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terça-feira, 24 de maio de 2016

Posição de alma

Caros (as),

Vem da sensibilidade feminina a ideia para escrever esse texto. Conversando com as meninas da turma sobre o posicionamento em quadra, uma delas sugeriu: "Fulana não consegue jogar atrás porque a posição de alma dela é na frente". Virou um jargão na turma feminina. Convenhamos, o nome é muito bom!

[Brasil 2 x 0 Uruguai, 1993 - Romário marcou os dois]

Parece interessante escrever sobre o assunto. Como na maioria das coisas do futebol, à primeira vista pode ser encarado como algo menor, desimportante, um capricho retórico. Mas, convencido que estou da importância das coisas desimportantes, tomei como mais um destes pequenos grandes temas que o futebol nos instiga. Vejamos.

Existe uma técnica básica de jogo: como receber a bola, como dominá-la, como conduzir, passar e chutar (há ainda as técnicas específicas de goleiro). Na teoria, esta técnica (o jeito de fazer) se aplica a todos os jogadores e jogadoras. No jogo real, no entanto, cada um consegue uma maneira de se apropriar dela. Dito de outro modo, cada pessoa tem um jeito de jogar.

Uma discussão antiga na Educação Física é sobre técnica versus estilo. Me lembro que, quando criança e ainda na adolescência, o extraclasse Romário era demolidor de pranchetas e teorias. Com sua célebre frase, "Treinar pra quê?", o Baixinho fazia troça dos manuais: metia gol de bico, não recuava para marcar, não gostava de treinar e, no entanto, mais do que uma técnica refinada, exibia nos campos a magia que encantava multidões: Romário cultivava um estilo. Eu estava no Maracanã no célebre Brasil x Uruguai, em 1993, no jogo decisivo pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 94 - e mal acreditava no que meus olhos viam. 

Daí surgiam querelas que hoje, como entendo, importam pouco ou quase nada: Romário jogaria ainda melhor se treinasse? Romário seria Romário se treinasse? Romário tem técnica ou estilo? Engraçado é que, quando se é aluno de alguma faculdade, ainda verde, temos a pretensão de solucionar todos os desafios teóricos. Hoje, após duas décadas trabalhando com futebol, confesso que desdenho de muitas destas questões. Me importa mais usufruir do talento de um craque e sustentar o paradoxo. Os paradoxos estão aí para serem tolerados, não resolvidos. Romário mal treinava 'e' era um craque. Não 'mas'. Voltando à vaca fria: ele tinha uma posição de alma. E que alma! De artilheiro.

E com quem está aprendendo, acontece o mesmo? Creio que sim, mas com ressalvas. Vamos devagar, um Romário não surge assim toda hora (nossa Seleção que o diga). Um gênio desta grandeza se impõe naturalmente. Trazendo a questão para o universo pedagógico, cada um, como escrevi, vai se apropriando da técnica de jogo à sua maneira. Aos poucos vai expressando com mais vigor sua personalidade: aquele que tem gana de defender, o que é obcecado por fazer gols, o solidário, o que gosta de preencher todos os espaços do campo, o passador generoso, o fominha individualista e por aí vai...

Ao repararmos direitinho, a maneira de jogar, como "descobrimos" na turma feminina aonde esse tema surgiu, traz alguma coisa real da personalidade da pessoa como ela é - e não só no campo! Cabe perguntar: mas o treinador/professor não vai ficar então refém destas coisas? 

