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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Retorno

Caríssimos (as),

É com alegria que o Chutebol retorna às aulas regulares nesta 3a feira, 23/08!

Depois destas olimpíadas sensacionais: vem jogar com a gente!




sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Rio 2016

O Chutebol saúda as Olimpíadas do Rio 2016!

Entramos em recesso a partir de 13/8; voltamos às atividades regulares em 23/8 (3af). Bons jogos!!


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Congraçamento

Prezados (as),

É forçoso reconhecer: nestas Olimpíadas que se aproximam, o congraçamento dos povos se apresenta como um congraçamento armado. Longe de dar palpite em seara que não é a nossa (o grande xadrez político internacional), ao receber esta linda animação de John, Paul, George & Ringo - falando sobre o amor - apenas lembrei de como tudo isso pode impactar o mundo infanto-juvenil.


No universo fantástico dos Beatles, ao final, há uma espécie de redenção: The End. Como que pelo triunfo da paz e do amor universais. Ora, bem sabemos que jamais houve um mundo assim, e nem o mais romântico dos idealistas ou dos nostálgicos conseguiria sustentar alguma tese sobre o paraíso perdido de maneira consistente. The End é um sonho, uma aspiração humana; como tal, legítima.

No entanto, a brutalidade (e a velocidade) dos acontecimentos nos últimos tempos, embalados pelo tema do terrorismo, acabam por intimidar tais aspirações e culminar aqui, materializados em forma de paranoia nessa terra que - ave, Maria - já tem seus próprio males. Conhecemos nossa miséria e não me cabe espezinhá-la. 

O que é dolorido é apresentar o mundo assim às novíssimas gerações. Porque o momento olímpico supõe um descanso, uma pausa no mundo real para que possamos desfrutar do devaneio desportivo. Sim, claro, sempre foram necessárias medidas de segurança. Mas o que marca o momento atual é a imposição destas questões sobre o mundo do esporte. Causa mal-estar.

Daí que, diante deste mal-estar, pode-se facilmente cair numa postura niilista, amarga, fatalista. O momento é ruim, mesmo. Municipal, estadual, nacional e globalmente falando. Parece um somatório de sintomas. No entanto, ao assistir repetidamente a este singelo vídeo (sou fã), me peguei emocionado. Veja só. Que bobagem.

Mas o fato é que lembrei que o universo infantil precisa da qualidade afetiva da esperança. Esta não é luxo, não é supérflua, não é banalidade. É uma das coisas que faz com que a vida valha a pena ser vivida. E disso mal nos damos conta, mas ela está no trabalho, nos romances, nas relações familiares. No esporte, no futebol então...

Se o mundo de hoje parece meio desencantado, além de reconhecermos nossas dificuldades e encararmos uma realidade que se apresenta dura, acredito que também seja importante outro tipo de reação para além da óbvia desesperança. Algo mais criativo, que parta de dentro de nós. Estou falando de uma certa postura diante das bizarrices do mundo atual. No possível. E o possível é uma espécie de filtro para atravessar jornadas mais duras. Não precisa apresentar o mundo olímpico-armado como cor-de-rosa pra meninada. Eles veem, perguntam, percebem, sentem como nós. Este mundo está aí e eles querem viver. O que é o possível para cada um de nós? Pelo Chutebol, posso afirmar: vamos continuar brincando e jogando futebol com muita alegria. Com toda a nossa vontade!

Antes de encerrar, preciso dizer que gosto do ceticismo. Cultivo a crença na imperfeição humana, na medida em que ela é antídoto para ilusões descabidas, pessoais e sociais. Mas o ceticismo esclarecido, assim como entendo, não exclui a esperança. Aliás, se serve dela. Se não aspiramos à perfeição, aspiramos melhorar: como sujeitos, como sociedade. 

As crianças precisam que os adultos acreditem em alguma coisa. Nem que seja nelas. 

Gostaria de agradecer (ainda e sempre) aos quatro fabulosos de Liverpool. Por aqueles que vêm por aí:

And in the end
The love you take
Is equal to
The love you make

Aquele abraço, saudações esportivas

quarta-feira, 13 de julho de 2016

In natura

Caríssimos (as),

O treinador Rogério Micale, comandante da seleção brasileira de futebol nas Olimpíadas de 2016, deu recente entrevista na qual comentava a formação dos jogadores brasileiros: "Mudou o processo de produção. Era in natura, pelada de dois contra dois na rua, golzinho de chinelo. Isto dava desenvolvimento motor... Agora é in vitro, de proveta. A criança vai buscar a escolinha, que não reproduz a rua, mas o ambiente profissional. Perdeu-se o lastro de desenvolvimento lúdico" (O Globo, 09/07/16).

O treinador está certo. Mas me permito um comentário.

