interminável. Mas é muito importante sob pena de, como nos alertou o dr. Rossano, estarmos instituindo o que ele chamou com humor de Síndrome da Criança Normal (SCN). Então, atenção (!) para os informes abaixo:

"Somando as opositivas, desatentas, bipolares, hiperativas, aspergers, disruptivas, etc., ainda restariam crianças normais? (...) Qual é a concepção de normalidade que está implícita nas novas categorias psiquiátricas infantis e juvenis? Se os sintomas abaixo persistirem por mais de 06 meses, podemos estar diante da Síndrome da Criança Normal (SCN):
  1. Está sempre atento a detalhes, não cometendo erros por omissão em atividades escolares e outras;
  2. Não desacata nem recusa-se a obedecer a solicitações ou regras dos adultos;
  3. Não abandona sua cadeira em sala de aula ou outras situações nas quais se espera que permaneça sentado;
  4. Tem facilidade para organizar tarefas e atividades;
  5. Não tem problemas para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas;
  6. Nunca adota um comportamento deliberadamente incomodativo;
  7. Não evita, não demonstra ojeriza nem reluta em envolver-se em tarefas que exijam esforço mental constante (como tarefas escolares ou deveres de casa);
  8. Não costuma mostrar-se suscetível ou irritar-se com facilidade;
  9. Escuta com atenção quando lhe dirigem a palavra;
  10. Não perde coisas necessárias para tarefas e atividades (brinquedos, tarefas escolares, lápis, livros ou outros materiais);
  11. Sempre consegue manter a calma;
  12. Assume seus erros, não responsabilizando os outros por seu mau comportamento;
  13. Não dá respostas precipitadas antes das perguntas terem sido completamente formuladas;
  14. Segue instruções e termina seus deveres escolares e tarefas domésticas no tempo esperado;
  15. Brinca em silêncio e não se envolve ruidosamente em atividades de lazer;
  16. Não discute com adultos;
  17. Não agita as mãos ou os pés nem se remexe na cadeira;
  18. Fala sempre na medida certa, nunca em demasia;
  19. Não apresenta esquecimento nas atividades cotidianas;
  20. Não se mostra rancoroso ou vingativo;
  21. Mantém-se atento a suas tarefas, mesmo na existência de estímulos distrativos;
  22. Aguarda a sua vez sem dificuldades;
  23. Não costuma se mostrar 'a mil' ou 'a todo vapor';
  24. Não corre ou escala em demasia, em situações impróprias;
  25. Não demonstra ressentimento ou manifesta raiva;
  26. Não apresenta irritabilidade nem se descontrola em resposta a estressores cotidianos.
A introdução dos psicofármacos, a partir da década de 1950, representou um avanço no patamar de bem-estar dos pacientes, e hoje é uma conquista incorporada ao repertório de procedimentos médicos. (...) [Mas] É preciso escapar da armadilha nosológica: nem todo problema de saúde mental infanto-juvenil se traduz num transtorno mental infantil ou juvenil. O uso dos diagnósticos e de psicofármacos não implica localizar toda a patologia na criança e esquecer do ambiente, das suas relações significativas, e da história da criança e de quem dela cuida." [Rossano Cabral Lima]

Aquele abraço, saudações esportivas

segunda-feira, 6 de abril de 2015

De Terceira

Prezados (as),

Não é de hoje que, por diversos fatores, vemos uma profusão de torcedores mirins que não só literalmente vestem a camisa dos grandes times europeus como, de quebra, sabem tudo e mais um pouco sobre os clubes, campeonatos e jogadores do velho continente. Não é incomum, ao perguntar para um pimpolho 'qual é o seu time?', ouvir a resposta 'ah, sou Vasco, Barcelona e PSG.'


O que é interessante é que, há não tanto tempo atrás, quando os canais a cabo e a internet se popularizaram, tinha simplesmente ficado mais fácil poder acompanhar os campeonatos lá de fora e se informar, poder apreciar outro futebol que não o nosso. Digo, a ideia era apenas assistir a um futebolzinho e, no mais das vezes, uns e outros acabavam por se tornar simpatizantes de algum clube. Simpatizantes: um flerte, nada mais.

