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quinta-feira, 28 de abril de 2016

Amadurecer

Caros (as),

Estava o fulaninho, ali pelos sete anos de vida, a jogar futebol com o cadarço desamarrado. Como é por esta idade (um pouco antes, um pouco depois) que a maioria das crianças alcança com alguma segurança a fina coordenação para amarrar o próprio tênis, parei a partida para que ele pudesse dar um jeito na situação - e falei, em tom de troça: "E agora, como fica?"

Fulano se agacha, fico à espreita. Pega daqui, pega de lá, consegue mas não consegue, o laço desmonta. Pergunto: "Cara, você sabe amarrar o cadarço?" Ele se vira pra mim e diz, um pouco injuriado: "Eu sei, mas não consigo!" Bem, não sou assim tão cruel e ajudei meu pequeno amigo naquela situação. Mas fiquei pensando em sua justificativa: o que significa 'saber' alguma coisa - mas não 'conseguir'?


Da maneira como entendi, o paradoxo exposto pelo pequeno jogador obriga a pensar nos termos do desenvolvimento infantil. As características da infância contemporânea talvez nos estejam impondo uma pequena confusão: a quantidade de informações a que as crianças de hoje têm acesso não é indicativo seguro de seu amadurecimento como pessoa. Explico.

A solução encontrada pelo menino para explicar o que estava acontecendo foi engenhosa: atende a uma demanda que, ele sabe, é esperada pelo professor (saber amarrar o cadarço); mas, ao mesmo tempo (e aí está o paradoxo) afirma com veemência aquilo que falha, que vacila. Mostra-se em sua realidade humana, imperfeita. Pode parecer uma viagem danada mas, para quem tem olhos de ver, as crianças oferecem de bandeja suas angústias. Ele tentou me dizer que, mesmo sabendo intelectualmente alguma coisa, tendo a informação correta e sabendo o que é esperado, ainda não tinha a maturidade psicomotora para concluir aquela tarefa. Podia, simplesmente, ter dito: "Não, não sei amarrar o cadarço". Mas fez questão de enfatizar que sabia, donde surge a contradição: "Sei, mas não consigo". Tomo a liberdade de, por experiência profissional, tratar deste caso como ilustrativo de uma certa condição atual.

Ora, o que será que está sendo exigido às crianças desta época que, desde muito pequenas, são obrigadas a 'saberem'?

Suponho um ideal de eficiência. O fato de nos surpreendermos e acharmos graça em suas - por vezes fabulosas - construções intelectuais e cibernéticas, sua facilidade em assimilar informações e em transitar pelo mundo da tecnologia não pode fazer com que o adulto perca de vista outras coisas tão (ou mais) importantes quanto o desenvolvimento de tais habilidades.

Responder às mais diversas demandas formuladas pela escola e pelos adultos, a partir de um 'saber' que tem origem, no mais das vezes, na torrente incessante das informações às quais vive exposta diariamente não configura, a meu ver, sinal de inteligência. Muito menos do amadurecimento geral de suas condições que é, grosso modo falando, o que entendo que uma criança precisa atingir para ir atravessando as diversas fases da vida. E isto vale para os adultos, também.

Se já é sabido que, em que pese o valor e a beleza do bom desenvolvimento intelectual, ele por si só não basta ao sujeito para encarar os dilemas da vida, que dirá um punhado de informações aceleradas, sem a articulação necessária para que se transforme em conhecimento. E atravessar estas duas etapas exige uma coisa: tempo. Que fazer? Com relação à nossa vida cotidiana, corrida dos adultos, vou poupá-los de minha ignorância. No campo da educação, entretanto, posso arriscar algum palpite.

Salvo engano, já existem movimentos na Terra, nos mais diferentes níveis educacionais (das creches às universidades), em especial nos países avançados, que procuram dialogar com o conhecimento de outra maneira. A corrida enlouquecida pelo acúmulo de informações não é o que contará no futuro. As informações, as que merecem atenção ou a lata de lixo, estão aí, à mostra. O que conta cada vez mais é a capacidade de selecioná-las, articulá-las, construir conhecimento, ser capaz de concatenar pensamentos e, sofisticando, emprestar alguma qualidade moral e afetiva a tudo isto. Não estou falando de uma educação de estereótipo bicho-grilo, ou de que conteúdo não importa. Estou lembrando (e sou só mais um) das outras coisas que importam.

