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quinta-feira, 23 de março de 2017

Repetições

Trabalhando com crianças, muitas vezes somos surpreendidos com os pedidos delas por esta ou aquela atividade, esta ou aquela brincadeira que, mesmo já tendo sido feita repetidas vezes, é demandada (até exigida) novamente.

Isto pode colocar o professor em dúvida, na medida em que - nos melhores casos - existe um planejamento e uma sequência pedagógica a seguir. E, talvez até mais importante, o professor pode se pegar na angústia em ver-se repetindo uma atividade, com receio de que isto impeça o avanço da turma nas aprendizagens. Trago este ponto por ter vivido tal dilema um sem-número de vezes.


Repetir ou não determinada atividade, acolher ou não a demanda dos alunos vai dizer, evidentemente, da sensibilidade e do planejamento. O que desejo ressaltar é a legitimidade do pedido infantil. A angústia do adulto, normalmente, está ligada à imagem que ele pode começar a fazer de si mesmo e de suas aulas: não apresentar novidades, ficar estagnado, preguiçoso, como será visto pelos pais e/ou responsáveis; sentir-se, digamos, refém da meninada. Mas, no sentido que estou tentando apresentar, isto é coisa da nossa cabeça. A realidade pode ser bem outra.

É preciso buscar o sentido das coisas. Repetir uma brincadeira aponta para o desejo de viver novamente algo que soa importante para a criança - além de prazeroso, claro. No caso das atividades físicas, na quadra por exemplo, remete à necessidade/vontade do próprio prazer dos movimentos: correr, saltar, rolar, desviar. Mas não só. 

Dependendo de qual seja o pano de fundo - o imaginário - da atividade (pique-cola, pique-pega, polícia e ladrão, etc), comparece e se atualiza todo um fundo psíquico, vindo dos recônditos do inconsciente, que empurra o sujeito para as vivências de: pegar, fugir, escapar, lutar, pedir ajuda, ajudar, etc. Todo este mundo que pede passagem para ser vivenciado (não só imaginado) permite à criança encontrar novas soluções para seus pequenos grandes dilemas; dramas que todos passamos, mas que pelo viés da brincadeira pode ajudar alguém (alguns muitos) a elaborar uma questão. O medo de ser pego, a vontade em ajudar, a coragem e tantos outros sentimentos. A repetição se presta a isso. As crianças têm curiosidades e dilemas em relação às suas próprias vidas tanto como nós, adultos, e isto não deve ser perdido de vista. Elas só os vivem de maneira diferente da nossa, por conta das características próprias da infância - que ainda está no início da descoberta do mundo.

Daí que estas repetições, mais do que caprichos ou manhas infantis, muitas vezes são demandas que precisam ser, ao menos, acolhidas pelo adulto. Escutadas, percebidas, admitidas. Se vai ser possível atendê-los naquele momento, naquela aula, naquela fase do ano, ou não, entra na negociação com a realidade mais ampla das coisas, do clube, da escola, dos prazos e datas, por exemplo. É evidente, também, que a repetição deve ter seus limites, no sentido de não empacar a turma e cair deliberadamente numa atitude preguiçosa. Não é disso que estou falando.

Mas o professor não precisa ficar em apuros. Nem criar uma rixa com a turma por conta destas questões. O fator fundamental é ter consciência para onde se está caminhando. Num mundo aonde o frenesi e a excitação parecem comandar a infinidade de atividades que as crianças, supostamente, precisam fazer para estarem aptas socialmente, a demanda por repetição pode, inclusive, significar um pedido de... tempo. Para viver o que querem viver. O professor pode ser um mediador privilegiado neste sentido. 

Fico pensando em nós, adultos, que somos identificados justamente pelos nossos hábitos e pelas coisas que, repetidamente fazemos: aonde comemos, com quem saímos, qual esporte gostamos, como trabalhamos...

