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segunda-feira, 25 de maio de 2015

No olho do furacão

Caríssimos (as),

Nesta fase do ano começamos a preparar os alunos para as competições. As turmas a partir de 06 anos entraram na disputa do 'Torneio à Vera', uma alusão às brincadeiras infantis de antigamente, quando algo podia ser à brinca (se não estivesse valendo pontos), ou à vera, quando era pra valer! Os alunos se enfrentam nas próprias turmas nos dias normais de aula, ao longo de 01 mês; a ideia é que possam progredir assim até as competições mais difíceis, aquelas em dias especiais, contra jogadores e equipes de outras turmas e até outros clubes. As turmas mais novinhas, de 04 a 06 anos, ainda não participam de nenhuma competição, pois entendemos que as aulas comuns do Chutebol já são o estímulo necessário na montanha-russa de vitórias e derrotas. 


Pois bem: é um momento que consideramos muito importante e mesmo delicado, na medida em que irão surgindo arranhões aqui e ali, por conta dos atritos inerentes às disputas. No entanto, de acordo com o que temos vivido ao longo dos anos, tais atritos vão sendo fontes de aprendizagem se puderem contar com um contorno por parte dos adultos (pais e professores), para que a criança e o adolescente possam dar a eles um significado. Explico.

A ideia consagrada é de que o esporte, por si só, é necessariamente fator de socialização. Falso. Porque costuma se supor que é o simples fato de colocar alguém no meio esportivo para competir que, como num passe de mágica, ele estará se socializando. Mas não é bem assim que acontece. Não basta estar cercado de gente para se socializar. Quem nunca se sentiu numa multidão? O que se propõe chamar socialização pressupõe experimentar afetos diversos (sentidos como bons e ruins) para que as habilidades sociais vão aos poucos amadurecendo.

No olho do furacão surgem questões como "será que eu sou bom?"; "o que meu time acha de mim?"; "estou agradando ao meu pai na arquibancada?"; "estou fazendo como o professor quer que eu faça?" - fatalmente vão surgir ao sabor do desempenho e do imaginário de cada um. Noves fora as reações mais diversas àquilo que é próprio do futebol, como fazer um gol contra, acertar um drible sensacional ou decidir uma partida no último segundo. É nesse caldo quente que os jogadores vão se relacionar com seus pares (amigos de time e adversários), e as cobranças e desentendimentos, bem como os gestos de apoio e a amizade, vão ganhando corpo.

Daí que diante de tudo isso está o adulto. E é preciso ter olhos para ver. Na posição que ocupo, falo da condição de professor. Penso que, se quisermos aproveitar a experiência da competição para facilitar de verdade a socialização dos alunos, temos a tarefa de dar uma borda, um contorno que os ajude a dar um sentido às suas próprias ações. Senão, a chance de descambar para a estupidez é muito grande. O futebol brasileiro que o diga.

Por isso começamos com um torneio de 01 mês, dentro da própria turma e nos dias de aula: para lavar roupa suja em casa. Assim, se fulaninho está tratando mal o colega que não joga tão bem; se beltrano reage com deboche quando vence de goleada; se sicrano se abate de maneira desproporcional quando perde, tudo isso deve contar com a participação do professor no sentido de expor à turma estas questões, pedir a opinião dos alunos e, mesmo, dizer (como adulto) o que pensa disto ou daquilo. Impor certos limites, mediar conflitos, imaginar saídas. Com a dificuldade adicional de fugir tanto do politicamente correto (para não tirar a naturalidade das emoções), como dos excessos que levam aos estereótipos bobalhões de 'winner' e 'looser'. Ufa! Não é fácil...

Tal é o processo de socialização que considero o mais legítimo: poder experimentar as emoções, estabelecer as relações e contar com a ajuda do adulto para dar um contorno. Para saber se é aquilo mesmo. Insisto: para dar um sentido às suas próprias ações. No fundo, talvez seja o que todos buscamos de alguma maneira. Tenho percebido que, no frigir dos ovos, aqueles que melhor aproveitam o esporte conseguem um certo equilíbrio entre a vontade de vencer e o simples (porém nobre) prazer de praticá-lo. 