Proteger o sentimento de infância é preservar o espaço e o tempo de seu amadurecimento. Neste percurso há espaço para a falha, o erro, o não-saber, as reentrâncias de uma construção mais legítima de conhecimento. De quebra, falhas e erros provocam discussões, sensações diversas, equipam o sujeito para uma vida mais profunda. Uma criança madura para sua idade é diferente de um adolescente precoce. Um adolescente maduro para sua idade é diferente de um adulto precoce. As crianças não precisam saber de tudo. Podem fantasiar que sabem, mas a fantasia é livre. Quem não pode cair neste conto, somos nós, adultos.

Noutro dia, mais recente, meu amigo da história se agachou para amarrar o cadarço novamente. Percebi que ele vinha treinando há algum tempo, e eu sempre esperava o suficiente para que pudesse acertar ou fracassar, que pedisse minha ajuda ou que me dispensasse com desdém. Numa das vezes em que conseguiu, perguntei: "Ah, você já sabe amarrar o cadarço?" "É. Eu não sabia, mas agora eu sei". E saiu correndo atrás da bola.

Quando pôde admitir o que não sabia, encontrou-se com o desconhecido; sobrou espaço para que pudesse aprender. Amadureceu o suficiente - conseguiu.

Aquele abraço, saudações esportivas

terça-feira, 19 de abril de 2016

Jogadoras

Prezadas (os),

Existem razões históricas e culturais para que o futebol seja um jogo com forte predominância masculina. No entanto, como professor de Educação Física de escolas e clubes ao longo de duas décadas, trabalhei com muitas jogadoras, crianças, adolescentes e adultas. Daí que jamais enxerguei qualquer impossibilidade ou inapetência motora para que pudessem aprender a jogar futebol.

Ao me deparar novamente com uma turma feminina me peguei recordando experiências anteriores e, assim, surgiu a vontade de escrever sobre o assunto. Creio que a inspiração veio da satisfação em vê-las treinando com uma entrega e uma alegria que faria bem ao sabichões da bola. 



É sabido que, culturalmente, a menina é menos encorajada a arriscar-se com o corpo do que o menino. Evoluímos nas últimas décadas, mas parece ainda válido como regra geral. Então, quando chega a idade escolar, lá estão os meninos ávidos para jogar um futebolzinho na aula de Educação Física - e as meninas, salvo uma minoria, desanimadas, fazendo por fazer, cumprindo tabela. Na infância, pelo próprio impulso infantil em brincar, isto é minorado. Mas, quando entram na adolescência, é covardia - tudo serve para escapar daquela tortura: é atestado, é que está menstruada, é dor de cabeça, é cólica... 

Aliás, a conhecida precariedade do trabalho desta disciplina no Brasil é um problema que estamos longe de resolver. Não precisa ser especialista no assunto: basta que cada um(a) tente lembrar, num simples exercício de memória, como foi em média a qualidade das aulas de Educação Física durante o seu período escolar. Em que pese o esforço de nós, professores, tenho a mais absoluta certeza de que o resultado geral, com as exceções de praxe, é um vexame para os profissionais da área. Este é um assunto sobre o qual pretendo escrever mais adiante.

Meu ponto agora é o seguinte: este quadro atinge de maneira mais aguda o público feminino.

E por quê? Porque, na maior parte dos casos, a Educação Física, a partir do segundo segmento do Ensino Fundamental, acaba se tornando sinônimo de 'esporte'. E na verdade são duas coisas distintas. O esporte é uma forma já muito sofisticada de atividade física, com suas regras, seus gestos motores mais refinados, posicionamentos e estratégias diversas. Para se chegar lá é preciso todo um percurso, digamos, social e psicomotor.  

Ora, se as meninas são culturalmente menos encorajadas a arriscar-se com o corpo, é fundamental abrir o jogo: escutá-las, perguntar pelos percursos. A maioria não gosta de esporte - nem de Educação Física - porque nunca sentiu prazer ou enxergou sentido em nenhuma destas atividades. Percebe-se então o desconforto em suar, em realizar algum esforço, o medo de levar bolada, o material que pode machucar, o receio de o professor ficar gritando e dizendo que está errado... Para além das diferenças de natureza entre ser menino ou menina, por que será que se escuta tanto elas dizerem: "Ah, professor, não tenho coordenação" ? Isto é inato?

