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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Registro: Torneio Interno Junho/2015

Caríssimos (as),

O Torneio Interno de Junho/2015 foi simplesmente sen-sa-cio-nal! Ginásio lotado, frio na barriga, bola rolando e... muitos gols! As fotos enviadas pelos pais estão em nosso álbum - no canto inferior direito do blog, ou pelo link: http://www.picasaweb.google.com/rodrigotupicarvao

[Nova Iguaçu: Campeão!]

Em primeiríssimo lugar gostaríamos de agradecer aos familiares que compareceram, com muita empolgação e carinho, para incentivar os jogadores. Insistimos que as atitudes infantis são tremendamente influenciadas pelos adultos à sua volta, então é muito importante sustentarmos um ambiente acolhedor. Aliás, inclusive quando alguma criança estiver sendo agressiva dentro de quadra, precisamos supor que ela está em dificuldades ao reagir de maneira desproporcional, e é nosso dever ajudá-la - e não crucificá-la, não é mesmo? Para que esta mesma criança, conforme vá crescendo, possa perceber como é bom ser acolhido em seus momentos mais difíceis; e isso não significa, de maneira alguma, deixar de impor a ela as regras comuns a todos. Não é 'um-ou-outro'. Me parece importante poder refletir sobre isso.

Com relação aos jogos em si, acredito que tenhamos visto boas apresentações, em que pese um torneio infantil ter suas particularidades. As saídas de bola, por exemplo, ainda são nestas faixas etárias muito inseguras (o medo de perder a bola na frente do próprio gol), daí a opção de muitos goleiros em tentar a famosa ligação direta com o ataque; e provavelmente porque, por experiência ao longo dos anos, temos feito a opção de trabalhar o posicionamento defensivo no primeiro semestre - pois sem saber se posicionar em quadra, ninguém consegue sequer competir. No segundo semestre é que intensificamos os treinamentos na parte ofensiva. E os alunos expressaram isso em seus jogos. É natural.

No mais, entre (quase) mortos e feridos, saíram todos vivos: uns meio chateados porque perderam, outros muito felizes porque ganharam; muitos vencedores e vencidos se abraçando, alguns pais achando que o treinador errou numa mexida, numa escalação aqui e acolá. De antemão, assumo: erramos, mesmo! Mas também devemos ter acertado... O importante é não perder de vista que, para além do esporte, estamos falando mesmo é de educação como um valor, em seu sentido mais profundo. E assim segue o futebol, com sua magia que teima em nos tirar do eixo mas, igualmente, nos faz explodir de alegria! Obrigado a todos mais uma vez e seguem abaixo os resultados:


Categoria 09 a 12 anos (Capitães com*):

CampeãoNova Iguaçu [Thomaz Miranda*, Antonio Lacombe, J. Victor Terra, Bento].

Vice-CampeãoReal Madri [Luis Fernando*, Rafinha, Igor Dana, Yan, Arthur Castro]

3o LugarBatatinha [Lucas Moreira*, J. Pedro Drummond, Felipe Miranda, Juca, Rafael Toledano, Caio Laury].

4o LugarDig Din Poderoso [Pedro Igreja*, Josué, Marquinhos, Humberto, Vicente Lisboa].

5o LugarFifa 18 [Pedro Saulles*, Diogo Mattos, Leo Zagury, Daniel Antabi, Paulo Sergio].

6o LugarBarney de Munique [Mathias Sussekind*, João Naliato, Thiago Bacellar, Rafael Martins, Gustavo Dulens].

7o Lugar: Maracanã [Guilherme Burity*, Rodrigo Girardi, Tomás Girardi, Artur Sérigo, Hugo Ferreira, Bernardo Pimentel]

8o Lugar: Peppa Pig: [Pedro Levinson*, J.Pedro Aquino, Miguel Balbuena, Gabriel Arcalji, P. Henrique Bermudes, Bernardo Mascarenhas]


*Premiação Especial (a cor corresponde à equipe):

Craque: Bento Lima
Artilheiro: Bento Lima
Melhor GoleiroThiago Bacellar
Medalha Raça: Rafael Martins


[Leões: Campeão!]

Categoria 06 a 09 anos (Capitães com*):

CampeãoLeões [Antonio Salomone*, Bruno Favilla, Miguel Mello, Gabriel Junqueira, Thiago Palacios].

Vice-CampeãoOs Ferozes [João Victor*, Davi, André Massa, Diogo Gavinho, Danilo].