Creio que não é o caso. A partir do momento em que o(a) jogador(a) já encontrou espaço para expressar sua singularidade jogando bola e consegue usufruir de um ambiente no qual esteja à vontade, poderá aos poucos contribuir de maneiras distintas com os colegas e a equipe. Pode até mesmo mudar sua maneira de jogar quando, por exemplo, seu jeito de ser e/ou suas vontades não encontram eco numa técnica razoável para exercer uma determinada função. Aí o que cabe ao treinador é o diálogo, a possibilidade de experimentar, a disponibilidade do aluno em aprender, estas coisas que dizem da maturidade de um e de outro. Combinar sua personalidade com o meio social no qual você se encontra é uma habilidade e tanto! Mais ainda, sem perder sua singularidade, digo: identificar-se com um grupo sem abrir mão de sua própria identidade. No caso de crianças e adolescentes tudo isso depende de um entendimento por parte dos pais, também. Muitas vezes o pai cisma de ver o filho jogando de uma única maneira e até atrapalha a aprendizagem. Ou, ao contrário, quando não se conforma ao ver o filhote escolhendo por gosto uma posição. É preciso confiança no processo.

Mas uma coisa é certa: quando se consegue encontrar - e expressar - a posição de alma no campo de jogo, a sensação é de estar no lugar certo, fazendo a coisa certa. Tudo flui mais fácil, o vento sopra a favor e a batata fica menos quente. Além da alma e do estilo, talvez estejamos falando de um atributo puramente humano: o lugar aonde encontramos prazer.

*Obrigado, Patrícia, pela inspiração.

Aquele abraço, saudações esportivas

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Ruim de bola

Prezados (as),

A cena não é incomum: mamãe chega com o rebento pela mão, ele parece meio desengonçado. Se desgarra dela, dá um pique na direção dos outros jogadores, vai chutar a bola. A mãe chama o professor em tom de cochicho na beira da quadra - como só a elas é reservado o direito de fazer nestas horas. O professor não é bobo, então ele obedece, dá dois passos pra trás e escuta: "Preciso falar com você um minutinho, sabe o que é? Estou achando o Zezinho muito desajeitado. Ele é meio ruim de bola, o que eu faço?" Pausa.

Penso que, num país como o Brasil, acaba que o futebol é um meio bastante apropriado para facilitar a socialização da criança, com seus grupos e valores, amigos e uma ética comum aos boleiros. Ninguém - ainda bem - está obrigado a jogar futebol para encontrar um sentimento de pertença mas, se os amigos todos jogam, às vezes fica difícil não embarcar. E aí?


Aí que ninguém é bobo. Muito menos a criança. Depende um pouco da idade mas, na média, consigo afirmar que eles já têm, na maior parte dos casos, um termômetro pessoal que indica o nível que cada um joga. É claro que, como os adultos, há os extremos: aquele que acha que joga muito mas não joga nada (ou não tanto assim); e aquele que se subestima, diz ou acha que joga pouco mas, na verdade, faz um belo feijão com arroz (como dizem os boleiros). Costumo ficar especialmente atento à maneira como a criança ou o adolescente consegue se mostrar, se mais ou menos extrovertido, mais ou menos confiante. Se demonstra seu desajeito dando caneladas a torto e a direito ou, ao contrário, fica retraído e desconfiado. 

Mas o ponto é o seguinte: a criança, na maioria das vezes, sabe quando não joga bem. Ou não tão bem. Ou não tão bem quanto o craque da turma. Daí que não cabe ao adulto mascarar isso, ou apresentar o horripilante e politicamente correto "aqui todo mundo é igual". Não, não é e eles sabem disso. Da parte do professor, acredito que o fundamental é conseguir manejar um grupo. Apresentar questões que sejam percebidas como verdadeiras. Pois, não nos enganemos, meninos e meninas podem ser bem cruéis. Quando admito que as pessoas, os jogadores não são iguais, que uns jogam melhor que outros, isto não significa evidentemente atribuir, deliberadamente, etiquetas de 'bons' e 'ruins'. Não é disso que se trata, nem de simplesmente abandonar o grupo à própria sorte para que apontem uns para os outros com as tais etiquetas. O importante é ajudá-los a trabalhar com a ideia da diferença. Explico.