É muito ruim este quadro ser visto como natural. Não precisa ser assim. Todas as vezes em que tive a oportunidade de apresentar a brincadeira como base da aprendizagem (inclusive no Ensino Médio), as alunas compraram a ideia. Mas por que? Porque brincar é bom, prazeroso. Freud dizia que o oposto da brincadeira não é a seriedade, mas sim a realidade. A possibilidade de devanear, de rir com os (as) colegas, de não fazer 'errado', de poder apresentar uma atitude relaxada (mental e corporalmente) faz com que o ambiente se torne convidativo. Convidativo a outras propostas que, se esta primeira etapa tiver sido boa o suficiente, costumam ser tomadas como desafio pela aluna. A pessoa já pode passar então a se arriscar, posto que se apropriou da atividade como sendo sua, também. Se torna um pequeno projeto - o que é muito diferente de uma mera imposição sem sentido. É a via da brincadeira que permite a intimidade com o próprio corpo, o desenvolvimento primordial dos movimentos naturais e das habilidades motoras, uma socialização efetiva e, por fim, o gosto posterior (por conta da experiência positiva) em praticar alguma atividade física.


Quando todo este processo funciona, elas dão um banho: realizam as propostas com as qualidades femininas do esmero, do cuidado com os colegas e da preocupação genuína em melhorarem naquilo que estão fazendo. Com este diálogo aberto, muitas vezes, ainda crianças, as meninas pedem um momento da aula em que sejam separadas dos meninos, no intuito de poderem fazer algum jogo de acordo com suas próprias condições. Ficam aí à vontade aquelas que já se sentem confiantes o suficiente para jogar junto aos meninos, dado que estes normalmente se apresentam mais íntimos da maioria dos jogos (convencionou-se recentemente uma bobagem politicamente correta, segundo a qual separar meninos e meninas numa atividade física escolar é necessariamente sinal de 'sexismo').

O que estou tentando dizer é que existe um quadro cultural de antemão, que atinge as práticas corporais na Educação Física e termina por confirmar às meninas o seu fracasso desportivo. É na escola que isto deve ser desnaturalizado. O clube deveria ser um ganho extra.

Se, desde o início do período escolar, as meninas puderem simplesmente ser escutadas e participarem da construção de um ambiente convidativo às brincadeiras, depois aos jogos (e demais atividades possíveis) e por fim aos esportes, ao concluir sua formação terão como legado uma memória corporal afetiva, prazerosa, que as deixará mais permeável às diversas modalidades de atividades físicas disponíveis. Garanto que topam até levar bolada em jogo de futebol.

A elas, corajosas, dedico este texto.

Aquele abraço, saudações esportivas

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Solidão adolescente

Caríssimos (as),

Tenho percebido no cotidiano do trabalho algo que já é comentado há algum tempo, tanto pelas famílias como por especialistas: o período da adolescência tem se apresentado mais cedo à infância, como que tomando desta alguns anos de existência. Digo, se pensarmos na puberdade (as mudanças hormonais e fisiológicas) como uma preparação para a adolescência, é como se esta última tivesse tomado para si a primeira, assim meio na marra. É mais que legítimo pensar nos motivos sócio-culturais da configuração que descrevi, mas o ponto que pretendo fazer agora não é este. O fato é que, de uma hora pra outra, pluft! - estamos convivendo com um adolescente. E tome de os pais levarem um susto.

Daí que muitas vezes este susto chega até os ouvidos do professor como uma queixa, um choramingo, um desconforto ou uma dúvida - "puxa, como fulano mudou, está assim, está assado, introspectivo, não me conta mais as coisas, parece viver no mundo dele... que será que aconteceu?" Dá pra pensar no que quer dizer este mundo próprio, pessoal e intransferível.



Não soa como uma solidão qualquer. Tem uma qualidade própria, que remete às transformações deste período de vida. Claro que não há novidade aí: o mundo pessoal dos adolescentes, a partir do momento em que as idades relativas passaram a ser enxergadas e distinguidas na história humana, passou a rugir cada vez mais alto e mesmo a se impor. Foi aceito como um momento particular na trajetória do sujeito e, se hoje muitos reclamam (a meu ver com razão) de uma quase ditadura da juventude, por outro lado não adianta ficar o tempo inteiro se debatendo com um problema sem ao menos tentar entender do que se trata. 

O que se convencionou chamar crise de adolescência, em meados do século anterior, continua fazendo sentido. Ao investigar as raízes desta crise chegaremos, inevitavelmente, à despedida do sentimento de infância. Como costumamos lembrar, a noção de infância é uma construção sócio-cultural, mais do que um dado biológico. Daí que, se este sentimento de infância está desaparecendo mais cedo, a irrupção de afetos ligados ao luto do infantil impacta o sujeito tremendamente. No epicentro da crise de adolescência está exatamente isto: se sofre por deixar de ser criança ao mesmo tempo em que se sofre por não saber ainda o que vai ser - afinal de contas, ainda não é adulto. Por esta perspectiva, trata-se de um não-lugar, prato cheio para uma potente sensação de vazio. "Quem sou eu?" pode soar piegas, mas quem nunca fez a pergunta perdeu o bonde da própria história. Vai vagar a esmo aí pelo planeta, meio oco.