Quando sinto o aluno avançar na maturidade de perceber que se empenha, chuta, se rala, sua, discute, volta atrás, pede desculpas, chora, ri e comemora - "apenas" porque se diverte jogando, considero que o projeto está caminhando. Se a chapa esquenta, costumo perguntar: 'Por que vocês estão aqui mesmo, hein?'. Até alguém ter a coragem de lembrar: 'Porque a gente adora futebol!' - e aí a gente recupera o sentido de se empenhar tanto!

Afinal, não é de hoje que lembramos deste cantinho que, sem adversário, não há jogo; adversário não é inimigo. Quem sabe competir sabe, antes, se divertir.

Aquele abraço, saudações esportivas

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Longe do Fair Play

Prezados (as),

Essa foi de amargar. Reportagem do Estado de São Paulo do dia 16 de Maio último, do correspondente em Genebra, Jamil Chade, denuncia contratos da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) com interferência direta das ações de marketing nas decisões técnicas, esportivas - de campo. Transcrevemos aqui uma parte, mas o conteúdo completo (inclusive com as imagens dos contratos) está em: 



Consigo pensar em dois pontos importantes nessa história tenebrosa. Em primeiro lugar, o mais óbvio: algo que era, como disse um amigo, uma espécie de lenda urbana ("ah, todo mundo sabe que existe interesse financeiro na escalação de jogador"), agora aparece registrado em contrato. A outra, menos cabal, diz respeito à relação afetiva, do imaginário brasileiro mesmo: faz tempo que muitos de nós temos sentido um certo incômodo na relação com a Seleção. Algo como se a paixão não fosse a mesma de antes, como se houvesse um abismo na identificação dos próprios jogadores com a camisa amarelinha. Mas o fato de a maioria absoluta de nossos craques (?) jogarem na Europa dava uma certa desculpa, pela constatação pragmática de que 'hoje é assim mesmo'.

Só que não. Não tinha que ser assim. Não precisa ser assim. Não pode ser assim. O blog Chutebol apoia o o movimento de jogadores profissionais Bom Senso FC (facebook.com/bomsensofc) na luta pela democratização e transparência da CBF para que, jogando na Europa ou não, a gente tenha a certeza de que quem está vestindo a outrora sagrada Amarelinha é porque está disputando a bola como quem vai num prato de comida. 

Abaixo, um recorte da reportagem:

"A seleção brasileira virou uma mina de ouro para empresários e CBF. Contratos secretos obtidos pelo Estado revelam, de forma inédita, como a entidade leiloou a seleção em troca de milhões de dólares em comissões a agentes, cartolas, testas de ferro e empresas em paraísos fiscais, longe do controle da Receita Federal brasileira. Pelos acordos, a lista de jogadores convocados precisa atender a critérios estabelecidos pelos parceiros comerciais e qualquer substituição precisa ser realizada em 'mútuo acordo' entre CBF e empresários. O contrato deixa claro: o jogador que substituir um 'titular' precisa ter o mesmo 'valor de marketing' do substituído. 

(...) Desde 2006, a CBF mantém um contrato com a companhia ISE para a realização dos amistosos da seleção. O acordo foi mantido em total sigilo por quase dez anos. Documentos obtidos pelo Estado revelam agora que a ISE é uma empresa de fachada com sede nas Ilhas Cayman. Não tem escritório nem funcionários. É mera Caixa Postal, número 1111, na rua Harbour Drive, em Grand Cayman. A ISE é apenas uma subsidiária do grupo Dallah Al Baraka, um dos maiores conglomerados do Oriente Médio, com 38 mil funcionários pelo mundo. (...) Nos primeiros acordos e emendas entre a CBF e a ISE, os termos não faziam qualquer menção às regras para a convocação de jogadores. 