É preciso compreender o menino bom de bola. É chato quando você toca de primeira e recebe de volta sempre um passe ruim, um caroço, como dizemos. Legal é receber de volta a pelota amaciada, com açúcar e com afeto. No entanto, a pergunta-chave que precisa flutuar no grupo e pode ser trabalhada é: só os bons jogam? Só os craques podem jogar? Existe alguma regra que enuncia isso? Nos times profissionais pelos quais torcemos, todos os jogadores são craques? A grande maioria admite tais questões como verdadeiras. Um time é formado por jogadores diferentes. Como trabalhar isso para que não acabe apenas como uma monótona imposição pedagógica?

É aí que entra em cena o menino ruim de bola, aquele a quem antigamente chamavam 'pereba'. Gosto da ideia de ajudá-lo, em primeiro lugar, a encontrar uma maneira de contribuir com os colegas. Logo de cara é necessário admitir as dificuldades. Abrir o espaço para que a falha, os erros se mostrem e sejam encarados - e comentados - com desassombro e naturalidade. O jogador fica muitas vezes aliviado por poder se mostrar como é e o que (não) sabe. Não é necessário nem educado, muito menos pedagógico, chamar o sujeito de 'ruim', mas normalmente este conceito se refere à baixa habilidade do jogador. Ora, quantos jogadores profissionais, mesmo sem grande habilidade, não se fazem notar por outros atributos como a valentia, o bom posicionamento, a inteligência, a solidariedade dentro de quadra? Inúmeros. Isto também é reconhecido como legítimo pela molecada que joga futebol. 

Logo, aliado ao próprio ensino da técnica e da tática desportivas, é preciso ajudar o sujeito a se situar e a contribuir de alguma maneira - enquanto o ganho das habilidades ainda não amadureceu. O lugar de 'menos habilidoso' é diferente do lugar de 'ruim'. É preciso apostar no desejo de melhorar. É a partir daí que tal tarefa se torna um projeto do próprio sujeito e que ele poderá, com uma humildade que não é submissão, realizar um esforço genuíno para contribuir com a equipe. Enxergo nisso um valor moral.

Por outro lado, num efeito de círculo virtuoso, quando os colegas, que deram um crédito ao fulaninho com a ajuda do professor, veem seu esforço, normalmente começam a dar aquela força. Vai daí que o outrora ruim de bola aprende a jogar em alguma posição específica na quadra, ganha confiança. Começa a poder encarar suas dificuldades com mais humor, daqui a pouco está rindo, depois de uma partida, da própria furada. Muitas vezes abraçado ao craque da turma (que também pode furar, não nos esqueçamos). Aí os ganhos do treinamento vão começando a se estabilizar, aparece uma habilidade aqui, outra acolá, faz até um golzinho vez por outra. Quando se atinge este ponto, normalmente é que o trabalho está dando resultado. O bom humor é indicativo da saúde emocional do grupo. Este muitas vezes toma para si as dificuldades de um dos seus - e compra o barulho. É muito legal ver um grupo ajudando alguém com dificuldades. E, não raro, o antigo pereba se torna bom jogador, se a ele for dada essa chance. Conversando com a molecada sobre isso, recentemente, alguém tido hoje como bom lembrou: "Quando eu comecei a jogar, tinha medo da bola, é até engraçado..."

Abrir o jogo é condição essencial do processo. É reconhecer aquilo que as pessoas veem. Senão ficam os não-ditos, aquele ramerrame, um melindre. E aí ninguém mostra o seu melhor, pois há uma tendência a ficar defendido quando a verdade não é o que prevalece. Ao contrário, quando tudo fica às claras, dá gosto ver o craque do time dando força ao perna-de-pau, inclusive a contar com o suor dele para vencer uma partida. Advém daí a aprendizagem que, numa abordagem que camufle as diferenças ou as estigmatize, não seria possível: o que fazer, como me coloco diante do mais frágil

A ideia é reconhecer a diferença. Soa como um imperativo ético de nosso tempo.

