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quarta-feira, 13 de julho de 2016

In natura

Caríssimos (as),

O treinador Rogério Micale, comandante da seleção brasileira de futebol nas Olimpíadas de 2016, deu recente entrevista na qual comentava a formação dos jogadores brasileiros: "Mudou o processo de produção. Era in natura, pelada de dois contra dois na rua, golzinho de chinelo. Isto dava desenvolvimento motor... Agora é in vitro, de proveta. A criança vai buscar a escolinha, que não reproduz a rua, mas o ambiente profissional. Perdeu-se o lastro de desenvolvimento lúdico" (O Globo, 09/07/16).

O treinador está certo. Mas me permito um comentário.

[Rogério Micale: lucidez]

Certa vez recebi os cumprimentos do pai de um aluno. Dizia que gostava muito do trabalho aqui, que seu filho havia podido se beneficiar intensamente. Perguntei se não queria jogar a pelada de pais no clube, ele falou: "Pra mim não dá. Nunca joguei bola, eu era muito ruim quando criança, ficava de fora. Na minha época, não existia o Chutebol". 

Tenho, no entanto, outra passagem e, a partir dela, vou tentar aprofundar a discussão. Estava eu dando uma aula, quando chega um grande amigo que estava pelo bairro. Resolveu entrar no clube para dar um alô. Se aproximou, ficou observando as atividades. Ele também é professor de Educação Física. Encostou ao meu lado e, ao ver o jogo de dois contra dois, com golzinho de cones que estávamos fazendo, comentou: "Tu tá ensinando esses moleques a jogar pelada, né?" - e gargalhamos. Era a mais pura verdade.

Enxergo nestas duas passagens as contradições que permitem uma elaboração mais rica. As escolinhas de futebol no Brasil, ao mesmo tempo em que são a meu ver sintoma de uma ideia duvidosa de progresso (agenda infantil lotada, futebol só com hora marcada, ruas entupidas de carros, desaparecimento dos campos de várzea) são, também, potenciais agentes de democratização do esporte. O menino ruim de bola, o anedótico criado em apartamento, pode agora usufruir de uma didática esportiva. 

Mas é certeira a análise de Micale: ao procurar reproduzir o ambiente profissional nas escolinhas, o futebol brasileiro incorreu em erro grave. Os melhores jogadores profissionais são, visivelmente, aqueles que conseguem incorporar as aprendizagens mais formais do esporte (estratégias, disciplina tática, etc) ao próprio jogo individual. Jogo este que depende da capacidade criativa e da espontaneidade do jogador. Estas últimas características dependem de um ambiente no qual seja possível se expressarem. Este ambiente é o da brincadeira. O psicanalista inglês D. Winnicott dizia que, para a criança, "o natural é o brincar". Por isso, o treinador da seleção está certo. Antigamente era in natura. Mas o que aconteceu para que não seja mais? Tenho uma hipótese.

A figura do professor de Educação Física tem uma imagem muito fragilizada no Brasil. Como as demais disciplinas não formais - artes, música, filosofia - ela carece o tempo todo de justificativas para ganhar relevância no currículo escolar. Assim, para adotar uma postura, digamos, séria perante o distinto público, formou-se ao longo de décadas a ideia de que uma atividade física deveria ser algo muitíssimo sério, caso contrário ficaria em risco a própria pertinência da necessidade deste campo de conhecimento para fins educacionais. Bastariam os treinadores de alto rendimento, estes sim, plenamente justificáveis, possuidores de um saber claro, visível na preparação dos atletas de ponta.

Por analogia, a partir da proliferação das escolinhas de futebol, qual o sentido de existir um professor - digno deste nome - para comandar uma atividade que, na verdade, bastaria deixar ao encargo da meninada, eles que sempre souberam jogar uma peladinha? Temeroso de cair no papel de preguiçoso, daquele que não faz nada além de apitar, ou do recreador (um papel menor), só restou como justificativa palpável a seriedade esportiva; em outras palavras, o processo in vitro que Micale aponta. Reproduzir o ambiente profissional de treinamento nos clubes, para justificar que algum trabalho seja feito efetivamente (honestamente, mesmo que no discurso se fale na importância do lúdico, são poucos os que o sustentam com consistência teórica e prática).