Aquele abraço, saudações esportivas

segunda-feira, 6 de março de 2017

Fla-Flu

O pequeno rubro-negro saía do estádio com uma derrota na cabeça. O pai a seu lado, ambos caminhando lentamente - o corpo fica pesado nestas horas. Eu acompanhava de perto, simpatizei com a expressão do menino: não parecia desolado, nem esbravejava. Havia uma certa serenidade em sua tristeza. Ele então abriu o coração: "Mas o jogo foi bom, né, pai?". O pai confirma, explica algumas coisas sobre o comportamento dos times e, ao final, reconhece: "Mas o Fluminense mereceu".



Pai e filho continuaram em sua caminhada arrastada. Minha digestão da derrota não estava assim tão lenta (os anos ensinam alguma coisa). Pude caminhar um pouco mais rápido, junto aos amigos, para deixar o Engenhão. Mas aquele simples diálogo fez eco em mim por um motivo: o potencial educativo do esporte. Do futebol, particularmente, como esporte das massas.

Ao se apresentarem de maneira decente, jogando na bola, buscando o gol e sem usar do mimimi e da violência, Flamengo e Fluminense transmitiram a sensação que o menino buscou confirmar junto ao pai: o jogo foi bom. É como se ele se sentisse, logo de cara, respeitado como público. É um sentimento que precede até mesmo a legítima e ardente vontade de vencer. Tendo esta percepção por base, a maneira de encarar a derrota tende a não ser aquela do desespero, da acusação e do ressentimento (contra o árbitro, o destino, o adversário tomado como inimigo). Acredito em algo que sacie a paixão pelo futebol, o simples conforto em ter presenciado um bom jogo. E pensar (oh, heresia!) que corremos o risco de jogar um Fla-Flu com torcida única. Não poderia ter havido melhor resposta do que o espetáculo deste domingo.

Os clubes, em especial os grandes, deveriam tomar isso como uma responsabilidade, quase um mandamento. Não importa qual estratégia (se mais ou menos defensiva ou ofensiva), é preciso sustentar um compromisso com o futebol bem jogado, que faz com que o torcedor se sinta respeitado de antemão. Isto configura um exemplo e um modelo de identificação a ser seguido pelo público infanto-juvenil.

Além disso, nessa pequena história, é forçoso exaltar a resposta do pai: o reconhecimento ao adversário. O adulto é quem apresenta o mundo à criança. Isto é de extrema responsabilidade. O pai rubro-negro do diálogo poderia muito bem ter esbravejado qualquer coisa como resposta, culpado o juiz ou desmerecido a vitória tricolor. A maneira de o filho encarar o esporte, fatalmente, seria outra. No entanto, ao acolher a tristeza do rapazinho, ponderar aqui e ali sobre o jogo e afinal reconhecer os méritos do adversário, o pai aponta um norte ético a partir do esporte. 

A derrota educa. Não há muito o que fazer. Perdeu, perdeu. Mas - e aí está o ganho moral da postura acima - nem por isso o mundo acaba. Mais do que repetido monotonamente por um professor, como um manual descolado da realidade, a vivência real destas emoções educa profundamente, pois cala fundo em quem as viveu. Depois de perder, só resta se refazer e tentar a sorte outra vez.

É como diz aquele narrador: "O Fla-Flu é demaaais pro meu visual, galera!!"

Aquele abraço, saudações esportivas

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

É Carnaval!

Prezados Torcedores Responsáveis,

Segue abaixo o funcionamento do Chutebol nos próximos dias, levando-se em conta a folia carioca!



FUNCIONAMENTO NORMAL
3af (21fev) até 6af (24 fev), inclusive.

> DIAS SEM AULA
3af (28fev) até 6af (03 março), inclusive.

RETORNO
3af (07 março)


*BOM CARNAVAL!!