[Rogério Micale: lucidez]

Certa vez recebi os cumprimentos do pai de um aluno. Dizia que gostava muito do trabalho aqui, que seu filho havia podido se beneficiar intensamente. Perguntei se não queria jogar a pelada de pais no clube, ele falou: "Pra mim não dá. Nunca joguei bola, eu era muito ruim quando criança, ficava de fora. Na minha época, não existia o Chutebol". 

Tenho, no entanto, outra passagem e, a partir dela, vou tentar aprofundar a discussão. Estava eu dando uma aula, quando chega um grande amigo que estava pelo bairro. Resolveu entrar no clube para dar um alô. Se aproximou, ficou observando as atividades. Ele também é professor de Educação Física. Encostou ao meu lado e, ao ver o jogo de dois contra dois, com golzinho de cones que estávamos fazendo, comentou: "Tu tá ensinando esses moleques a jogar pelada, né?" - e gargalhamos. Era a mais pura verdade.

Enxergo nestas duas passagens as contradições que permitem uma elaboração mais rica. As escolinhas de futebol no Brasil, ao mesmo tempo em que são a meu ver sintoma de uma ideia duvidosa de progresso (agenda infantil lotada, futebol só com hora marcada, ruas entupidas de carros, desaparecimento dos campos de várzea) são, também, potenciais agentes de democratização do esporte. O menino ruim de bola, o anedótico criado em apartamento, pode agora usufruir de uma didática esportiva. 

Mas é certeira a análise de Micale: ao procurar reproduzir o ambiente profissional nas escolinhas, o futebol brasileiro incorreu em erro grave. Os melhores jogadores profissionais são, visivelmente, aqueles que conseguem incorporar as aprendizagens mais formais do esporte (estratégias, disciplina tática, etc) ao próprio jogo individual. Jogo este que depende da capacidade criativa e da espontaneidade do jogador. Estas últimas características dependem de um ambiente no qual seja possível se expressarem. Este ambiente é o da brincadeira. O psicanalista inglês D. Winnicott dizia que, para a criança, "o natural é o brincar". Por isso, o treinador da seleção está certo. Antigamente era in natura. Mas o que aconteceu para que não seja mais? Tenho uma hipótese.

A figura do professor de Educação Física tem uma imagem muito fragilizada no Brasil. Como as demais disciplinas não formais - artes, música, filosofia - ela carece o tempo todo de justificativas para ganhar relevância no currículo escolar. Assim, para adotar uma postura, digamos, séria perante o distinto público, formou-se ao longo de décadas a ideia de que uma atividade física deveria ser algo muitíssimo sério, caso contrário ficaria em risco a própria pertinência da necessidade deste campo de conhecimento para fins educacionais. Bastariam os treinadores de alto rendimento, estes sim, plenamente justificáveis, possuidores de um saber claro, visível na preparação dos atletas de ponta.

Por analogia, a partir da proliferação das escolinhas de futebol, qual o sentido de existir um professor - digno deste nome - para comandar uma atividade que, na verdade, bastaria deixar ao encargo da meninada, eles que sempre souberam jogar uma peladinha? Temeroso de cair no papel de preguiçoso, daquele que não faz nada além de apitar, ou do recreador (um papel menor), só restou como justificativa palpável a seriedade esportiva; em outras palavras, o processo in vitro que Micale aponta. Reproduzir o ambiente profissional de treinamento nos clubes, para justificar que algum trabalho seja feito efetivamente (honestamente, mesmo que no discurso se fale na importância do lúdico, são poucos os que o sustentam com consistência teórica e prática).

Mas este não é o melhor trabalho a ser feito, sob nenhum ponto de vista. Pedagogicamente, a brincadeira é a base do desenvolvimento psicomotor e social; do ponto de vista desportivo - sabemos agora - é também o aspecto lúdico do jogo aquilo que vai diferenciar os jogadores, apresentá-los em sua singularidade. Creio que os professores tenham receio, muitas vezes, de se verem desvalorizados por abraçar a brincadeira, como que desqualificados por fazer algo de menor importância - até pelos próprios pais dos alunos. Ledo engano. Isto remete, ainda, à formação destes profissionais, que fracassa muitas vezes em apresentar material realmente consistente para justificar seu trabalho perante a sociedade.

A organização das cidades, as questões pedagógico-sócio-econômicas que impedem a pelada de rua e dos campos de várzea são assunto mais amplo, que não está ao alcance imediato (é bom pensar nisso). No entanto, faria bem aos professores e treinadores assumirem com seriedade não somente o esporte, mas a brincadeira. Assumir compromisso com ela, se apropriar de suas teorias e maneiras de implementar é privilegiar o desenvolvimento infantil em sua plenitude. Até para formar atletas melhores - e não só no sentido da técnica de jogo, mas da leveza do espírito.

Seja na rua, no campinho ou na quadra do clube. In natura.

Aquele abraço, saudações esportivas