Evidente que isso foi uma baita novidade! Me remete, mal comparando, a quando escuto a geração dos meus pais dizer que, para ouvir o disco novo de algum conjunto de Rock dos anos '70 era necessário esperar meses a fio até que o disco (unzinho só!) aportasse por estas terras. E aí o pessoal se maravilhava. E como isso mudou, dado que hoje em dia parece que a dificuldade é dos músicos em preservarem seus direitos como artistas (com as facilidades de se ouvir música pela web, etc) - mas isso já é outra história. Já vou dizer aonde quero chegar.

Me peguei, ao longo dos últimos meses, completamente fascinado pelo campeonato inglês. A intensidade e a qualidade dos jogos, uma certa lealdade na disputa, a quantidade de talentos em campo numa só partida. Ao mesmo tempo em que pude começar a entender melhor o fascínio das crianças e dos adolescentes por realmente desejarem saber e acompanhar tudo, tudinho o que se passa no futebol europeu, percebi que o que era um flerte virou paixão - mas paixão pelo que, meu deus, se eu sou Flamengo?? Paixão pelo bom futebol. Lembrei que o namoro começou com o Barcelona de Xavi, Iniesta & Messi; e que a relação ficou séria quando me peguei torcendo com unhas e dentes pelo Liverpool (os 'Reds') no campeonato inglês. Me programando para acordar cedo domingo e assistir na tv, veja só.

Daí que fui ontem no Maracanã assistir ao Fla-Flu, meu jogo predileto. No vagão do metrô, na ida, uns alemães me pediram informação. Fiquei meio sem jeito, quase que pedindo desculpas de antemão pelo que eu supunha eles iriam ver. Mas enfim, lá se foram. E no estádio virei criança, torci, cantei, vencemos, zombamos do adversário como é natural - mas o preço foi assistir a um festival de pixotadas, furadas, caneladas e empurrões, numa verdadeira briga com a bola. Mais do que pela bola. A bola, essa pobre coitada. Virou lugar comum dizer que, na verdade, não se joga o mesmo esporte no Brasil e nos grandes centros da Europa: um dos dois não é futebol. 

Então, na saída, um velho amigo comentou com propriedade: "Cara, isso que nós estamos vendo aqui é uma espécie de Terceira Divisão do futebol mundial". Só me restou concordar. Nem Segunda. Terceira, mesmo. Pensei nos motivos de eu ir cada vez menos ao estádio. Pensei nas crianças novamente, eu que andei muito tempo curioso em saber o porque de tanto ímpeto na torcida por clubes estrangeiros. É simples: as crianças de hoje sequer têm o referencial romântico que, ao menos até a minha geração, empurrava-nos ao estádio. Já nasceram com a vaca indo pro brejo. E não querem ser enganadas: ao comparar lá com cá, atualmente perdemos de lavada.

Claro, não precisa ser um ou outro. Nem é pra ser. Mas talvez muitos de nós sintam que o amor pelos clubes de coração esteja simplesmente caducando, diante da paixão pelo bom futebol que, por ora, só nos resta invejar.

Aquele abraço,saudações esportivas

terça-feira, 31 de março de 2015

Antiautoajuda

Caríssimos,

O material que apresentamos abaixo chega um pouco atrasado, talvez mesmo pelo tempo necessário para digeri-lo. Eliane Brum (jornalista, escritora e documentarista), na última virada do ano, escreveu no El País esta espécie de texto-desabafo. Um desabafo do qual compartilhamos, em especial pela maneira acelerada e anestesiada com que nós adultos temos apresentado a vida à infância. No entanto, como insistimos, esta necessita de tempo - até para que possa entrar em contato com seu próprio mal-estar, para que possa aprender a escutá-lo e a conviver com ele quando necessário. Já é sabido: ser criança não significa ter infância.


A íntegra do texto está em: 

Boa leitura!

(...) Quando as pessoas dizem que se sentem mal, que é cada vez mais difícil levantar da cama pela manhã, que passam o dia com raiva ou com vontade de chorar, que sofrem com ansiedade e que à noite têm dificuldade para dormir, não me parece que essas pessoas estão doentes ou expressam qualquer tipo de anomalia. Ao contrário. Neste mundo, sentir-se mal pode ser um sinal claro de excelente saúde mental. Quem está feliz e saltitante como um carneiro de desenho animado é que talvez tenha sérios problemas. É com estes que deveria soar uma sirene e por estes que os psiquiatras maníacos por medicação deveriam se mobilizar, disparando não pílulas, mas joelhaços como os do Analista de Bagé, do tipo “acorda e se liga”. (...)