O que a psicologia moderna resolveu chamar de luto da infância diz respeito à série de novas identificações que todos precisamos efetivar, afim de afirmarmos nossa singularidade e maneira de existir, deixando para trás (e daí decorre o luto) o mundo parental que fora, em sua maior parte, o nosso próprio mundo. Diante do temor do desconhecido porvir, tais identificações são fundamentais para que o sujeito consiga se reequilibrar no laço social. Por isso mesmo, como é também sabido, as aglutinações em torno de ídolos, pequenos grandes heróis da música, dos games, do esporte, da política e por aí vai. A adolescência é pop.

No entanto, mesmo ela sendo pop, o sentimento de solidão pode fazer parte de um amadurecimento do sujeito. Pode trazer um enriquecimento da personalidade, pois permite passear em recônditos profundos de si - afetos, memórias, verdades interiores. Experimentar a solidão é, muitas vezes, uma busca autêntica para estar consigo mesmo. Este movimento psíquico tem raízes na primeiríssima infância e pode pedir atualização em momentos críticos; tal movimento tem, como porto seguro, a situação paradoxal de ter estado só na presença de alguém. Digo, se o adolescente em questão tiver podido usufruir de uma segurança parental durante a infância, me parece que a solidão que ora comparece poderá ser vivida como um ganho - se a família compreender este movimento e se mostrar disponível, presente - mesmo que a pessoa em questão necessite ficar recolhida. Como a criança pequena que brinca 'sozinha' na presença dos pais e os internaliza em seu coração.

Esta situação, é importante frisar, é completamente diferente da solidão que remete o sujeito a um sentimento de abandono. Talvez o 'x' da questão seja exatamente distinguir um do outro, e isto não é tarefa fácil.

Acredito que, atualmente, uma grande fonte de angústia dos pais, diante disto que escrevi, são os encaminhamentos que este sentimento de solidão tem revelado; noutros tempos, para combatê-lo, as pessoas se reuniam mais nas ruas, nas casas, ou mesmo se juntavam para cometer pequenas transgressões comuns à idade. Com a revolução da internet, no entanto, muitas vezes a garotada acaba adentrando o mundo virtual para de lá não sair. Como se não houvesse porta de saída do quarto.

Mas há. O termo que citei é crise 'deadolescência, e não 'da'. Da adolescência, não há porque se dizer que está em crise, já que este é seu estado natural. Ao contrário, a crise é 'de' adolescência, e tudo o que não se deve fazer é impedi-la. Isto sim, seria travar a pessoa em seu amadurecimento. Dito de outro modo: o essencial da adolescência é a crise, e quem não a viver (com maior ou menor estranheza) provavelmente se ressentirá disto em algum ponto do futuro.

Tolerar, suportar tais fases difíceis estando numa atitude de disponibilidade é a melhor solução que tenho percebido. Ser capaz de lembrar deste período em sua própria vida também ajuda muito. Não se trata de mimar a pessoa ou achar graça no fato de ele ou ela não sair do quarto. Se o adolescente se mostra adolescente, é porque ele pede que o adulto se mostre adulto, e aí cada família se organiza à sua maneira. Apresentar determinados limites e valores da família, aliás, é também uma forma de estar presente. O que não deveria impedir uma certa aceitação se acontecer uma fase de solidão.

Ouvi dizer que o melhor remédio para a adolescência é o... tempo.

Aquele abraço, saudações esportivas

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Sonhos de jogador

Caros (as),
"Somos da mesma matéria de que são feitos os sonhos" (W. Shakespeare)

O sonho de ser jogador de futebol no Brasil é dos mais comuns na infância - de alto a baixo da pirâmide social. Existem diferenças, no entanto, pela própria condição sócio-econômica que situa o sujeito e determina as possibilidades de sua existência. Dito de outro modo, é sabido que, para os meninos mais pobres, alcançar o status de jogador de futebol profissional está intrinsecamente relacionado primeiro à sobrevivência, à melhoria das condições de vida para os seus e ao usufruto da riqueza outrora inacessível. Muitas vezes é simplesmente a melhor (quando não a única) opção da família.