3o Lugar: Vulcão [Felipe Souza*, Antônio Ketter, Arthur Souza, Rafael Garcia, Rafael Austin].

4o LugarBatatas Militares [Pedro Futura*, Felipe Jourdan, Bem Moura, Fred Martins, Danilo].

5o LugarGoleadores [Caetano*, Arthur Storino, Pedro Barreto, Gabriel Brakarz, Pedro Porto].

6o LugarFutebol Clube [Pedro Burlamaqui*, Pedro Abba, Henrique Miranda, Pietro, Vinícius Dobbin].

7o Lugar: Bazuca da Pesada [Bernardo Pessanha*, Enzo, Danilo, Theo Miziara, Luca]

8o LugarDetonadores[Joca*, João Caminha, Daniel Matta, João Arraes, Felipe Stopatto]

[Amizade é isso aí!]

*Premiação Especial (a cor corresponde à equipe):

Craque: Antônio Salomone
Artilheiro: Antônio Salomone
Melhor GoleiroDanilo
Medalha Raça: Davi


Aquele abraço, saudações esportivas

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Arquibaldos

Caros (as),

Não é raro um papai ou uma mamãe procurar o professor para, na época das competições, perguntar: "Puxa, como eu faço pra torcer? Será que eu atrapalho meu filhote quando fico gritando muito ali da arquibancada?". É pergunta legítima, mesmo que à primeira vista possa parecer banal. Mas não é.


O momento da competição, do jogo valendo, é extremamente rico dentro da educação esportiva. Numa espécie de liquidificador emocional, diversas aprendizagens são exigidas: desportiva, cognitiva, social, afetiva. Tudoaomesmotempoagora, já que estes processos ocorrem ali, no jogo, com a chapa quente. E é claro que cada jogador vai lidar com isso à sua maneira. 

Creio que precisei falar de uma percepção geral dos alunos para chegar aos papais e mamães torcedores - o que me remeteu à expressão em inglês da palavra, support. De suportar, dar suporte a, sustentar. Mas dar suporte a quê? Eis a pergunta a ser respondida. A meu ver é dar suporte para que a criança consiga exercer, fazer uso de algo valioso: sua própria espontaneidade, sua maneira de jogar.

E talvez este suporte seja melhor aproveitado pelo pequeno jogador quando, na fantasia que envolve os campeonatos, pais e mães compreendam de modo natural o lugar de cada um. Porque quando a bola rola todo mundo entra na fantasia, não é mesmo? Senão, vejamos: o professor vira treinador; o aluno vira jogador; e  o pai se transforma em... torcedor!

[Tabelão do Torneio À Vera!]
Daí que a animação da arquibancada, como nos jogos oficiais, contagia as equipes. Existe uma espontaneidade na torcida que empurra a criança a poder se valer da sua própria - e isso é uma tremenda força para quem quer estufar as redes. Uns são mais efusivos, outros nem tanto. Cada jogador vai aprendendo a reagir às manifestações da torcida. Assim, respondendo à pergunta lá de cima: pais e mães não devem se preocupar em 'torcer certo'. Isso seria muito chato e politicamente correto. Sem alegria, detestavelmente mecânico. Nada a ver com uma partida de futebol.

No entanto, o que deixa a criança confusa é quando o adulto transborda o lugar que lhe é reservado na fantasia - porque aí ele invade os demais espaços. O torcedor querendo ser treinador. Ou o treinador querendo ser torcedor. Ou ambos quase querendo entrar em campo e jogar pela criança, como se ela tivesse que seguir rigorosamente um jeito ideal de jogar. Quando isso acontece, não dá pé.

Ao contrário, quando o adulto pode respeitar os espaços por, genuinamente, confiar na criança, esta  se vê enriquecida em suas possibilidades de confiar em si mesma e se arriscar ao jogo. Pelo suporte obtido. Vai, enfim, perder e ganhar, rir e chorar como a vida ensina - com o aconchego do acolhimento necessário, seja lá qual for o resultado da peleja.

Aquele abraço, saudações esportivas

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Esporte?

Caríssimos (as),

A prática do esporte por crianças e jovens tornou-se, nas últimas décadas, elemento consagrado da cultura ocidental, por assim dizer. Slogans como "Esporte é saúde" ou "Educação pelo esporte", em suas mais variadas formas, empurram todo um público infanto-juvenil às mais variadas modalidades e, chegando aos centros de poder, impulsionam projetos diversos e até políticas públicas (se são bem executadas ou não é outra questão, vá lá). Até aí, nada de novo.