Olho ao redor e não todos, mas quase, usam algum tipo de medicamento psíquico. Para dormir, para acordar, para ficar menos ansioso, para chorar menos, para conseguir trabalhar, para ser “produtivo”. “Para dar conta” é uma expressão usual. Mas será que temos de dar conta do que não é possível dar conta? Será que somos obrigados a nos submeter a uma vida que vaza e a uma lógica que nos coisifica porque nos deixamos coisificar? Será que não dar conta é justamente o que precisa ser escutado, é nossa porção ainda viva gritando que algo está muito errado no nosso cotidiano de zumbi? E que é preciso romper e não se adequar a um tempo cada vez mais acelerado e a uma vida não humana, pela qual nos arrastamos com nossos olhos mortos, consumindo pílulas de regulação do humor e engolindo diagnósticos de patologias cada vez mais mirabolantes? E consumindo e engolindo produtos e imagens, produtos e imagens, produtos e imagens?

A resposta não está dada. Se estivesse, não seria uma resposta, mas um dogma. Mas, se a resposta é uma construção de cada um, talvez nesse momento seja também uma construção coletiva, na medida em que parece ser um fenômeno de massa. Ou, para os que medem tudo pela inscrição na saúde, uma das marcas da nossa época, estaríamos diante de uma pandemia de mal-estar. Quero aqui defender o mal-estar. Não como se ele fosse um vírus, um alienígena, um algo que não deveria estar ali, e portanto tornar-se-ia imperativo silenciá-lo. Defendo o mal-estar – o seu, o meu, o nosso – como aquilo que desde as cavernas nos mantém vivos e fez do homo sapiens uma espécie altamente adaptada – ainda que destrutiva e, nos últimos séculos, também autodestrutiva. É o mal-estar que nos diz que algo está errado e é preciso se mover. Não como um gesto fácil, um preceito de autoajuda, mas como uma troca de posição, o que custa, demora e exige os nossos melhores esforços. Exige que, pela manhã, a gente não apenas acorde, mas desperte.

Anos atrás eu escreveria, como escrevi algumas vezes, que o mal-estar desta época, que me parece diferente do mal-estar de outras épocas históricas, se dá por várias razões relacionadas à modernidade e a suas criações concretas e simbólicas. Se dá inclusive por suas ilusões de potência e fantasias de superação de limites. Mas em especial pela nossa redução de pessoas a consumidores, pela subjugação de nossos corpos – e almas – ao mercado e pela danação de viver num tempo acelerado.

(...) Hoje me parece que algo novo se impõe, intimamente relacionado a tudo isso, mas que empresta uma concretude esmagadora e um sentido de urgência exponencial a todas as questões da existência. E, apenas nesse sentido, algo fascinante. A mudança climática, um fato ainda muito mais explícito na mente de cientistas e ambientalistas do que da sociedade em geral é esse algo. A evidência de que aquele que possivelmente seja o maior desafio de toda a história humana ainda não tenha se tornado a preocupação maior do que se chama de “cidadão comum” é não uma mostra de sua insignificância na vida cotidiana, mas uma prova de sua enormidade na vida cotidiana. É tão grande que nos tornamos cegos e surdos.

(...) De certo modo, na acepção popular do termo “clima”, referindo-se ao estado de espírito de um grupo ou pessoa, há também uma “mudança climática”. Mesmo que a maioria não consiga nomear o mal-estar, desconfio que a fera sem nome abra seus olhos dentro de nós nas noites escuras, como o restante dos pesadelos que só temos quando acordados. Há esse bicho que ainda nos habita que pressente, mesmo que tenha medo de sentir no nível mais consciente e siga empurrando o que o apavora para dentro, num esforço quase comovente por ignorância e anestesia. E a maior prova, de novo, é a enormidade da negação, inclusive pelo doping por drogas compradas em farmácias e “autorizadas” pelo médico, a grande autoridade desse curioso momento em que o que é doença está invertido.

(...) Nessa época de tanta conexão, em que a maioria passa quase todo o tempo de vigília conectado na internet, há essa desconexão mortífera com a realidade do planeta – e de si. (...) Neste e em vários sentidos, é como existir no “modo avião” do celular. Um estar pela metade, o suficiente apenas para cumprir o mínimo e não se desligar por completo. Um contato sem contato, um toque que não toca nem se deixa tocar. Um viver sem vida.