Mas este não é o melhor trabalho a ser feito, sob nenhum ponto de vista. Pedagogicamente, a brincadeira é a base do desenvolvimento psicomotor e social; do ponto de vista desportivo - sabemos agora - é também o aspecto lúdico do jogo aquilo que vai diferenciar os jogadores, apresentá-los em sua singularidade. Creio que os professores tenham receio, muitas vezes, de se verem desvalorizados por abraçar a brincadeira, como que desqualificados por fazer algo de menor importância - até pelos próprios pais dos alunos. Ledo engano. Isto remete, ainda, à formação destes profissionais, que fracassa muitas vezes em apresentar material realmente consistente para justificar seu trabalho perante a sociedade.

A organização das cidades, as questões pedagógico-sócio-econômicas que impedem a pelada de rua e dos campos de várzea são assunto mais amplo, que não está ao alcance imediato (é bom pensar nisso). No entanto, faria bem aos professores e treinadores assumirem com seriedade não somente o esporte, mas a brincadeira. Assumir compromisso com ela, se apropriar de suas teorias e maneiras de implementar é privilegiar o desenvolvimento infantil em sua plenitude. Até para formar atletas melhores - e não só no sentido da técnica de jogo, mas da leveza do espírito.

Seja na rua, no campinho ou na quadra do clube. In natura.

Aquele abraço, saudações esportivas

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Perder, perder, perder

Caros (as),

No momento em que escrevo, Lionel Messi, o maior jogador em atividade no planeta, coloca em dúvida sua continuidade como jogador da seleção argentina. Ainda não se sabe ao certo se por motivos políticos (em protesto vigoroso contra a AFA - Associação de Futebol Argentino); ou se pela questão das seguidas e insuportáveis derrotas em finais de campeonatos. Para uma discussão que interesse a este espaço, fiquemos com a segunda hipótese. Vejamos.



O craque erra a cobrança de pênalti. Sua equipe fracassa. O mundo desaba em suas costas. O filme que passa em sua cabeça é de terror: a cobrança, a imprensa, as provocações. A pressão se torna um monstro insuperável. Ele simplesmente se vê menor do que imaginava ser e, diante do sentimento de fracasso absoluto, resolve sair de cena. Me lembrei das crianças.

É bastante comum na infância, com a molecada que começa a participar de competições bem cedo (aos seis, sete, oito anos), que alguns tenham de passar por uma experiência muito dolorosa, a de perder seguidas vezes. Não só perder seguidas vezes, como terminar um torneio em último lugar, uma vez após a outra. Que fazer?

Me parece que, nestes momentos, nos vemos diante de um dilema ético. De visão de mundo, mesmo. O senso comum sugere, a partir dos enredos que permeiam um fundo comum da cultura ocidental, que após as derrotas virão as vitórias, o que permite ao jogador - seja ele mirim ou profissional - sustentar uma esperança de dias melhores. No entanto, ao se deparar com uma derrota após a outra, a realidade se mostra um tanto mais dura do que as promessas infantis de superação e vitória. Nesta ótica, continuar tentando perde o sentido. A derrota ganha peso de certeza, a pessoa não consegue mais acreditar, em si ou na promessa. Repito a pergunta: que fazer? 

A saída infantil mais apavorada é a de sair de cena, desistir. "Não sirvo pra isso, não sou bom o suficiente, fracassei", etc. Outra saída, oposta, é o auto-engano: "Não é culpa minha, o juiz sempre rouba, sou azarado, meu time é ruim", etc. Existe ainda uma terceira: "Eu sei que eu vou ganhar, a promessa é verdadeira, um dia todo mundo vence", etc. Não me agrada nenhuma delas. Podem servir em casos pontuais, em desabafos, aqui ou acolá. Mas não sustentam o peso de uma realidade adversa, duramente adversa. 

Puxo o fio do dilema ético. O narcisismo contemporâneo não suporta a realidade dos fracassos. Diante da possibilidade deste, se esperneia, se esquiva, se agride. Pouco se enfrenta. Aí está: o enfrentamento do abismo, de nossa condição de incompletos, imperfeitos, derrotados de antemão por jamais sermos tudo o que queríamos ser, tem ficado de fora da pauta. Simplesmente não está mais em discussão. 