Aquele abraço, saudações esportivas

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Competir, arriscar

Caríssimos (as),

As competições infanto-juvenis, nas diversas modalidades esportivas, fazem parte da vida de muitas crianças e adolescentes. Muito exaltadas por seu potencial educacional na cultura ocidental, elas, no entanto, vieram sofrendo críticas aqui e acolá de muitos profissionais do esporte (e aí me incluo) nas últimas décadas - pela percepção de que passou a existir um excesso no estímulo competitivo. Ao invés de fazer bem, muitas vezes fazia mal aos desportistas mirins. Muita gente viveu (e vive) esta experiência ruim. Isto é um ponto.

Pois bem, a partir daí puderam surgir concepções alternativas, projetos não necessariamente competitivos, novos discursos pedagógicos e familiares sobre vitória e derrota, etc. Enfim, ao menos nos espaços sociais aonde esta reflexão foi possível, as atividades físicas e/ou desportivas puderam ser discutidas em seu sentido e finalidade. O Chutebol, por exemplo, surge daí. Isto é outro ponto.

Pretendo, no entanto, fazer um terceiro ponto. 


Me parece importante poder falar sobre isso pois, muitas vezes, os pais ficam carentes de orientação, já que este é um assunto que, na maior parte dos casos, passa batido, ou é abordado pela via dos estereótipos de sucesso e fracasso; ou do velho e cansado 'o importante é competir' - o que pode ter algumas consequências para crianças e adolescentes. Creio que exista uma pequena confusão, atualmente, no cenário acima exposto. 

Em minha hipótese, no afã de combater os excessos que citei, muitos lugares aonde se praticam esportes e atividades físicas em geral (escolas, clubes e academias), passaram a simplesmente evitar, em suas práticas, o momento da competição. Ou desvalorizá-lo. Foram criadas alternativas, atividades, discursos: todo mundo é vencedor, todos são iguais, esse jogo não vale troféu, não vale ponto, é só pra se divertir, ninguém é melhor que ninguém, etc. Me peguei pensando. 

A agressividade inata, esta espécie de quantum afetivo que todos carregamos, pede passagem desde que nascemos. Vai sai se mostrar de alguma maneira. Avançar sobre o mundo é, em certa medida, conquistá-lo. Ao longo dos milênios, e longe de esquecer que a jornada humana também é feita de guerras e destruição, foi possível um refinamento: físico, psíquico, intelectual, social. Os jogos, e por consequência os esportes, são uma sofisticada construção simbólica de nossa necessidade em afirmar uma certa potência de vida. A possibilidade de derrotar o oponente sem destruí-lo é uma notável realização cultural da humanidade. 

Ocorre que agressividade é uma coisa; violência, outra. Esta é, a meu ver, a confusão que se estabeleceu. Na legítima tentativa de proteger crianças e adolescentes dos malefícios de um estresse competitivo mal orientado, corre-se o risco de - perdoem o clichê - jogar o bebê fora junto com a água do banho. Ser capaz de fazer uso da própria agressividade é uma tremenda conquista infantil que vai dar ao sujeito, como retorno, a noção de sua capacidade de agir sobre o mundo. Ora, dentre as infindáveis formas humanas para que isto aconteça, não seria o jogo/esporte, em seu momento competitivo, um lugar mais que apropriado para despejar e elaborar o sentido desta força? Sim, é claro. Para que isto aconteça, é preciso que esta mesma agressividade se transforme em violência? Evidente que não.

Furtar ao sujeito a possibilidade em se deparar com limites expandidos da própria potência, da própria agressividade, é indutor de um bom amadurecimento psicomotor? Não creio. Fazê-lo renunciar à vontade de vencer e se superar (a si e ao adversário) é o que fará dele um cara educado? Também não creio. Impedi-lo de se defrontar com a angústia - e a dor - da derrota o protegerá ou, ao contrário, inibirá a necessária e estruturadora vivência das frustrações? Tais são questões que se colocam. Mas então, diante da estupidez com que muitas competições e grupos desportivos se apresentaram e se apresentam, que fazer?