Tudo mudaria em 2011. Os aspectos esportivos foram colocados em segundo plano. Trata-se, acima de tudo, de um esquema para explorar a marca da seleção em todos os seus limites, independentemente do resultado em campo ou do significado de uma partida para a preparação do time. Pelo acordo secreto, ficou estipulado que a seleção deveria entrar em campo sempre com seus principais jogadores, sem qualquer possibilidade de testar jovens promessas ou usar amistosos para preparar o grupo olímpico. 'A CBF garantirá e assegurará que os jogadores do Time A que estão jogando nas competições oficiais participarão em qualquer e toda partida', diz o artigo 9.1. Qualquer violação desse acordo significa pagamento menor de cota. 'Se acaso os jogadores de qualquer partida não são os do Time A, a taxa de comparecimento prevista nesse acordo será reduzida em 50%', estipula o contrato. 

Por jogo, a CBF sai com US$ 1,05 milhão (R$ 3,14 milhões) se seguir o acordo. Caso um jogador seja cortado por contusão, por exemplo, a CBF precisa provar com um certificado médico aos empresários da ISE que o atleta não tem condições de jogar. 'Qualquer alteração à lista será comunicada por escrito à ISE e confirmada por mútuo acordo. Nesse caso, a CBF fará o possível para substituir com novos jogadores de nível similar, com relação a valor de marketing, habilidades técnicas, reputação.'

Para deixar claro o que significa 'Time A', a ISE alerta que não aceitaria o que ocorreu em novembro de 2011 quando o Brasil foi ao Gabão e depois a Doha para enfrentar o Egito. Na época, o então treinador, Mano Menezes, não contou com Neymar, Ganso, Lucas, Marcelo, Kaká e Leandro Damião, nomes da lista original para os amistososNo novo contrato (o que passou a valer em dezembro daquele ano e vai até 2022) a empresa deixou claro que tal situação passaria a ser punida com uma redução em 50% do cachê pago. Além disso, todos os direitos de transmissão, copyright ou qualquer outro aspecto ficam sob controle total da empresa de fachada registrada nas Ilhas Cayman. Num dos artigos do contrato, fica ainda estipulado que, mesmo que o acordo for suspenso, os direitos de copyright são mantidos sem data para acabar. Qualquer violação significa que a CBF teria de pagar uma multa de US$ 1 milhão. 

O contrato ainda prevê que os períodos de preparação da seleção brasileira para as Copas de 2018 e 2022 também serão de exploração exclusiva da ISE. O acordo ainda termina com termo bem claro: confidencialidade. 'Todos os termos e condições deste acordo serão tratados pelas partes como informações confidenciais e nenhuma das partes os divulgará'.



(...) O Bom Senso FC cobrou mais transparência da entidade que controla o futebol brasileiro. O meia Alex, um dos principais líderes do movimento que cobra melhorias no futebol brasileiro, pediu a democratização da  CBF: 'Sinto-me absolutamente mal, enojado! É mais um sinal daquilo que pedimos: transparência! O Congresso Nacional precisa urgentemente aprovar a MP 671, para que se democratize a CBF, dando participação e direito de voto aos atletas', disse o ex-jogador, que agora é comentarista de tevê. 'O futebol é patrimônio do povo brasileiro e não pode ser usurpado como está sendo, há tanto tempo por uma sociedade privada como é a CBF', acusou o ex-jogador. 'Já não jogo mais, mas essa notícia é como um soco enorme no estômago. Que sejam apurados todos os fatos para que saibamos realmente tudo o que acontece no comando do nosso futebol, que se faça uma limpa', declarou Alex.  

O meia, que jogou na Seleção Brasileira entre 1998 a 2005, é taxativo em relação ao papel dos parceiros comerciais na escolha dos jogadores. 'A escolha deveria ser exclusivamente técnica, da preferência do treinador. Diante da denúncia, todos podem pensar o que quiserem', disse. 'Como ex-atleta minha maior preocupação é com o futebol brasileiro, que tem clubes muito endividados, pobre de pensamentos e pouco preocupado em melhorar. Enquanto a CBF enriquece em cima da área comercial e pouco se preocupa com o futebol', completou (...)".