Mas isso é falso. Sem a percepção honesta de nossa condição humana, o imperativo ético da superação (que produz sentidos e alimenta esperanças de maneira legítima) fica capenga. Manco. Porque se é verdade que um dia todos podem vencer, não é uma certeza. Podem, hipótese. O que representa então, diante do insucesso seguido, o sentido para seguir jogando, lutando, vivendo?

Jogar até o final. 

O futebol é um esporte tão rico para encenar os dilemas humanos que até um ditado de botequim serve para explicar o que quero dizer: "o jogo só acaba quando o juiz apita". Até lá, por respeito a si mesmo, aos companheiros, adversários, ao distinto público e por amor à bola, ao jogar/viver em si, a alternativa mais honesta que conheço é esta. Não se apresenta assim por passe de mágica, mas é passível de construção e de sustentação. Nela, cabe até mesmo o fracasso absoluto. Que na verdade, convenhamos, não passa de uma fantasia. 

As decepções de Messi em finais com a seleção argentina não apagam o magistral jogador que ele é - só em sua cabeça confusa, neste momento de dor. Assim como uma criança pode não tirar nunca o primeiro lugar, mas fatalmente experimentará boas vitórias se seguir jogando. O futebol é um esporte coletivo e, quem já conseguiu deixar de lado um pouquinho de sua onipotência, sabe que ganhar ou perder dependem de muito mais coisas do que o próprio umbigo. Mas 'Jogar até o final' é um imperativo mais potente do que 'Um dia vencerei', pois que nele há lugar para as desilusões mais graves. Cair lutando é genuinamente corajoso.
  
Fica aqui um pedido em nome das gerações mais novas, que tanto se espelham nos craques. Sejam arrogantes como Cristiano Ronaldo, pirotécnicos como Neymar, agressivos como Luizito, aparentemente alheios ou abatidos, como Messi - mas por favor, menos afetação e mais futebol.

Aquele abraço, saudações esportivas

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Registro: Torneio Interno Junho/2016.2

Prezados Torcedores Responsáveis,

O Torneio Interno de Junho/2016 (categorias 10 a 12 e 12 a 14 anos) nos brindou com ótimos jogos e uma visível evolução das aprendizagens por parte dos craques! Veja abaixo o registro da classificação e das premiações, com comentários ao final. Nosso álbum está completo no link (fotos de Rafael Magalhães):



Categoria 12 a 14 anos (Capitães com*):

CampeãoNova Iguaçu [Gabriel Quintas*, Igor Dana, Thomaz, JP Areas, Luiz Fernando, Antonio Lacombe].

[Nova Iguaçu: Campeão!]

2o LugarCarreta Furacão [Rafael Bittencourt*, Murilo, Vinícius, Rafael Martins, Bernardo Pessoa, Pedro Pereira]


3o LugarSacavac [PH Cardoso*, Thiago, Breno, Hugo, Mathias Sussekind, Bernardo Pimentel].



*Premiação Especial (a cor corresponde à equipe):

Craque: Gabriel Quintas
Artilheiros: Igor Dana.
Melhor Goleiro: Thiago Bacellar
Medalha Raça: Vinícius Velozo


Categoria 10 a 12 anos (Capitães com*):

CampeãoVermelho [Pedro Pereira*, Marquinhos, Lucas Polillo, Gabriel Arcalji, Felipe Miranda].




Vice-CampeãoAzulados [Hugo*, Enzo, Davi, Antonio Nery, Antonio Lacombe, Vicente Flaksman]




3o Lugar: Chá Gelado [João Naliato*, Rafael Protasio, Luis Fernando, Vicente Lisboa, Felipe Ripper].




4o Lugar: Kchau [Bernardo Pimentel*, Vicente Ferran, Yan, Pedro Levinson, Daniel Antabi].



*Premiação Especial (a cor corresponde à equipe):

Craque: Gabriel Arcalji
Artilheiro: Gabriel Arcalji e Enzo Andrade
Melhor GoleiroLuis Fernando
Medalha Raça: Rafael Protasio

***
Agradecemos de antemão aos familiares pela presença e pelo carinho com o Chutebol! A educação esportiva fica incompleta, perde a potência se os pais não chegarem junto. Fica capenga.

[É goool!!]
 
Nestas idades mais avançadas fica muito evidente a evolução técnica e tática dos jogadores, e pudemos assistir a partidas realmente muito boas, com destaques individuais amparados em boas construções coletivas.

