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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Futebol e Justiça

Caros(as),

Na semana passada muito se falou sobre a final do Campeonato Estadual do Rio, quando Vasco e Flamengo se enfrentaram mais uma vez. Como o tema envolve discussões morais sobre o esporte, ficamos pensando em como falar sobre isso com as crianças - já que, pra nós, tudo isso está longe de ser um assunto simples, como se bastasse marcar uma posição entre certo e errado. O que, é claro, nem por isso deixam de existir. Complexo, não? Paixões clubísticas à parte (no que for possível!), vamos tentar uma palhinha.

[Maradona em '86: Gol de mão para a História]
Curioso é que a ideia para esta postagem surgiu de uma conversa - não uma discussão - minha (sou Flamengo) com Tiago (nosso outro professor, que é Vasco). Rimos um do outro, pois de saída lembramo-nos de como é difícil desvincular nossas posições sobre o assunto de nossas paixões futebolísticas. Algo disso, confesso, é realmente irredutível. Eu não queria estar do lado dele no jogo que passou...

Daí que percebemos duas posições que tentamos fugir: a primeira, mais evidente, a da desfaçatez, posta à prova pelo goleiro Felipe: "Ganhar roubado é mais gostoso", disse o atleta. Bem, isso na mesa de bar está para a gozação. No entanto, para um atleta profissional em público, sabendo que representa uma instituição e que afetará milhões de crianças com seu 'exemplo', é vexatório. Repudiamos. Pois bem, Felipe desculpou-se, não sem antes dizer que o futebol está muito chato. É verdade. E, no caso brasileiro, muito decadente, como sabemos. Que jogo medonho este da final.

A segunda posição que tentamos afastar é talvez mais difícil: a que concluímos ser uma espécie de moralismo. Tirar o título do Flamengo; anular a partida; dizer que o título não foi legítimo. Nos parece exagerada. Não encontra respaldo na História do futebol. Maurício empurrou Leonardo em '89 e entrou para o almanaque, dando o título ao Botafogo em cima do Flamengo. Zico teve a camisa rasgada por um italiano dentro da área em '82, o juiz não deu nada e perdemos com uma seleção brilhante. Maradona levou a Argentina ao título, com sua genialidade e com a 'mão de deus', segundo ele (gol de mão contra a Inglaterra em '86). Vamos agora rever tudo num tribunal?

Os exemplos são fartos. Claro, não devemos por conta disso nos transformar em monstrengos perversos que menosprezam a Lei. Não é nada disso. O que estamos tentando dizer é que o futebol, assim como a vida, não tem muito apreço pela ideia de justiça. Talvez por isso a busquemos tanto, nós humanos. Para dar um sentido à existência. O futebol pode ser muito cruel, como foi recentemente com os vascaínos. Sua queixa é mais que legítima - mas nem por isso o título do Flamengo é menos legítimo. Um paradoxo.

No que coube ao Flamengo, como mérito: o hábito de jogar até o final das partidas. Isso é um pedido, um incentivo constante nos jogos do Chutebol - "Até o final!", bradamos em quadra. Já ganhamos e perdemos com erros de arbitragem. Acolhemos o choro e o sorriso e, ao final, o imperativo: "Pode ir até lá cumprimentar o adversário". Talvez seja uma maneira de ensinar às crianças que muitas vezes a vida não é justa, mesmo. Mas nem por isso vamos nos resignar. Sigamos buscando a justiça. Futebol é dureza!

Aquele abraço, saudações esportivas

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A infância como imagem

Caríssimos,

O vídeo abaixo traz o humorista Marcelo Adnet narrando uma partida de futebol como se fosse um radialista - logo, animado e inventivo até não poder mais. Em seguida, ele passa a fazer o papel de um narrador da televisão: monotônico e entediado, como a maioria deles. Vale separar um par de minutos para assistir, pois é simplesmente hi-lá-rio!


Bem, é evidente que não se trata de crucificar ou menosprezar a tevê. Mas talvez um sentido a ser extraído seja o de quanto, ao ficarmos tão impregnados pela telinha quase o tempo todo e em praticamente todos os lugares (até no elevador!), quanto nos emburrecemos, quanto deixamos de realizar um trabalho psíquico, mental, imaginativo. Trabalho no sentido de movimento. Logo abaixo um pequeno texto que ajuda a refletir - boa leitura!

"A infância é sempre um tempo em trânsito, portanto dura pouco. Etapa de crescimento, de desenvolvimento, de estruturação, de formação em muitos e diversos aspectos, que aqui vamos considerar em especial como a temporalidade em que o sujeito exerce a imaginação criadora de seu elemento infantil. Sabemos que num primeiro momento, na primeira infância, este universo de representações depende dos Outros primordiais, que encenam seu próprio mundo infantil para que a criança, em outro tempo (...), possa criar seu próprio universo.