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Encontro ou fuga

Caros (as),

Virou lugar-comum a queixa dos adultos (pais, mas não só) com relação ao tempo excessivo que muitas crianças e adolescentes passam imersos no mundo virtual - não só pela comunicação facilitada dos smartphones no cotidiano, mas também em seus laptops em momentos que poderiam fazer outras coisas.


Quer dizer, em momentos nos quais os adultos supõem que esta molecada poderia estar fazendo outra coisa. Talvez brincando, jogando, lendo, conversando. Daí que isso tudo vira um enigma, porque, afinal de contas, eles estão realmente fazendo tudo isso - só que no espaço virtual! Aliás, quem não estamos? A imagem acima abusa da ironia: uma prisão em forma de celular. Se reparar bem, tem até um fugitivo...

O fato é que são tempos realmente curiosos. Nem é preciso dizer que estamos em plena revolução do modo humano de se comunicar. A maioria de nós experimenta, diariamente, as benesses e as aporrinhações desta incrível revolução tecnológica. Quem nasceu no mundo pré-internet costuma carregar consigo algumas lembranças do bom e do ruim desse tempo: como era tentar utilizar um telefone público à ficha?; como era tentar falar com um saudoso parente distante?; como era tentar montar uma viagem e correr o risco de não agendar hotel, passagens, etc? Por outro lado, o tempo parecia esticado; dava tempo de sentir saudade; o risco de uma viagem era inerente à ideia de aventura. Os exemplos são infindáveis.

O velho Freud costumava dizer que o aparelho psíquico humano faz de tudo para buscar prazer e evitar o sofrimento. Penso que os nativos digitais, essa leva de gente que não conheceu o mundo sem a internet, busca, assim como a imensa maioria de nós, suas razões para ser feliz. E eles lidam com os recursos que têm e com os quais aprenderam a conviver. Assim, se a escolha de muitos destes nativos digitais (mas só eles??) converge invariavelmente para o mundo virtual, devem ter lá seus motivos. Se não admitirmos isso, entraríamos na querela de tentarmos medir quem é (ou era) mais feliz: os de antes ou os de agora. Me parece uma discussão vã.

Se o que estou falando tem alguma relevância, então é preciso pensar: qual é o mundo real que estamos oferecendo a estas pessoas? Estas, que estão ainda habitando pouco a pouco sua existência, que estão se acostumando aos desconfortos da vida, que tanto quanto nós procuram contornos para depositar seus afetos? Faço estas perguntas porque tenho percebido que, se a internet ainda é um fenômeno recente e avassalador e, por isso mesmo, impacta a todos nós (não estou escrevendo numa máquina de escrever), é bastante impressionante constatar que ela pode ser tanto fuga quanto encontro. Digo: se algum jovem passa tanto tempo olhando para esta tela que me olha de volta, existe algum sentido nisso.

Acredito que o que importa perceber é o significado do mundo virtual na vida do sujeito. Porque se o mundo real fica parecendo desinteressante, a web está aí com todas as suas promessas e atrativos. Basta fazer download. Se uma criança ou um adolescente se sente muito solitário, se ninguém mais desce pro play, se as relações sociais e familiares são carentes de significado, se a rua não é pra brincar, então há outro lugar para existir - qual seja, o virtual. A internet é fuga.

Por outro lado, se a escola é legal, se os amigos estão perto, se existe espaço-tempo para brincar, se fazer as coisas juntos tem algum sentido, se o laço familiar sustenta alguns limites e apresenta o que há de bom na realidade - então há um sentido que acompanha as batidas do músculo cardíaco, este que nos faz gritar de dor e de amor. A internet é encontro

Não adianta, a molecada não vai dar nada de bandeja. Nós também, nunca demos. Temos é que ter sensibilidade e coragem para apresentar a vida-como-ela-é a eles, e ajudá-los, e pedir a ajuda deles também - não só para baixar o WhatsApp no celular. É preciso precisar das pessoas. Se tudo der certo, vamos nos acostumando com essa parafernália eletrônica e dar a ela um lugar de ferramenta, legal e tudo o mais, mas que não substitui o contato humano. Menos abobalhados. Se tudo der certo.