Para as classes média e alta, porém, tal vislumbre parte de outro ponto, dado que as condições de vida já estão minimamente garantidas. Outras oportunidades estão na mesa. Não passa pela questão da sobrevivência mas, ainda assim, tem o poder de mover o sujeito na direção de seu desejo. Mesmo diante das outras opções na vida pragmática e cronometrada que temos levado, muitos alunos insistem em sustentar o sonho de ser jogador de futebol. Como se a realidade da agenda cheia, dos estudos, não conseguisse penetrar no sagrado terreno do devaneio pessoal. Muitos pais ficam em dúvida ante a situação (é viável? ele vai se frustrar? encorajo?) - e a pergunta finalmente chega ao professor/treinador: que fazer?



Pois bem, acredito que o primeiro ponto a ser lembrado é justamente este: o sonho não se restringe a uma classe social. Sonhar é do humano. Ainda que os encaminhamentos oníricos possam se dar desta ou daquela maneira, é impossível impedir, por vontade alheia, alguém de sonhar. Constitui assim uma atividade de caráter sagrado para o sujeito - sagrado no sentido de que é inviolável.

Penso no material de que é feito o sonho, aquele de quando estamos dormindo: imagens, com qualidades afetivas relacionadas a desejos profundos, temores diversos, identificações e maneiras de existir. Um amontoado de ações psíquicas, aparentemente sem ordem ou sentido. Aparentemente.

Se admitirmos como verdadeira a riqueza do material inconsciente, o sonho é a mais profunda verdade que fala ao sujeito. Durante o sono profundo, baixadas as censuras de nosso procedimento de vigília - que atendem às inúmeras demandas morais e sociais - ficamos tão íntimos de nós mesmos, mergulhados no inconsciente, que muitas vezes sentimos medo. Temos um baita pesadelo, por exemplo. Quem estará lá, além de nós mesmos, para nos salvar? Uma brincadeira que ouvi outro dia faz um alerta à célebre frase de Sócrates: "Conhece a ti mesmo - mas não fique tão íntimo". Adentrar o terreno da verdade sobre si requer coragem.

Se tudo isso é pertinente, então uma criança ou um adolescente que consegue dizer "Eu quero ser jogador de futebol" muito provavelmente está dizendo uma verdade verdadeira. Não cabe gozação ou menosprezo (bom humor, sim, sempre). Como é algo a princípio distante da realidade da maioria de nós, a frase entra no registro do sonho infanto-juvenil, no sentido de não ser levado a sério. Mas este é meu ponto: o sonho é legítimo. Como encarar?

Acredito que seja muito importante poder vivê-lo. Até quando durar, até quando a realidade se impuser - ou, quem sabe, até que se realize! Alguns meninos que treinaram conosco estão experimentando categoria de base de grandes clubes; outros, de tanto insistir, conseguiram bolsa em faculdade do exterior para poder seguir jogando. A grande maioria não seguiu tão longe mas, tenho certeza, foram mais felizes aqueles que puderam viver o sonho com o respeito genuíno dos adultos por esta verdade que os habitava - seus sonhos foram aceitos como produtores de sentido em suas vidas. Brincar de ser jogador é ser jogador.

A questão da frustração vai sendo suavizada na medida em que pode haver um fino ajuste entre os imperativos que a realidade apresenta (estudos, compromissos, organização familiar). Tendo sido aceito seu sonho como verdadeiro, se o menino de fato demonstrar talento e perseverança, por que não buscar a experiência num clube da federação? Por outro lado: tendo sido aceito seu sonho como verdadeiro, se o menino não for assim talentoso (não o suficiente para competir com tantos outros), ou não se empenhar da maneira necessária, ele mesmo abandonará naturalmente esta ideia. Mas tendo aí podido vivê-la e usufruir de suas benesses: uma construção enriquecida da imagem de si; a vivência dos dilemas morais e afetivos impostos pelo sonho; a imaginação sensibilizada e, é claro, o prazer de passear no bosque de seus próprios devaneios. Tudo isso dá uma baita sensação de sentido na vida de cada um.

Lembro de quantas vezes acordei com a real sensação de ter acabado de disputar uma partida no Maracanã, pelo Flamengo - meu time de coração. Desde menino, até adulto, já professor. Já tem tempo que tal sonho não me habita mais. Foi vivido. De todo jeito, se não virei jogador, virei treinador.

Acho que ainda devaneio.

Aquele abraço, saudações esportivas