Entendo que não é preciso renunciar à competição, mesmo nos momentos mais duros, para conseguir balizá-la, dar a ela uma borda decente, pedagógica. Digo, entre a brutalidade e a ingenuidade diante daquilo que é humano, é possível trabalhar. Não se trata de negar, mas sim de como e quando competir. Quais são nossos parâmetros

Acredito que as brincadeiras e as disputas possam (devam) coexistir. Do universo lúdico ao esporte de rendimento, passando pelo jogo simples, a pessoa pode, se for a ela oferecida a chance, ir se equipando para competir dentro de certas premissas, como por exemplo a adaptação à idade, à intensidade e mesmo ao uso das regras. Gosto da ideia de uma progressão estruturante, partindo do universo lúdico e avançando, com o objetivo de permitir ao sujeito, na hora H, do frio na barriga, estar razoavelmente confiante. Com uma estrutura corporal, mental e emocional de onde possa extrair recursos para atravessar os momentos de dor e revés; e de - ufa! - poder, merecidamente, afirmar-se e gozar da vitória. Da Educação Física escolar, passando pelas escolinhas desportivas, até às federações.

Além disso, e não menos importante, está o cultivo de uma ética e de uma estética. Aí, mais que nunca, é fundamental a atitude de pais e professores. É com quem os meninos e meninas poderão se identificar. Como reagir quando perde, quando se sente injustiçado, quando a vitória escapa no final; como comemorar sem debochar, como extravasar sem perder a elegância e o fairplay? Como ser solidário sem abrir mão da legítima vontade de vencer? Nós, adultos, estamos lidando bem com tudo isso, conseguimos sustentar tais angústias sem sucumbir a elas? São muitas e belas as questões e os fundamentos de uma boa refrega.

Muitos de nós ficamos resmungado, aí pelos cantos, que a molecada de hoje é super protegida, que sabem muito de games mas não têm a sagacidade de outros tempos. Pois a competição bem orientada é prato cheio para a fome de viver que, por certo, todos eles sentem. Competir é arriscar-se.

Aquele abraço, saudações esportivas

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Amadurecer

Caros (as),

Estava o fulaninho, ali pelos sete anos de vida, a jogar futebol com o cadarço desamarrado. Como é por esta idade (um pouco antes, um pouco depois) que a maioria das crianças alcança com alguma segurança a fina coordenação para amarrar o próprio tênis, parei a partida para que ele pudesse dar um jeito na situação - e falei, em tom de troça: "E agora, como fica?"

Fulano se agacha, fico à espreita. Pega daqui, pega de lá, consegue mas não consegue, o laço desmonta. Pergunto: "Cara, você sabe amarrar o cadarço?" Ele se vira pra mim e diz, um pouco injuriado: "Eu sei, mas não consigo!" Bem, não sou assim tão cruel e ajudei meu pequeno amigo naquela situação. Mas fiquei pensando em sua justificativa: o que significa 'saber' alguma coisa - mas não 'conseguir'?


Da maneira como entendi, o paradoxo exposto pelo pequeno jogador obriga a pensar nos termos do desenvolvimento infantil. As características da infância contemporânea talvez nos estejam impondo uma pequena confusão: a quantidade de informações a que as crianças de hoje têm acesso não é indicativo seguro de seu amadurecimento como pessoa. Explico.

A solução encontrada pelo menino para explicar o que estava acontecendo foi engenhosa: atende a uma demanda que, ele sabe, é esperada pelo professor (saber amarrar o cadarço); mas, ao mesmo tempo (e aí está o paradoxo) afirma com veemência aquilo que falha, que vacila. Mostra-se em sua realidade humana, imperfeita. Pode parecer uma viagem danada mas, para quem tem olhos de ver, as crianças oferecem de bandeja suas angústias. Ele tentou me dizer que, mesmo sabendo intelectualmente alguma coisa, tendo a informação correta e sabendo o que é esperado, ainda não tinha a maturidade psicomotora para concluir aquela tarefa. Podia, simplesmente, ter dito: "Não, não sei amarrar o cadarço". Mas fez questão de enfatizar que sabia, donde surge a contradição: "Sei, mas não consigo". Tomo a liberdade de, por experiência profissional, tratar deste caso como ilustrativo de uma certa condição atual.