Agora, se não der... bem, aí não sou eu quem vai querer contar essa história. Como disse o velho Sigmund, eu sou humano e também busco minha maneira de ser feliz.

Aquele abraço, saudações esportivas


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Fantasias

Caríssimos (as),

Essa é de almanaque. Marcelo Zavareze, papai do nosso craque Luca Marques, enviou-nos esse conto que não é só um conto, porque aconteceu de verdade. É próprio do futebol o devaneio em que realidade e fantasia se amam tanto que não se separam muito bem - mesmo que no Brasil estejamos jogando às caneladas no início do século XXI. O que importa é que ainda é um espaço próprio do brincar, espaço por excelência dos paradoxos, em que não é preciso separar cartesianamente 'uma-coisa-ou-outra'; trocando em miúdos, cabem o lógico e o ilógico, o pouco provável, muitas vezes o impossível. O que não significa que algo não aconteceu, mas o oposto: a fantasia invade a realidade, e aí é um deus nos acuda - de tristeza ou de alegria.


E dessa vez foi de alegria. Pai e filho foram num jogo do Fluminense e o pimpolho, como acontece com as crianças, fez do seu devaneio arte: pintou um cartaz com as cores do time de coração e, da arquibancada e do alto de sua infância, passou toda a partida (inclusive no aquecimento) pedindo (gritando!) ao goleirão Diego Cavalieri para que desse a ele sua camisa. É aí que entram em cena a sensibilidade de um atleta profissional que compreende sua responsabilidade; a coragem do pai em sustentar um sonho infantil aceitando o risco da frustração (de a realidade se impôr); e a espontaneidade própria da criança, que desafia a lógica dita normal do mundo dos adultos. É preciso escutar as crianças.

Boa leitura!

"Acordei numa quarta-feira, dia de futebol no Clube Militar, com o Luca insistindo que tinha sonhado e precisava falar com o Diego Cavalieri. Confesso que não dei bola... Em seguida à aula no Chutebol, Luca sentou e fez um cartaz para ser entregue ao goleiro do Fluminense. Comecei a prestar atenção.

Minha agenda estava repleta de compromissos de trabalho, médico e etc que sempre são inegociáveis até você dizer que vai parar tudo e embarcar num sonho do seu filho. Não é toda hora que você abre mão e embarca nesta, pois o senso de responsabilidade dos adultos sempre elimina os sonhos de maneira avassaladora. E foi pra lá que eu fui...


Combinei que o levaria no Maraca para ver Fluminense e Cabofriense (acho eu) da escola e com toda convicção do mundo ele me pediu para levar o uniforme completo do Cavalieri que ele tem (meia, luva, camisa, short). Até então não tinha lido o cartaz que havia feito. Ao furar o mega transito do Humaitá até o Maracanã, na fila para comprar entrada li o cartaz e vi que o negocio era sério. Dizia: 'Cavalieri por favor mida ['me dá'] sua camisa' intercalando as cores do Fluminense, verde, branco e vermelho.

Chegamos 1 hora antes e, como de praxe, o goleiro sempre vai treinar e aquecer antes do time no gol do lado da própria torcida. Luquinha se posicionou na primeira linha e começou a chamar o Cavalieri insistentemente. Decidi que a voz da criança iria sensibilizá-lo mais do que um coro de pai e filho. Num determinado momento da concentração do aquecimento vi que o goleiro viu o Luca e tentou ler... Neste momento acenou, mas eu não queria alimentar nada na cabeça dele. Luca garantiu que Cavalieri fez sinal para aguardar.