Ainda e sempre, a vontade de vencer e a solidariedade são valores que cultivamos no intuito de sustentar uma espécie de elegância desportiva, na qual as situações de derrota e vitória, com todas as cargas afetivas possíveis (das mais felizes às mais difíceis) sejam vividas com naturalidade e acolhimento pelos craques mirins.

Contamos sempre com vocês!

Aquele abraço, saudações esportivas

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Registro: Torneio Interno Junho/2016

Prezados Torcedores Responsáveis,

O Torneio Interno de Junho/2016 (categoria 08 a 10 anos) foi emoção até o final! Decidido nos pênaltis, com a arquibancada vibrando - e papais e mamães de coração nas mãos! Algumas fotos da competição (por Rafael Magalhães) já estão em nosso álbum na internet, no link:



Estamos aguardando o trabalho de seleção de fotos para completar o álbum e, muito em breve, comunicamos! Confiram os resultados:

CampeãoPantera Negra [Antonio Salomone*, Luca Marques, Felipe Mattos, Henrique Bahiense, Gustavo Marcolino]. 
 

Vice-CampeãoBola Furacão [Gustavo Portela*, Pedro Abba, Lucca Borges, J. Pedro Pinho].

3o LugarCarreta Furacão [Lourenço*, Joca, Gabriel Brakarz, Henrique Miranda, J. Pedro Àvila].

4o LugarOs Minions [Caetano*, Pietro, Théo d'Àvila, Victorino, J. Victor Paraíso].

5o LugarMc Folhinha Marrom [Rafael Austin*, Fred Martins, Ravi Igreja, João Arraes, Felipe Bastos, Pedro Futura].

6o LugarÉ gol [Danilo*, Pedro Porto, Felipe Cukier, Pedro Burlamaqui, Gabriel Junqueira, Antonio Ketter].

7o LugarOs Campeões de Ouro [André Massa*, Ricardo Sertã, Diogo Gavinho, Bento, Felipe Stopatto].

8o LugarBatatas Militares [Artur Storino*, Lucas Bond, Pedro Barreto, Daniel Moura, João Caminha, Miguel Mexas].

*Premiação Especial (a cor corresponde à equipe):

[O pênalti decisivo]
Craque: Gustavo Portela
Artilheiro:Gustavo Portela 
Melhor Goleiro: Gustavo Marcolino
Medalha Raça: Pietro Bellintani

***
Gostaríamos de agradecer, antes de tudo ao apoio das famílias: o comparecimento e o carinho com o Chutebol são fundamentais para dar sustentação ao compromisso pedagógico de, efetivamente, educar pelo esporte. Para além do discurso, sabemos, pela experiência, que é na prática que se evidencia o suporte do adulto à criança, em especial nos momentos mais difíceis.

[O Craque em ação]
Como é perder? Como é suportar perder seguidas vezes? Será que sou bom? Corro o risco de decepcionar minha família e amigos? Sou capaz de vencer? Estas e muitas outras questões permeiam o momento competitivo que, se bem aproveitado - qualquer que seja o resultado obtido - implica em aprendizagens diversas, bem como no enriquecimento da personalidade da criança. 

Antes da decisão, vencida nos pênaltis pela equipe Pantera Negra, houve um momento que talvez poucos tenham reparado: os próprios jogadores das duas equipes (a outra era a Bola Furacão) organizaram um cumprimento antes do início da partida, nos moldes que temos visto nos jogos profissionais. Fugiu ao nosso protocolo que, por questões de agilidade, prevê o cumprimento apenas depois de cada jogo.

Para além da identificação com os jogadores profissionais, antigo sonho infantil, conseguimos mais uma vez proporcionar este ambiente bom, no qual os finalistas, sem a ajuda de qualquer adulto, fizeram questão de se congratular antes da partida decisiva. Demonstraram que estão se formando como pessoas que se preocupam com outras pessoas. Não parece pouco.
[Medalha Raça]


Acredito firmemente que o cuidado dos próprios jogadores para com os adversários foi (é) reflexo do bom acolhimento que todos nós, familiares e professores, temos nos esforçado em proporcionar. 

Mais uma vez, muito obrigado a todos!

Aquele abraço, saudações esportivas