É preciso sentir o mal-estar. Sentir mesmo – e não silenciá-lo das mais variadas maneiras, inclusive com medicação. Ou, como diz a pensadora americana Donna Haraway: 'É preciso viver com terror e alegria'.

Só o mal-estar pode nos salvar.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Da espontaneidade

Caros (as),

Muitas das pequenas reflexões ou anedotas que trazemos para este espaço surgem a partir de observações feitas no cotidiano do trabalho com os alunos. Porque, se deve existir uma teoria que embasa este ou aquele trabalho (em nosso caso, as teorias pedagógicas, desportivas e do desenvolvimento infantil), é fato também que as mesmas teorias devem poder se refrescar a partir daquilo que descobrimos na prática - sob o risco de ficarem ensimesmadas, correndo atrás do próprio rabo. Em última análise, perdendo o contato com a realidade das coisas e das gentes. Algo como um arquivo morto, digamos assim.


Digo isto porque, na medida em que algumas observações vão se confirmando em nossas aulas ao longo do tempo, podemos então mudar esta ou aquela maneira de abordar uma aprendizagem; mudar este ou aquele conceito de jogo; ou mesmo uma simples (simples?!) maneira de se relacionar com algum aluno ou turma. Um exemplo? A questão da espontaneidade. Explico.

Não foram poucas as vezes em que pudemos perceber que, ao chamarmos a atenção de algum aluno para que fizesse algum exercício corretamente, a dificuldade dele não era exatamente em compreender aquilo que estava sendo pedido. Mas sim que o hipotético aluno estava, na verdade, muitíssimo preocupado em fazer aquilo que ele achava que o professor queria que ele fizesse. Confuso, não? 

Estou tentando dizer que o mais importante ao apresentar uma atividade para a criança (e acredito que isto transcende os campos de futebol) é proporcionar um ambiente no qual ela possa, num primeiríssimo momento, experimentar a atividade ao seu modo: errando e acertando; falhando e observando os colegas; construindo novas hipóteses. À criança comum, se for dada a chance de confiar em si mesma, tem um desejo natural de acertar, de querer aprender coisas novas. Está explorando o mundo e, no mais das vezes, após algum tempo, confia em si, se apropria do desafio e acerta. Se assim ocorrer, entendo que é um 'acerto' pleno de sentidos.

Ao contrário, se já de cara for pressionada por uma resposta cabalmente certa - ainda não tendo tido tempo de se apropriar da atividade -, dificilmente conseguirá confiar em si mesma, transparecendo muitas vezes uma sensação de insegurança. A partir daí, ela normalmente fica tentando repetir identicamente o adulto, pelo medo de errar. No mais das vezes, não consegue. Isso gera uma espécie de paralisia, com a criança meio perdida sem saber o que fazer. Ou fazendo tudo com o corpo enrijecido, sem se arriscar. Tudo isso faz com que ela não possa se apropriar do gesto e/ou do pensamento - em suma, não está aprendendo. Quando esta criança for exigida novamente, ainda mais se estiver sob pressão (um torneio, uma prova), fatalmente falhará. Ou se acertar, será de maneira mecânica, o que não seria problema algum se já não soubéssemos que este tipo de mecanismo enriquece muito pouco a existência do sujeito. Não fede, nem cheira (quando não gera sofrimento desnecessário).

Assim, quando falamos da conquista da espontaneidade, não tem nada a ver com uma ideia boboca de uma vida sem restrições, proibições ou responsabilidades. É sabido que isso também não funciona. Mas tento apontar que, tanto quanto o adulto conseguir acolher uma primeira angústia do 'não saber' (e que pode ser a angústia dele, adulto), tendo fornecido um modelo prévio, mas sem atropelar o tempo da criança, tanto é o quanto a criança vai poder se beneficiar de descobrir as coisas, confiar em si e nas possibilidades do seu corpo. E é evidente que, após este primeiro momento de exploração, o adulto deve estar disponível para ajudar, corrigindo aqui e ali e chamando a atenção se preciso for. 

A capacidade de ser espontâneo é uma tremenda conquista corporal e psíquica. É sinal de saúde e abre as portas para a criatividade e para o verdadeiro diálogo (não uma mera repetição de palavras), além de ajudar o sujeito a se posicionar diante das dificuldades que a vida impõe. A propósito, lembrando: não é a Ciência que nasce da observação e da exploração? 

Aquele abraço, saudações esportivas