[Foto de Tereza Gonzales, mãe do Caetano]
No entanto, dentro desta perspectiva de associar o esporte aos melhores ideais civilizatórios (quem pode ser contra 'saúde e educação', assim amplamente falando?), existem pontos a serem pensados. Pois, na verdade, esporte só será sinônimo de educação ou de saúde sob determinadas condições - e me parece importante poder falar sobre isso. 

No caso brasileiro é comum a associação, na maioria dos casos, de que as aulas de Educação Física escolares são bem ruins, ao estilo do professor que larga a bola aos alunos e fica lendo o caderno de esportes do jornal; por analogia, ao contrário, bom costuma ser o esporte nos clubes, aonde o treinador (repare bem, já não é o professor) deve ser bastante durão e exigente para provar sua competência e, supostamente, promover a saúde daqueles que estão sob seus cuidados. Educação Física e Esporte são, aliás, dois conceitos bem distintos, mas não pretendo me ater a isso agora.

Pois bem: ambos os casos orientam o imaginário nacional e, assim como vejo, ilustram o que temos oferecido grosso modo, ainda que não seja honesto generalizar. (Tenho um amigo que costuma cobrar estatísticas para melhor interpretar a realidade mais ampla, mas não é o caso aqui, dado que não as possuo. Fico assim com minhas percepções e experiências, reivindicando de antemão meu direito à sagrada ignorância). Sigamos.

Recorro ao Aurélio: "Esporte: 1. O conjunto dos exercícios físicos praticados com método, individualmente ou em equipe; desporto. 2. Qualquer deles. 3. Entretenimento". Percebam que não há qualquer menção à educação ou saúde, donde podemos concluir que tal noção é uma construção social. Digo: o significado do esporte na vida do sujeito não está posto, mas vai sendo edificado - e disso dependerá de como esta ou aquela atividade será apresentada ao fulaninho. Fugindo aos estereótipos já mencionados (o professor preguiçoso e o treinador carrasco) existe um vasto terreno que pode ser trabalhado para, de fato, enriquecer a existência da pessoa que o pratica.

Não existe fórmula única, mas é preciso escolher/criar uma metodologia, e sustentá-la. No Chutebol procuramos partir da brincadeira, passando aos jogos e movimentos desportivos propriamente ditos, para então chegar à ideia de desempenho - a competição. Assim, quando em nossas aulas são propostas atividades lúdicas; quando atividades corporais diversas são realizadas; quando não há necessariamente que chutar uma bola num dado momento da aula, é justamente pelo entendimento categórico de que há uma multiplicidade de aspectos que antecedem os gestos motores específicos - em nosso caso, aqueles do Futsal. Pois nestes momentos que precedem o embate competitivo é que o aluno pode experimentar suas possibilidades corporais, afetivas e sociais mais amplas. Para poder chegar ao confronto em condições de se beneficiar deste da melhor maneira possível.

Por isso recorrer a outros olhares, como a Psicomotricidade e a Psicanálise. E outros tantos. Porque o movimento humano pode e deve ser abordado por olhares distintos e, se realmente pretendemos fazer do esporte uma ferramenta para melhor cuidar e educar, que ele tenha um significado mais bem elaborado.

Tenhamos isso em mente: o sentido do esporte não está dado. Ele é construído.

Aquele abraço, saudações esportivas

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Outra do Manoel

Prezados (as),

É com alegria (mas não menos saudades) que lembramos dessa aqui de nosso padrinho Manoel de Barros - o poeta das memórias inventadas. Acho que ele nunca soube que era nosso padrinho, mas não tem problema, porque isso a gente inventou também - invenção da qual sentimos muito orgulho, posso dizer.


Daí que, em suas memórias, ao nos remeter à criança que há em nós, Manoel restaura uma sensação de acalento - que talvez seja a própria qualidade afetiva da poesia, perdida (ou sufocada) no pragmatismo nosso de cada dia. Porque, se é verdade que o pragmatismo é necessário, isso lá nem é preciso lembrar. Ao menos para a maioria de nós, já que o mundo precisa, digamos, funcionar. Disso a vida se encarrega na maioria dos casos.

Já a poesia, essa dá um alívio quando chega, ou quando podemos lembrar que ela existe. Ou, simplesmente, quando conseguimos parar para sentir as coisas, estas que estão por debaixo da poeira do dia a dia e, como diz o poeta, são a fonte daquilo que realmente importa. 