Dito e feito, 90 minutos na mesma posição e independente dos gols feitos pelo Fluminense o Luca não largava o cartaz na primeira fila, mesmo quando o goleiro foi para o outro lado do campo. A distância do gol agora defendido do lado oposto não diminuía seu otimismo. 500, 600 metros ou quilômetros, não importava, era longe demais... O estádio não estava lotado, longe disso, mas mal ou bem havia 4.900 pessoas. Uma multidão para a voz do Luca se destacar.

Já estava eu gerenciando as mensagens de auto-estima contra as frustrações que ele encararia naquela noite e o Luca, no final do jogo, insistiu que o Cavalieri viria até ele. Só pensei..."danou-se".

Depois da vitória, todos os jogadores foram embora para o vestiário; e lá do outro lado do campo, num caminhar sereno e muito lento, não é que o goleiro apontou em nossa direção? Neste momento os 500 ou 1000 torcedores tricolores caraminguados restantes se tocaram que o goleiro estava numa direção certeira para a arquibancada... eu e Luca fomos praticamente empurrados da primeira para a 4ª fila. Eu pedia 'dá licença!, por favor, pelo amor de deus, socorro!...'

E não é que o Cavalieri chegou e apontou para o Luca, dizendo "é aquele menino ali!" ? Como nos Dez Mandamentos, abriu-se um caminho no mar para o Luca atravessar, numa salva de aplausos emocionantes. Ele e Cavalieri se abraçaram longamente, depois conversaram algumas coisas, e a multidão e os gritos de 'Cavalieri-Cavalieri-Cavalieri-Cavalieri' impediam que eu participasse de alguma maneira... Luca ganhou a camisa, entregou o cartaz ao goleiro e lembrou de pedir uma foto - quando pude, emocionado, apertar  sua mão e agradecer.
                                                             


Fiquei anestesiado com tudo aquilo... Fomos para casa nas nuvens... tive um dia de super pai de filho super iluminado. Um escutando a intuição e outro acreditando no seu sonho.

Boa semana, Rodrigo!"



De almanaque. Boa semana!


Aquele abraço, saudações esportivas


segunda-feira, 27 de abril de 2015

Pais & Filhos

Prezados (as),

A já famosa questão da colocação de limites na educação de crianças e adolescentes é tema inesgotável - e muitas vezes ganha contornos dramáticos dependendo de como a família lida com isso. Nossa amiga e psicanalista Andrea Martinelli, mãe do goleirão Heitor, enviou pra nós essa ótima entrevista de Jean-Pierre Lebrun, psicanalista belga que é referência na Europa sobre as mudanças nas relações entre pais e filhos, na dita Pós-Modernidade. 


Aqui no Chutebol costumamos lembrar que é preciso demarcar o tempo da infância, e que o compromisso com o sucesso (seja lá o que isso signifique) pode se tornar um verdadeiro pesadelo na vida do sujeito. Exatamente nisso Lebrun insiste, e fala alto: "Ensinem os filhos a falhar."

A íntegra em: 

Boa leitura!

> Por que os pais hoje têm tanta dificuldade de controlar seus filhos?
Jean-Pierre Lebrun:
Isso é reflexo da perda de legitimidade. Até pouco tempo atrás, a sociedade era hierarquizada, de forma que havia sempre um único lugar de destaque. Ele podia ser ocupado por Deus, ou pelo papa, ou pelo pai, ou pelo chefe. Isso foi se desfazendo progressivamente, e o processo se acentuou nos últimos trinta anos. Hoje, a organização social não está mais constituída como pirâmide, mas como rede. E, na rede, não existe mais esse lugar diferente, que era reconhecido espontaneamente como tal e que conferia autoridade aos pais. As dificuldades para impor limites se acentuaram, causando grande apreensão nas pessoas quanto ao futuro de seus filhos.

> Existe uma fórmula para evitar que os filhos sigam por um caminho errado?
Jean-Pierre Lebrun:
É preciso ensiná-los a falhar. Uma coisa certa na vida é que as crianças vão falhar, não há como ser diferente. Quando os pais, a família e a sociedade dizem o tempo todo que é preciso conseguir, conseguir, conseguir, massacram os filhos. É inescapável errar. Todo mundo, em algum momento, vai passar por isso. Aprender a lidar com o fracasso evita que ele se torne algo destrutivo. 