Propomos chamar de segunda infância a temporalidade na qual as crianças podem criar o elemento infantil brincando. É o momento em que exercem a liberdade ficcional, a curiosidade apaixonada e ardente, a criatividade imaginariamente simbólica. Criam e são criadas pela experiência do infantil que acontece ao brincarem; neste sentido, o ato de brincar cria o espelho e o infantil da infância.


Nesse momento vibrante e vivaz do acontecer cênico infantil que a criança produz à medida que brinca, se o que monopoliza seu pensamento não é a magia da novidade criada quando ela se lança e abre as portas para brincar, mas a reação em cadeia de estímulos visuais maníacos e falsamente reais, a lógica que opera é a da exclusão. As crianças se excluem no 'seu ' mundo, nessa linguagem adulta-infantil da tecnologia digital-virtual que, em alguns casos, chega até a fragmentá-las e aliená-las. Nessa caminhada, a infância transcorre na dialética 'eletrônica-infantil' proposta, oferecida e consumida pelo mundo globalizado. Caberia perguntar-se quais as marcas e os efeitos que essas lógicas linearmene excludentes deixam no universo infantil".

(...) Se levada ao extremo, a lógica da exclusão pela tecnologia digital-informática de vídeo inutiliza a entrada em cena do corpo e a sensibilidade das descobertas da criança, que precisamente abrem, ampliam, e geram o universo infantil. O ato de brincar como apropriação subjetiva fica questionado por essa lógica."

[Adaptado de 'Rumo a uma infância virtual?' - Esteban Levin, 2006]

Feriados que vêm aí

Caros(as),

Como estamos cheios de feriados nas próximas semanas, segue o calendário do Chutebol para que vocês possam se organizar:

18/04 (6a f.) - Feriado de Sexta-feira Santa: Não haverá aula.
21/04 (2a f.) - Feriado de Tiradentes: Não haverá aula.
22/04 (3a f.) - Não haverá aula.
23/04 (4a f.) - Feriado de São Jorge: Não haverá aula.

24/04 (5a f.) - Aula normal.
25/04 (6a f.) - Aula normal.
28/04 (2a f.) -  Aula normal.
29/04 (3a f.) -  Aula normal.
30/04 (4a f.) -  Aula normal.

01/05 (5a f.) - Feriado do dia do trabalho: Não haverá aula.

02/05 (6a f.) - Não haverá aula.

Aquele abraço,saudações esportivas

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Publicidade infantil proibida

Prezados (as),

O assunto é sério e exige mais do que simplesmente pensar. Talvez nos cobre uma posição, mesmo. Na última sexta-feira, 04 de Abril, foi publicada a Resolução 163 no Diario Oficial da União, que considera abusiva toda publicidade direcionada às crianças. Entidades de defesa da criança comemoraram. Repassamos aqui o link para quem quiser dar uma olhada com mais calma no texto - vale a espiada para se informar:

http://defesa.alana.org.br/post/81686429505/publicidade-dirigida-as-criancas-deve-acabar

image

O blog Chutebol acha que o tema é espinhoso, mas nos posicionamos a favor desta resolução. E por quê?

Bem, a discussão é rica e está em debate há muito tempo a legitimidade deste tipo de proposta. Afinal, não são os pais que devem cuidar dos seus filhos? Não cabe a eles dizer o que pode e o que não pode, discutir sobre as benesses ou futilidades de determinado produto? Não chega a ser uma censura (logo autoritária) impedir as pessoas de terem acesso a determinado produto? Por fim: não seria chamar de burros ou incapazes a todos aqueles que estariam sendo 'protegidos' por esta lei, no sentido de tirar-lhes a liberdade de escolha, após a exposição da empresa/vendedor?

É evidente: todas as respostas a estas perguntas, diante de um pensamento, digamos, liberal, apontam para uma grande bobagem que está sendo feita. E talvez fosse mesmo uma grande bobagem - se a vida pós-moderna não estivesse simplesmente contradizendo um ideal muito distante destes que nos mostram os comerciais. Como assim?

Explico: a publicidade infantil virou um tremendo filão comercial desde a década de '70, mais precisamente. Com o avanço das tecnologias e dos meios de comunicação, somados ao estilo de vida que levamos (ao menos aqui no Ocidente, do lado de cá da Terra),estilo esse de muita correria e tempo escasso dos pais junto a seus filhos, com tudo isso a criança não fica simplesmente exposta a este ou àquele anúncio. Ela é simplesmente engolida, bombardeada. São trocentas mensagens, cores, sons, imagens, mensagens subliminares, pedidos, demandas. Quantas demandas.