Aquele abraço, saudações esportivo-carnavalescas

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Bolhas

Caros (as),

É muito importante, para crianças e adolescentes, que possam usufruir dos espaços públicos da cidade, pois isto afeta, de maneira positiva, o processo de  socialização. Esta não é algo, digamos, natural. Muito embora escutemos aqui e ali que o humano é bicho sociável, isso só se dá a contento a partir de determinadas condições. Muitos utilizam, mesmo, o termo 'humanização', para se referir à soma da formação da subjetividade com uma inserção social satisfatória. Um gato, já nasce gato. As pessoas se humanizam aos poucos.



A socialização é uma conquista gradativa da criança, na medida em que ela consegue confiar cada vez mais em si própria e no ambiente em que vive. As posturas de defesa podem ceder e, aos poucos, dar lugar à curiosidade, às descobertas, enfim aos engajamentos nas relações com as outras pessoas; com o 'não-eu'.

A busca pela semelhança é natural e faz parte do próprio narcisismo, estruturação fundamental sem a qual não nos mostramos em nossa singularidade. Pode parecer piegas, mas cada um de nós é realmente único. No entanto, quando se torna desmedido, este mesmo narcisismo acaba por configurar uma prisão para o sujeito (embora ele mesmo possa não enxergar). É quando a bolha narcísica não cede e o reconhecimento das diferenças fica dificultado, muitas vezes num nível assustador.

Neste contexto, surgem os comportamentos estereotipados em relação às pessoas percebidas como diferentes: os ressentimentos, os ataques, o não-reconhecimento, a ridicularização e o medo. O 'não-eu' passa a ser visto como uma ameaça que, na cabeça do sujeito nestas condições, legitima seu comportamento infantilizado.

Voltando ao primeiro parágrafo, percebo, atualmente, um predomínio excessivo do convívio social infanto-juvenil nos espaços privados. Refiro-me às classes média e alta. Evidente que não há mal algum nestes lugares (escolas, shoppings, cursinhos, casas de festas, etc), os quais as pessoas também podem aproveitar. Mas as ruas, parques e praças são, por excelência, locais que propiciam o convívio com uma diferença mais profunda - de classes sociais, maneiras de se colocar, jeitos de ser, sutilezas outras que vão enriquecendo a personalidade do sujeito. (Nos estratos mais pobres da população, a percepção comum é justamente a oposta: é preciso tirar as crianças das ruas, para distanciá-las do mundo do crime).

Existem algumas razões para este predomínio dos espaços privados. A primeira e mais evidente é o medo da violência, absolutamente justificado. Se brincar na rua não é seguro, então não se brinca na rua. Outro motivo, não tão incisivo como a violência mas que também influi, é simplesmente a enorme quantidade de carros em trânsito, que tomam atualmente até as ruas menores, mais próprias para o convívio infanto-juvenil (muitos estudiosos têm apontado este fator como relevante). Um trânsito muito intenso, além dos problemas de mobilidade que conhecemos, é ainda por cima danoso à apropriação da cidade pelas crianças. Dá medo.

Um último fator, e talvez o mais importante, seja o próprio imaginário social. A ideia de que pagar para usufruir por todos estes serviços privados resolve o problema da educação, é falsa. Pois se admitirmos, grosso modo, que a educação é a soma das habilidades individuais (cognitivas, motoras, afetivas) com a socialização, se esta última fica reduzida em suas possibilidades, uma parte do processo fica capenga. Por mais que se preencha o tempo infanto-juvenil com cursinhos, deveres e afazeres, isso não é garantia de boa educação, e os países avançados nesta área já descobriram isso. Evidente que as condições de vida, nestes países, são outras.

Enfim, as pessoas vão continuar se socializando. É um ativo da espécie, seja em espaço público ou privado. O que desejei chamar a atenção foi para a qualidade deste processo. Abrir mão, ou menosprezar os espaços públicos neste caminho, significa fazer pouco de valores como a solidariedade, o reconhecimento das diferenças, a sagacidade e outros refinamentos das habilidades sociais humanas.

Que o mundo atual, com suas demonstrações inequívocas de narcisismo desmedido e intolerância - convenhamos - não deveria menosprezar.

Aquele abraço, saudações esportivas