Tenho percebido que muitas das questões que a infância e a adolescência atuais nos convocam a responder demandam do adulto que ele consiga parar por um instante e se lembrar de sua própria infância. "Como eu me sentia mesmo, hein?!". Nada melhor, então, que a poesia do Manoel. Boa leitura!

Fontes

Três personagens me ajudaram a compor estas memórias. Quero dar ciência delas. Uma, a criança; dois, os passarinhos; três, os andarilhos. A criança me deu a semente da palavra. Os passarinhos me deram desprendimento das coisas da terra. E os andarilhos, a preciência da natureza de Deus.

Quero falar primeiro dos andarilhos, do uso em primeiro lugar que eles faziam da ignorância. Sempre eles sabiam tudo sobre o nada. E ainda multiplicavam o nada por zero - o que lhes dava uma linguagem de chão. Para nunca saber onde chegavam. E para chegar sempre de surpresa. Eles não afundavam estradas, mas inventavam caminhos. 

Essa a pré-ciência que sempre vi nos andarilhos. Eles me ensinaram a amar a natureza. Bem que eu pude prever que os que fogem da natureza um dia voltam para ela.

Aprendi com os passarinhos a liberdade. Eles dominam o mais leve sem precisar ter motor nas costas. E são livres para pousar em qualquer tempo nos lírios ou nas pedras - em se machucarem. E aprendi com eles ser disponível e sonhar.

O outro parceiro de sempre foi a criança que me escreve. 

Os pássaros, os andarilhos e a criança em mim são meus colaboradores destas Memórias inventadas e doadores de suas fontes.

[Manoel de Barros - 'Memórias Inventadas - As Infâncias de Manoel de Barros', 2008]

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Amém

Caros (as),

O blog Chutebol é fã do craque Tostão que, além de ícone do futebol brasileiro, é médico, psicanalista e escritor/colunista. Um pensador, enfim. Remexendo aqui e acolá desencavamos um texto dele do início do século que, como é comum nas boas obras, permanece atual.


Tostão, que é médico, parece saber bem do que fala. No lugar do deslumbramento diante do discurso da medicina, que joga o sujeito numa posição infantil e submissa (o deslumbramento, não a medicina, claro), ele usa da ironia, do bom-humor e de um humanismo inteligente. Porque para usufruir dos avanços tecnológicos não é necessário - muito menos desejável - deslocar o sujeito de suas responsabilidades perante a vida como ela é. Daí que este pequeno texto ganha relevância, na medida em que apresenta uma mistura de alhos com bugalhos muito bem-vinda, pois que convoca a nos havermos com o desacerto que é viver. Do futebol para o mundo. Boa leitura!

Se os genes permitirem

(...) Hoje existe uma supervalorização da genética. É onda. Tudo é genético: neurose, psicose, tristeza, alegria, escolha sexual, doenças, desonestidade, ignorância, normalidade (ser sempre normal também é um distúrbio emocional), minha preferência por sorvete de coco, fisiologismo, destino, etc.

A desumana elite econômica brasileira dirá que nossa miséria é geneticamente determinada.

No esporte, acontece o mesmo. São genéticas as confusões e o ciúme de Edmundo, a genialidade de Romário, a criatividade e a ruindade de alguns jogadores, a racionalidade de Parreira, o equilíbrio de Levir Culpi, a prepotência de Eurico Miranda, a chatice de Marcelinho, as reclamações de Felipão, o belo corpo de Ana Paula do vôlei etc.

A excessiva importância dada aos genes retira toda a responsabilidade do indivíduo por seus atos, desejos e destino. No futuro, as pessoas irão consultar seus genes para tomar decisões. Será que meu gene vai gostar? Será que combina com o do ser amado? Haverá sempre desculpas. 'Não fui eu que fiz isso, foi o meu gene'. 'Se quiser, processe meu gene'. Não esqueço do que me disse um paciente: 'Não sou eu quem estou doente, e sim meu corpo'. Futuramente, será o gene.

Será que em nosso comportamento não têm importância o ambiente familiar e social, o desejo, os encontros e desencontros na vida, os sonhos e os mistérios? Claro que sim, dirão os psiquiatras biólogos, os positivistas e os racionais, mas somente se os genes permitirem. Amém.

[Do livro 'A perfeição não existe' - Tostão, 2011. Crônica de 13/2/2000]