Desde o momento em que levanta, vê tv pra tomar café (ou pro pai poder dormir mais um pouquinho, nada mais justo); daí vai pra escola, muitas vezes já mexendo numa engenhoca eletrônica; passa pelas ruas, shoppings, ônibus com seus 'leds'; na escola, um festival de marcas, seja na antiga competição velada com os colegas (a marca do tênis, da roupa, a marca da merenda - bem, isso aí não tem jeito, mesmo); volta pra casa, mais tv, vai pro cursinho (que é patrocinado também por marcas), mais engenhoca eletrônica; etc etc etc. Um verdadeiro caldeirão.

Já ouço a voz de uma crítica liberal: "Mas ora bolas, deixe a cargo dos pais proibirem isto ou aquilo!". Sim, claro. Isto tem de se feito, com ou sem esta resolução. Agora, os pais bem o sabem: é viável a competição do diálogo parental, tentando explicar o por quê de não se comprar aquele produto, quando o rebento passa hoooras do seu dia sendo estimulado por toda sua percepção, quase que forçado (porque para uma criança é dessa ordem, mesmo) a comprar, todo o tempo? As birras homéricas, as verdadeiras batalhas que tantos pais precisam fazer para explicar aos filhos a empulhação em que se transformou a venda da imensa maioria destes produtos- isto não virou um transtorno? Um transtorno sem rosto?

Porque o quadro resultante é esse: uma criança atormentada por um desejo (que no mais das vezes não é genuinamente seu, mas fabricado!); a mãe/pai torturado entre a culpa e a vontade de satisfazer o filhote; e a publicidade lá, bombardeando coisas e cores, como se não tivesse nada a ver com a história, como se o desenvolvimento das crianças não passasse por ela, publicidade, no século XXI. Dá pra competir com o McDonald's? Com a Nike? Com a Coca-Cola? No século das imagens, qual a potência do discurso parental, monotônico, humano simplesmente, diante de um sedutor mundo da fantasia? A palavra ainda importa?

Então, é claro: os pais vão continuar proporcionando aos filhos a educação em que acreditam. A publicidade sempre existiu e vai continuar existindo, como deve ser. O mundo das imagens aí está, e veio pra ficar. Nós vamos nos reinventando. Mas o vale-tudo (olhaí, outra boa discussão...) no apelo ao chororô infantil, já pesquisado pelas grandes corporações como fator fundamental do ato de comprar, este, em nossa modesta opinião, é interditado em ótima hora.

Não pode valer tudo para vender produtos infantis. É covardia. O filtro mental da criança, seu discernimento moral e psíquico ainda está em formação. Os pais passam horas fora de casa trabalhando, o jogo de forças estava absolutamente desigual. Sabemos que a discussão não se esgota aqui, que há bons argumentos a favor da liberação. Mas neste momento sentimos a necessidade de afirmar nossa posição.

Last, but not least: deixo aqui um link com um pequeno vídeo (um ótimo documentário) e textinho de outra postagem do Chutebol, que são pra lá de esclarecedores:

http://www.projetochutebol.com.br/2012/01/da-pra-competir-com-publicidade.html

E você, o que pensa sobre tudo isso?

Aquele abraço, saudações esportivas

segunda-feira, 24 de março de 2014

Verissimo e os sonhos de infância

Caros (as),

O blog Chutebol  deu de cara com uma pequena belezura de Luis Fernando Verissimo. Um texto tão singelo quanto profundo em que o escritor nos faz recordar - com graça e suavidade - dos nossos sonhos de infância. Me fez lembrar dos meus. E você? Carrega sonhos de infância? Pode lembrar-se deles? 

Ah: ainda, na HQ abaixo, das 'Cobras' (também de Verissimo), uma piada, digamos, existencial - já que estamos falando de sonhos... Boa leitura!


Sonho

"Para um apaixonado por viagem e futebol, como eu, cobrir uma Copa do Mundo é ótimo. Mesmo perdendo, é ótimo. Você é pago para ver os jogos, fica nos melhores lugares do estádio e ainda pode brincar de cronista esportivo, cercado por cronistas esportivos de verdade.

Quando eu era pequeno, queria ser aviador ou cronista esportivo. Se possível as duas coisas juntas, um piloto de caça que, em tempos de paz, escrevesse sobre futebol. Ah, poder ver os jogos dos 'reservados para a imprensa' e usar todas aquelas palavras que, na época em que a linguagem jornalística vivia a angústia do sinônimo pronto para evitar repetições, eram obrigatórias nos textos esportivos: 'contenda' ou 'porfia' em vez de partida, 'esférico' ou 'número 5 em vez de bola, etc.

Voar muito, como passageiro, e pelo menos de quatro em quatro anos me meter a comentar futebol são o mais perto que consegui chegar dos sonhos de infância. E todos sabem o prazer que é chegar perto dos sonhos de infância".

[Verissimo, 1999 - em 'A eterna privação do zagueiro absoluto']