Às vezes é preciso lembrar coisas muito simples que as pessoas parecem ter esquecido completamente. Estamos como que dopados. Os pais sabem que as crianças não ficarão com eles a vida inteira, que não vão conseguir tudo o que sonharam, que vão estabelecer ligações sociais e afetivas que, por vezes, lhes farão mal, mas tentam agir como se não soubessem disso. Hoje os filhos se tornaram um indicador do sucesso dos pais. Isso é perigoso, porque cada um tem a sua vida. Não é justo que, além de carregarem o peso das próprias dificuldades, os filhos também tenham de suportar a angústia de falhar em relação à expectativa depositada neles.

> Falando concretamente, como é possível perceber essa diferença no comportamento das famílias hoje?
Jean-Pierre Lebrun:
A mudança é visível. Na Europa, por exemplo, quando um professor dá nota baixa a um aluno, é certo que os pais vão aparecer na escola no dia seguinte para reclamar com ele. Há vinte, trinta anos, era o aluno que tinha de dar satisfações aos pais diante do professor. É uma completa inversão. Posso citar outro exemplo. Desde sempre, quando se levam os filhos pela primeira vez à escola, eles choram. Hoje em dia, normalmente são os pais que choram. A cena é comum. É como se esses pais tivessem continuado crianças. Isso acontece porque eles não são capazes de se apresentar como a geração acima da dos filhos. É uma consequência desse novo arranjo social, em que os papéis estão organizados de forma mais horizontal.

> Como o senhor avalia essa mudança? Esse novo arranjo é pior do que o anterior?
Jean-Pierre Lebrun:
Hoje os pais precisam discutir tudo, negociar o que antes eram ordens definitivas. E isso não é necessariamente algo negativo, desde que fique claro que, depois de negociar, discutir, trocar ideias, quem decide são os pais.

> Essas mudanças na estrutura social podem influenciar em aspectos negativos como, por exemplo, o uso abusivo de drogas?
Jean-Pierre Lebrun:
Não há uma relação automática. Os mecanismos pelos quais os indivíduos se tornam dependentes químicos são diversos e complexos. A psicanálise ajuda a identificar alguns deles. Vou dar um exemplo. Manter uma criança em satisfação permanente, com sua chupeta na boca o tempo todo, fazendo por ela tudo o que ela pede, a impede de ser confrontada com a perda da satisfação completa. E isso vai ser determinante em sua formação.

> (...) Costuma-se atribuir o mau comportamento dos filhos à falta da estrutura familiar tradicional, como a que ocorre após uma separação. Qual a exata influência que isso pode ter?
Jean-Pierre Lebrun: Uma família organizada de forma aparentemente harmônica não necessariamente faz de um jovem uma pessoa capaz de conviver e suportar o sofrimento inerente à condição humana. Essa capacidade pode ser pequena em famílias aparentemente realizadas, com estrutura sólida. Assim como pode ser enorme em uma família conflituosa, dividida, conturbada. Por isso, não se deve levar em conta apenas o aspecto exterior da família. O que vale é a capacidade dos pais de fazer os filhos crescer. De incutir-lhes a verdadeira condição humana. Esse é o bom ambiente familiar, independentemente do desenho que a família tenha.

> O melhor mesmo, então, é aceitar que a existência é sofrida?
Jean-Pierre Lebrun: O processo é mesmo muito mais complexo do que ocorre com outros animais. Um cão nasce cão e será assim para o resto da vida. Um tigre será sempre tigre. Um humano, no entanto, precisa se tornar plenamente humano. É uma enorme diferença. Esse processo leva uns vinte, 25 anos e está sujeito a percalços. Na Renascença já se falava disso: não somos humanos, nós nos tornamos humanos."

Aquele abraço, saudações esportivas