Ora, o que será que está sendo exigido às crianças desta época que, desde muito pequenas, são obrigadas a 'saberem'?

Suponho um ideal de eficiência. O fato de nos surpreendermos e acharmos graça em suas - por vezes fabulosas - construções intelectuais e cibernéticas, sua facilidade em assimilar informações e em transitar pelo mundo da tecnologia não pode fazer com que o adulto perca de vista outras coisas tão (ou mais) importantes quanto o desenvolvimento de tais habilidades.

Responder às mais diversas demandas formuladas pela escola e pelos adultos, a partir de um 'saber' que tem origem, no mais das vezes, na torrente incessante das informações às quais vive exposta diariamente não configura, a meu ver, sinal de inteligência. Muito menos do amadurecimento geral de suas condições que é, grosso modo falando, o que entendo que uma criança precisa atingir para ir atravessando as diversas fases da vida. E isto vale para os adultos, também.

Se já é sabido que, em que pese o valor e a beleza do bom desenvolvimento intelectual, ele por si só não basta ao sujeito para encarar os dilemas da vida, que dirá um punhado de informações aceleradas, sem a articulação necessária para que se transforme em conhecimento. E atravessar estas duas etapas exige uma coisa: tempo. Que fazer? Com relação à nossa vida cotidiana, corrida dos adultos, vou poupá-los de minha ignorância. No campo da educação, entretanto, posso arriscar algum palpite.

Salvo engano, já existem movimentos na Terra, nos mais diferentes níveis educacionais (das creches às universidades), em especial nos países avançados, que procuram dialogar com o conhecimento de outra maneira. A corrida enlouquecida pelo acúmulo de informações não é o que contará no futuro. As informações, as que merecem atenção ou a lata de lixo, estão aí, à mostra. O que conta cada vez mais é a capacidade de selecioná-las, articulá-las, construir conhecimento, ser capaz de concatenar pensamentos e, sofisticando, emprestar alguma qualidade moral e afetiva a tudo isto. Não estou falando de uma educação de estereótipo bicho-grilo, ou de que conteúdo não importa. Estou lembrando (e sou só mais um) das outras coisas que importam.

Proteger o sentimento de infância é preservar o espaço e o tempo de seu amadurecimento. Neste percurso há espaço para a falha, o erro, o não-saber, as reentrâncias de uma construção mais legítima de conhecimento. De quebra, falhas e erros provocam discussões, sensações diversas, equipam o sujeito para uma vida mais profunda. Uma criança madura para sua idade é diferente de um adolescente precoce. Um adolescente maduro para sua idade é diferente de um adulto precoce. As crianças não precisam saber de tudo. Podem fantasiar que sabem, mas a fantasia é livre. Quem não pode cair neste conto, somos nós, adultos.

Noutro dia, mais recente, meu amigo da história se agachou para amarrar o cadarço novamente. Percebi que ele vinha treinando há algum tempo, e eu sempre esperava o suficiente para que pudesse acertar ou fracassar, que pedisse minha ajuda ou que me dispensasse com desdém. Numa das vezes em que conseguiu, perguntei: "Ah, você já sabe amarrar o cadarço?" "É. Eu não sabia, mas agora eu sei". E saiu correndo atrás da bola.

Quando pôde admitir o que não sabia, encontrou-se com o desconhecido; sobrou espaço para que pudesse aprender. Amadureceu o suficiente - conseguiu.

Aquele abraço, saudações esportivas